Finalmente, depois de um ano mais parecido com uma epopéia, a qual incluiu, entre outras coisas, defesa de tese [com direito a muito choro e ranger de dentes], primeiro ano num trabalho novo e desgastante e a péssima notícia da doença do meu pai quase às vésperas do Natal, eu consegui fugir de tudo e vir descansar. Escolhi Salvador por inúmeros motivos, dentre eles a visita de uma amiga que mora em Londres e só vem ao Brasil uma vez por ano. Deixa eu explicar [senta que lá vem história]. Minha amiga, que é brasileira, mas virou cidadã britânica, conheceu o atual marido, um baiano fofo toda vida, lá pelas terras da dona rainha. Esse ano, em vez de ficar o tempo todo pelo Rio, ela veio à Salvador conhecer o restante da família do Sr. hubbie. Daí resolvi vir também e matar logo dois coelhos [nossa, acho essa metáfora horrível!]: conhecer a Bahia, primeiro lugar do nordeste onde eu piso na vida e aproveitar pra ficar mais um pouco com a minha amiguinha.
Então cheguei aqui na sexta à noite, sozinha [a Mari só chegaria do Rio no sábado à noite] e sem conhecer nada. Me entrosei com uns paulistas no aeroporto [sempre os paulistas] e descobri que eles vinham na mesma direção que eu, só que pra outro hotel. Resolvemos pegar o busão do aero e economizar as 75 pilas do táxi pra gastar em lembrancinhas no Pelô. O moço foi gentil e fez questão de retirar a minha imensa mala do micro-ônibus [nem sei como o motorista não me mandou escolher: eu ou a mala]. Na primeira noite aqui dormi muito e profundamente, acordei cedo e fui correr. Eu penso que no primeiro dia de férias, em qualquer lugar onde se esteja, a gente deve ‘despressurizar’. E foi o que eu fiz. Fiquei à toa a maior parte do sábado. Encontrei um amigo daqui e conversamos muito, dormi depois do almoço, fui à praia ver o finzinho da tarde e saí só à noite pra comer acarajé, o mais famoso daqui, dizem. Sorte minha que a Cira tem uma ‘filial’ no Rio Vermelho, onde eu estou. Depois de enfrentar umas 40 pessoas que estavam esperando na fila, finalmente provei o dito cujo. Achei bom, mas me apaixonei mesmo foi pelo bolinho de estudante [ontem, o marido baiano da minha amiga me contou que esse bolinho também é chamado de 'punheta', pela maneira como é feito, na palma da mão, perto do punho. Ok; mas chegar em algum lugar e gritar 'Me vê uma punheta!' não rola, né?]. Enfim, o dia perfeito.
Ontem, depois de correr, fui me aventurar nas ruas do centro histórico. Um programa que certo amigo meu diz que merece ‘5 cocares no índice programas de índio’. Pode até ser. Mas eu sou turista, né? Portanto, devo fazer coisas de turista, como me encantar com o azul do mar do alto do elevador Lacerda; ir ao Mercado Modelo, sorrir para todos os vendedores e não comprar nada; pegar um busão num calor senegalês e ir me aventurar sozinha até a Igreja do Bonfim [onde fui extorquida por uma bichinha que me vendeu um patuá de Omolu por 3 reais. Não sei se já disse a vocês, mas as bichas me adoram, me amam, me farejam onde quer que eu vá. Eu ri muito com o vendedor de patuás e dei os 3 reais feliz da vida. E ainda ganhei uma figa 'de brinde']. Depois do Bonfim, me joguei pro Pelourinho, mas já estava cansada e faminta. Mesmo assim consegui percorrer uma parte das ruas e comprei camisetinhas lindas por 10 pilas cada uma. Almocei moqueca, morrendo de medo do azeite de dendê [mas nada aconteceu, a não ser uma pequena 'indisposição' à noite, mas essa passou rapidinho]. Eu achei o prato – pra uma pessoa – grande demais. O que não me impediu de comer tudinho, de quase virar a panela pra aproveitar a última gota do caldinho, que eu misturei com aquela farofa amarela e muito feijão fradinho. A noite fui tomar cerveja e papear com Mari e Mr. hubbie baiano [ele se chama Guilherme, como meu filho] e fim do segundo dia.
Hoje estou aqui, no quarto do hotel, quase onze da manhã [horário local, já que aqui não tem horário de verão], de camisola, sem café e tentando pensar no que vou fazer. Talvez eu vá à praia [correr não rola hoje, tomei cerveja ontem e fiquei lerda], talvez eu volte ao Pelô, talvez eu visite uns fortes de barco, talvez eu passeie pela Barra. Talvez. Certo mesmo só o jantar à noite no Yemanjá e a minha preguiça que não passa. Acho que já me adaptei ao ritmo local e não quero saber de planejar nada, vou fazendo o que der vontade, pois com certeza voltarei aqui muitas outras vezes. Agora são 11 da manhã e acho que vou tomar café. Depois eu conto das minhas impressões, quando a preguiça passar. Depois.











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