November 6, 2009

Livros da minha vida

Houve uma época na vida em que eu lia bastante, muito mesmo. Foi antes do vestibular, quando estudava no Liceu Nilo Peçanha e tinha a biblioteca municipal bem no caminho de casa. Embora tenha lido muita porcaria, alguns livros dessa fase foram especiais e determinantes na escolha da minha futura profissão. Foi ali que eu li Sartre pela primeira vez, por exemplo. E Zola. E vários autores brasileiros. Contudo, acho não vale a pena falar desse período, porque eu ainda estava verde e não sabia escolher. O que eu me lembro de verdade foi que aos dezessete anos eu descobri Manoel Bandeira e achei tudo tão lindo que decidi fazer uma faculdade onde se podia estudar poesia.

Minha seleção de livros marcantes, portanto, é a seguinte:

1. Obras Completas de Monteiro Lobato: primeiríssimo na lista dos livros marcantes, a coleção foi presente da minha avó materna (sempre ela) e eu a tenho até hoje, na estante do meu quarto, encapada em couro vermelho e com as páginas super-amareladas. Alguns dos treze livros eu li umas quatro vezes, mesmo depois de adulta. E, embora lançando ao autor e sua obra um olhar crítico hoje em dia, ainda tenho uma vaga sensação de encantamento quando pego alguns desses livros.

2. Crônica da casa assassinada (Lúcio Cardoso): o livro é uma obra prima, uma das melhores coisas que já li. Pra mim o que marcou foi a narrativa carregada, o desejo aflorando em cada linha, a atmosfera sufocante. Tem muitas resenhas maravilhosas sobre o livro como essa aqui. Eu só posso dizer que trata-se de uma das obras mais injustiçadas da literatura brasileira.

3. O Evangelho segundo Jesus Cristo (José Saramago): eu gosto da polêmica que o livro causou e da humanização com a qual ele reveste o mito. Não tenho a menor idéia se é ou deixa de ser um dos melhores ou piores de Saramago. Mas acho que ele é certamente bem melhor do que o Saramago atual. Foi lido numa fase de questionamentos intensos.

4. Investigações Filosóficas (Ludwig Wittgenstein): bom, sobre esse eu poderia escrever durante um ano, de tanto que já li e reli, e por toda a literatura secundária sobre ele a qual já tive acesso. E mesmo assim não seria nem uma mísera parte do que pode ser dito sobre o livro. É uma obra extremamente cerebral, com um estilo solto, sem compromisso com encadeamentos de idéias ou coisa parecida. O autor vai e volta, por vezes como se estivesse pensando alto ou dialogando com diversos interlocutores. Dizem que na Alemanha ele é estudado como literatura. Genial é o mínimo que se pode dizer da obra, considerada divisor de águas não só na carreira de Wittgenstein (fala-se no ‘primeiro’ e no segundo’ Wittgenstein, ou seja, o Wittgenstein antes e depois das Investigações), como também na filosofia contemporânea.

5. A Sangue Frio (Truman Capote): outra obra imprescindível, essencial e necessária [coloque aqui neste espaço outros sinônimos que você conhece: _____________]. Uma escrita violenta, apaixonada, meticulosa e reveladora. Capote consegue a proeza de transformar assassinos frios em gente de carne e osso, com contradições e ternuras, como qualquer mortal comum. Acho magistral.

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Fica aí a sugestão pra quem quiser fazer a sua listinha.

November 5, 2009

Há 3 anos

Eu escrevi essas besteiras há 3 anos atrás, na véspera do meu aniversário. Ontem, depois de conversar longamente com um amigo, eu reli o texto. Me pareceu meio bobo agora, olhando à distância. Eu andei aprendendo coisas nesses últimos anos que me deixaram mais espertinha. Logo, isso aí me soa como um apanhado de mimimi feelings. Eu nem sei o que é ‘ir fazendo o que você acha que deve’. Eu não tenho ‘as rédeas do meu destino’, como uma heroína do Manoel Carlos teria [e nem quero!!!]. Muito medo de quem acha que já sabe tudo e tem respostas pra todas as coisas. É ótimo olhar pra trás e constatar que eu não permaneci a mesma. [De resto, eu ainda quero ir pra Nova York, sabem? Ainda quero participar de um seminário sobre ceticismo em Cambridge, e quero fazer pós-doc no exterior sim, viu Thur, hahahahahaha. Ah. E ainda não desisti de virar a melhor confeiteira do mundo. Doutora e 'fazedora' de bolos, claro]

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Se há alguma coisa a aprender é essa: não espere nada. Não espere que façam sua vida melhor. Eu não sei como escrever isso sem parecer amarga e ressentida. Sabe como é. Um ano. Foi embora. Hora de botar os pesos na balança. Mal você piscou os olhos e pronto. Hora do spring cleaning. Não tem metáfora mais gasta que essa – e eu sou a rainha das metáforas gastas. Novel metaphors me dão sono.

Voltando. Não estou batendo no peito e dizendo: “Eu me basto.” Seria ridículo E mentiroso. Mas eu aprendi que dá pra ser independente sem carregar bandeira em praça pública. É só não esperar muito. Vai fazendo o que você acha que deve. Se alguém quiser te acompanhar, ótimo.

Bom, eu fico aqui tentando. Planos, por exemplo. Eu tenho muitos. Vários. Alguns inexequíveis. Sem problema; o exercício de elaborar os planos já me basta. Um seminário sobre ceticismo antigo e moderno em Nova York. Um apartamento meu, do jeito que eu quero, antigo, sem elevador, sem garagem, sem porteiro e com o mínimo de crianças. Mais tempo pra dar aulas na favela da Grota. Eu penso em tudo isso. E, se não der pra fazer agora, eu passo pra outro. Talvez um dia eu visite aquele plano engavetado. E, quem sabe, não é a hora dele?

Eu acho que se pensar muito no macro, não dá pra ser feliz não. É muita minhoca que essa filosofia botou na minha cachola. Mas olhando pro meu micro-cosmo a coisa muda de figura. Eu fico vendo a Sassá deitada aqui na cama, me olhando com olhinhos de sono e carinho. A Keka esparramada no sofá, branquinha e macia. Sempre pronta pra me deixar apertá-la mais um pouco. Meu filho crescendo e virando homem. É um lindo processo esse de transformar alguém em gente. Hora em que eu paro e penso: “Puxa, então fazer daquele jeito não foi de todo inútil.” E olha que eu tinha tanto, tanto medo. Coisa de mãe jovem.

Amanhã é hora de colher mais um. E, embora esteja muito, muito cansada, fisica mental e emocionalmente, eu preciso fazer esse retrospecto. Um ano para ser lembrado. Dificílimo, e não por causa da tese. As coisas que realmente importam passaram a ter outro significado. E eu não tenho mais medo de nada.

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Eu tenho que contar que foi tão maravilhoso hoje ver meus alunos de sexto período cantando parabéns. E dizendo coisas carinhosas. Metade da turma já tinha ido. E os que ficaram quase me matam do coração. Nunca pensei que isso fosse acontecer. Outro dia uma aluna dessa mesma turma veio me perguntar se eu poderia orientar a monografia de final de curso dela. Meu primeiro pedido de orientação. Que vai entrar pra história. Como, aliás, quase tudo nesse ano.

November 4, 2009

Eu vou!!

Luluzinha

No próximo dia 14 vai acontecer no Rio de Janeiro a terceira edição do Luluzinha Camp!!

Como eu nunca participei de nenhuma edição estou super entusiasmada. Vou levar bolinho de chocolate, meu copinho verde limão, algumas roupas pro bazar e muita vontade de conhecer as meninas. Por enquanto, das minhas amigas, só a B. confirmou presença. Portanto, se você mora no Rio, tem blog ou acompanha blogs e quer passar uma tarde legal, bora participar? Além da diversão e das pessoas legais, ainda rolam sorteios, quer coisa melhor?

Corram e garantam seus lugares, Luluzinhas cariocas. A gente se vê por lá!

November 3, 2009

Texto e prazer

barthes

O lugar mais erótico de um corpo não é o ponto em que o vestuário se entreabre? Na perversão (que é o regime do prazer textual) não há ‘zonas erógenas’ (expressão aliás bastante importuna); é a intermitência, como muito bem o disse a psicanálise, que é erótica: a da pele que cintila entre duas peças (as calças e a camisola), entre duas margens (a camisa entreaberta, a luva e a manga); é essa a própria cintilação que seduz, ou ainda: a encenação de um aparecimento-desaparecimento

Roland Barthes, O Prazer do Texto


Barthes é um dos teóricos mais importantes da teoria da literatura. Eu o conheço pouco, embora tenha imenso apreço pelas suas obras, na verdade, duas em especial: Aula e O Prazer do Texto. Minha edição desse último é portuguesa, com prefácio de Eduardo Prado Coelho. Meu exemplar data de 1993 [eu costumo escrever as datas em que compro os livros] e está caindo aos pedaços, todo colado com uma feia fita gomada. No texto, eu sublinhei as passagens que achei mais bonitas, porque não li o livro procurando teoria. Meus olhos se encantaram mesmo foi com a beleza do texto. Vejam se não estou com a razão:

O texto que escreve tem que me dar a prova de que me deseja. Essa prova existe: é a escrita. A escrita é isso: a ciência das fruições da linguagem, o seu kamasutra (desta ciência, existe um só tratado: a própria escrita)

Lindo demais, não?

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Agradeço ao meu amigo  pela foto.

November 2, 2009

Who’s that girl?

lourdes leon

O jeito da mamãe?

Simplesmente adorei essa foto.

November 1, 2009

Papai Noel, não se esqueça de mim

wittgenstein herald tribune

Mais um livro sobre Wittgenstein que vai pra minha lista de 'cobiçados'

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Minha amiga Mari mandou a notícia pra mim. Já estou preparando a cartinha pro bom velhinho dizendo o óbvio: que, esse ano, eu fui uma boa menina, comi todos os legumes e quase nem falei palavrão.

[Eita velhinho fácil de enganar...]

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A quem interessar possa: “The house of Wittgenstein: a family at war”, Alexander Waugh, Doubleday.

November 1, 2009

Filosofia pra começar o dia

É notável que consigamos descrever o mundo, e que consigamos inclusive falar sobre coisas que nunca existiram e jamais existirão? É absolutamente notável que sejamos capazes de usar a linguagem, sem dúvida. Mas é também absolutamente notável que certos peixes nasçam nos rios, migrem para o mar e, depois de muito tempo, consigam orientar-se em meio ao oceano, achar a foz do mesmíssimo rio em que nasceram, e voltar ao seu lugar de origem para desovar. Apesar de todo o assombro que esse fato possa nos causar, até onde eu sei, ninguém até hoje postulou a existência de um mapa dos oceanos na “mente” desses peixes. A ciência investiga o que torna isso possível examinando a fisiologia desses organismos, seus padrões de interação com o ambiente, e as capacidades comportamentais que eles exibem. Não há razão para agir de outro modo com relação à linguagem.

João Vergílio Cuter, prof. da USP em: “Intencionalidade em Wittgenstein: a crítica sistemática da filosofia tradicional”. Revista Mente, cérebro e filosofia. 9, p. 16-23, 2008.

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Para os loucos que, como eu, se interessam pelo assunto, tem também uma palestra do João Vergílio gravada em DVD. Ela se chama “Wittgenstein e a virada linguística da filosofia” [Para comprar é só ir aqui]

October 31, 2009

Eu gosto

… e acho gata.

pitty 3

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E nem conheço muito a música dela, tirando a última,
Me adora. Mas gosto da atitude da moça. Ponto.

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Aliás e a propósito: tem entrevista com a Pitty na
TPM desse mês.

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Adendo ao
post anterior: a mesma TPM fez uma reportagem algum tempo atrás sobre o machismo dos brasileiros e a mania de dizerem que a culpa do assédio é da mulher e das roupas que ela veste. Aqui.

October 30, 2009

É simples, é fácil, qualquer um pode fazer!

Uma piada interna

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Nuno – GO WEST! says:

depois queria q c me explicasse como chego andando ao aero. meu pai n vai estar aqui p me levar. dor e sofrimento

Cristiane says:

aero de onde???

Nuno – GO WEST! says:

o santos

Cristiane says:

santos dumont???

ué, aqui na frente da minha casa passa um busão

daquela viação q vai pra pendotiba

Nuno – Internet ruim não é legal. says:

é

Cristiane says:

posso investigar o número pra vc

q não sei de cabeça

ou então vai de barca

e puxa a malinha até o aeroporto

eu e o comandante já fizemos muito isso

Nuno – Internet ruim não é legal. says:

sabe nome e numero?

eu n sei chegar lá a pé ahah

Cristiane says:

como não sabe?

não tem erro

sai das barcas e vai andando pela calçada

vc chega lá

não tem como errar!!!!

Nuno – Internet ruim não é legal. says:

q calçada?

Cristiane says:

vc sai das barcas e toma a direção da esquerda

tem uma calçada

vai por ela

até chegar no aero

Nuno – Internet ruim não é legal. says:

por dentro da praça 15?

ou a da rua lá na frente:?

eu tenho mt talento p n saber como chegar aos lugares

Cristiane says:

bruno

vou desenhar, rs

quérido

vc sai da barca, néam?

ali na praça XV

não precisa ir a lugar algum

Nuno – Internet ruim não é legal. says:

sim

Cristiane says:

vá caminhando placidamente pela calçada passe em frente ao rei do mate e continue caminhando

na calçada

Nuno – Internet ruim não é legal. says:

ahhahahahah

eu n posso ser bom em tudo

ouquei?!

Cristiane says:

não desça, não atravesse

Nuno – Internet ruim não é legal. says:

ahhahahaha

Cristiane says:

simplesmente caminhe

kkkkkkkkkkkkkkkk

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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Cristiane, treinando pra ser guia de turismo no Ridejanêro. Em tempo, eu não sei ler mapas, sou péssima pra seguir instruções, mas como eu e o Bruno vamos casar e viver um louco amor [acho que alguma coisa nessa frase não faz sentido], eu abri uma exceção.

viagem 129 - Cópia - Cópia

Bruno sussurando obscenidades no meu ouvido. SP, 2009.

 

October 29, 2009

O horror

Com o passar do tempo, eu me tornei uma pessoa mais sensível a manifestações de machismo, tanto veladas quanto explícitas. Na verdade, elas sempre estiveram aí, lógico, mas nunca chegaram a me incomodar tanto quanto agora, que eu tenho mais consciência delas. De tanto ler e ouvir pessoas diferentes, fiquei mais sensível ao tema. Antes de prosseguir, é preciso que eu deixe bem claro que eu não tenho experiência acadêmica no assunto e, o que sei, aprendi de segunda mão. Portanto, o que eu digo são as minhas opiniões, mescladas com coisas que outras pessoas disseram e que eu acho pertinentes. E eu nem sei se já sou capaz de processar essas opiniões com a devida propriedade. Muita coisa do discurso machista me escapa – e isso me faz sentir uma pateta, à vezes.

Por que essas coisas têm me incomodado tanto? Como eu disse, eu fiquei mais sensível a elas. Antes eu seria incapaz de reconhecer machismo na maioria das situações que hoje me perturbam. Quando eu falo machismo, eu preciso dizer que isso não se refere necessariamente apenas aos homens. É algo que tem a ver com discursos e as posições que nós assumimos. Explico. Em linguística, existe uma linha de pesquisa que se chama ‘análise do discurso‘. É uma denominação que acomoda algumas linhas diferentes entre si, mas essa de que vou falar leva o nome de seu principal precursor: Pêcheux. Não é a minha praia, sei muito pouco, mas, do que li, algumas coisas se mostraram úteis pra eu entender o que se passa quando se fala desse tema. Resumidamente, a análise do discurso afirma que os sujeitos enunciam de um determinado ‘lugar’ na cadeia discursiva. A isso equivale dizer que ninguém enuncia , ou seja, diz nada no vácuo porque o discurso é uma construção social. A gente é meio que ‘capturado’  por essa estrutura. Quando a gente acha que está enunciando algo ‘inédito’, do fundo do coração, ou porque acredita-se sujeito e senhor de suas vontades e atos está apenas e na verdade atualizando discursos vigentes. As nossas falas são colagens e não tem nenhuma originalidade nisso. É como se, ao dizer algo, estivéssemos assumindo uma determinada posição, nos colocando em algum lugar para, dali, dizer algo. Fazemos isso o tempo todo.

Por que eu estou dizendo isso? Porque muito frequentemente eu escuto pérolas machistas, mas as pessoas que as dizem 1) não sabem ou não reconhecem nelas machismo algum; 2) não acham que estão reforçando nenhum discurso opressor. Dão várias razões pessoais para o fato, como se isso justificasse suas falas. Pra não ficar confuso, vou dar um exemplo. Meu pai sempre diz ao meu filho quando voltamos da casa dele [detalhe: moramos no mesmo prédio, 5 andares acima]: “Toma conta da sua mãe”. Apressadamente alguém poderia dizer: olha aí um homem preocupado com a filha. Eu diria: olha aí um exemplo do que eu acabei de falar. Meu pai tem 72 anos e com certeza nunca iria pensar que está sendo machista ao dizer isso, mas está. Para ele, uma mulher sozinha, sem marido, sempre vai precisar de alguém que tome conta dela, ainda que ela seja independente, pague suas contas, seja doutora e funcionária federal. Nada disso entra nessa conta. Como meu paizinho não entenderia um ato de revolta meu, eu simplesmente balanço a cabeça e sorrio. Mal sabe ele que apenas repete uma noção que está entranhada em quase todo tipo de discurso. Essa ideia da mulher desprotegida, desamparada e em perigo só porque está sem homem.

Noutras ocasiões eu sou tomada de espanto justamente pelo teor explícito – e nojento – das coisas que eu escuto. Lá no trabalho tem um grupinho de machos-alfa que adora nos brindar com pérolas. Coisas do tipo “Mulher não precisa falar nada inteligente; é só abrir as pernas”. Juro. Isso no meio de professores. Nessas horas eu nunca consigo ficar quieta e mando logo uma frase mal humorada do tipo “Ah, você devia se olhar no espelho de vez em quando antes de falar isso”. Eu sei que deveria tentar dizer algo mais inteligente, mas eu me sinto uma troglodita nessa área [direitos da mulher] e não tenho muitos argumentos. Só me dá raiva mesmo. E eu com raiva não consigo articular nada que preste.

Sobre essa coisa de não ter argumentos. Por exemplo, aqui no Ridejanêro tem um carro só para mulheres no metrô, nos horários de rush. Antigamente eu achava bobagem. Agora eu não acho mais. Claro que eu acho que o ideal seria que os homens fossem educados o suficiente pra entender que as mulheres não são um pedaço de carne que eles podem ir passando a mão impunemente. A gente adora sexo – ou não, e isso também não é problema nenhum – e, por isso mesmo, a gente pode escolher com quem, quando e como vai fazer. Como a grande maioria dos seres que possuem pinto não possuem, entretanto, tal discernimento, eu passei a achar o tal carro uma boa opção. Eu, por exemplo, só ando nele. Mas se me perguntarem a razão eu não tenho argumentos muito mais sofisticados do que os que eu apresentei aí em cima. E que, bem. Pra mim são suficientes. Eu decido se quero alguém se esfregando em mim, assim como a hora, o local e tudo mais. E como tem pessoas que não entendem esse princípio simples, a gente desenha.

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Eu comecei a escrever esse textinho há algum tempo e andava sem vontade de terminá-lo até que ontem, quando cheguei em casa tarde da noite, o Marcus me conta do babado que movimentou a blogosfera durante o dia: a notícia sobre a aluna da Uniban que quase foi estuprada no campus. Logo assim que ele começou a me contar, achei que fosse mais um daqueles casos de mulheres estupradas em estacionamentos desertos. Mas não. O caso é que uma aluna dessa faculdade de mauriçolas resolveu ir à aula vestida – segundo eles – ‘como uma puta’. E é óbvio que todo mundo sabe que as putas são seres desprezíveis que estão aí no mundo pra serem estupradas mesmo. Esse post aqui me deixou estarrecida, babando de ódio e com muitas interrogações na cabeça. Me deixa perplexa o fato de que – como a Marjorie bem pontuou – uma pessoa se choque mais com uma saia curta do que com uma ameaça de estupro. Meu deus. Eu não consigo acreditar que essas pessoas vivam no mesmo mundo que eu.

Hoje conversando com meu filho durante o café da manhã [e eu faço questão de conversar essas coisas com ele], ele veio me dizer que talvez eu estivesse vendo o fato pelo viés errado, ou seja: por que eu estava chocada, se é notório que o mundo é habitado por bichos escrotos como os aluninhos da tal universidade? E eu respondi a ele que é claro que a gente sabe que essas coisas acontecem desde que o mundo é mundo, e que o cenário já foi muito pior. Mas eu acredito firmemente que, se nós caminhamos e evoluímos, é porque pessoas mantiveram-se atentas para essas barbáries, não deixando que elas se instalassem no nosso imaginário como ‘naturais’. Naturalizar uma coisa dessas, assim como a violência na porta do meu trabalho, assim como tantos outros absurdos, é contribuir para que nunca se faça nada para mudar o mundo. Eu sei. Eu sinto desânimo. Um desânimo estarrecedor. Mas acredito também que a gente tem obrigação de fazer alguma coisa. Nem que seja espernear e gritar e discutir. Muito, muito, até que eles – os machistas escrotos desse mundo – se sintam acuados. Se eles não se cansam se serem escrotos, por que nós – que queremos um mundo melhor – deveríamos nos cansar?

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E o Alex fez uma pergunta que eu acho super pertinente: que tipo de roupa um homem precisaria usar para causar esse tipo de balbúrdia?