Alunos…

As ciências humanas em geral -e a antropologia em particular (alô, amiguinhos antropólogos!!!) – estão a me dever um estudo em profundidade sobre essa categoria singular de gente que são os alunos. Que podem ser muito bacanas e tal, mas quando dão de ser problemáticos, insuportáveis e cri-cris ninguém segura.

Alunos particulares – então – são um caso à parte dentro desse universo discente. É grupo de gente que nunca tem tempo, mas que enfia na cachola que quer aprender inglês pra ontem. Sabe? Na verdade, eles não querem aula, querem milagre. O pior disso tudo é que antes de começar eles têm todo o entusiasmo do mundo, aquilo parece ser a coisa mais importante do universo. Duas semanas depois, entretanto, o entusiasmo começa a arrefecer e o cenário muda. É um tal de ‘estou com problemas’, ‘não vou poder hoje’ e etc, etc que despertam meus instintos assassinos.

Quando comecei minha vida de professora, eu ainda achava que ter aluno particular era sinal de que eu teria dinheiro pra pagar as contas. Hoje já dei adeusinho às ilusões. Você tem, no máximo, dinheiro pra ir à feira, pra pagar o gás, ou pra comprar uma besteira e pagar as passagens. Essas miudezas. Não se pode contar com aquilo nunca, nunca. Dos meus seis alunos atuais, só dois valem realmente a pena. Quanto aos outros, um é cirurgião e vive tendo cirurgias no horário da aula. A outra é empresária e vive sem babá pra tomar conta das filhas (que pelo rodízio de nannies na casa, imagino como devem ser…). A outra é maluquinha e esquece de me avisar – como hoje – que não estará em casa no horário da aula. Nesse caso a regra é clara: não desmarcou? Vai pagar. O problema é que eu sou uma anta e invariavelmente esqueço-me de ditar as regras logo no primeiro encontro – o que já foi mais comum no passado, quando eu não valorizava meu trabalho como devia, mas agora eu já coloco tudo na mesa assim que estabelecemos um primeiro contato.

O fato é que eu me sinto imensamente feliz de no ano que vem não precisar mais me sujeitar aos caprichos dos aluninhos. Como vou ter emprego de gente de novo – com salário na conta no dia certo, por exemplo – vou me dar ao luxo de dispensar os problemáticos e que moram longe (outra praga) e só ficar com aqueles que são convenientes pra mim, que pagam antecipado e nunca desmarcam. Essa história de self-made woman, de ter negócio próprio, de fazer freela pra se livrar das chatices de um emprego comum com carteira assinada nunca me convenceram. O ideal mesmo é manter os dois, mas ter os alunos como algo tão incidental quanto um encontro casual entre amigos. Se der, tudo bem. Se não der, ninguém perde muita coisa.

Na verdade, essa história de nunca saber quando -e SE – vou receber me deixa com os nervos à flor da pele e eu não nasci pra isso.

Pensando bem, acho que a antropologia é pouco nesse caso. Para fazer um estudo sobre os aluninhos particulares problemáticos, só mesmo tendo uma ‘abordagem inter-multi-trans disciplinar’. Ai ai.

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9 Comments

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9 responses to “Alunos…

  1. mari

    pois é, darling. Eu tenho tanto disso, os particulares pra mim (sim, ainda dou uma ou outra aulinha por aqui) viram trocado pro bóbis, pro chopitcho de final de semana. Nunca dá pra contar com essa gente. Um porre. Entendo teu sentimento “meu-reino-por-um-cartão-de-ponto”. Mil vezes fechar o escaninho na 6a e se a escola explodir no final-de-semana, melhor pra mim!

  2. ahaha
    Ri com o comentário da Mari.

    O negócio é ser funcionário público e dar umas aulas for fun.

  3. ‘abordagem inter-multi-trans disciplinar’?

    em alunos assim talvez uma disciplina de kung-fu, ou karatê viria a calhar… 😉

  4. cris

    thanatos, um ‘kung fu approach’ viria muito a calhar com essas criaturas, sabe…

    bruno: exacto!! o grande lance é ser funcionário público e fazer qual-quer coisa for fun. eu tenho uma conhecida que era fiscal de rendas. sabe, salário aaaaaallltoooo. daí que ela já tá aposentada e nesse meio tempo, fez faculdade de nutrição, milhares de cursos em dietética chinesa e hoje – já aposentada – ela faz o que gosta: atende gente num consultório e dá aulas de tai chi chuan. ainda tem tempo pra nadar e ser campeãm master de natação. olha que vida boa!

    mari, eu imagino como seja dar aulas de inglês em Londres! deve ser surreal. e essa tua imagem da escola explodindo no final de semana é perfeita. eu sou a favor de que funcionário público trabalhe – e bem! – afinal ele ganha pra isso. mas sem encheção de saco. meu sonho de consumo!! bjs, queridos. 🙂

  5. arthur

    Tou vendo que vc já deve ter um calendário com contagem regressiva para o ano que vem 🙂

  6. Eu jamais, jamais, aguentaria essa vida de professor particular. Professor ‘normal’ já é dureza. Não é à toa que sou uma das poucas pessoas não-professoras da família.

  7. Su

    ahahaahahah! Adorei saber do seu instinto assassino… Eu já dei aulas particulares, mas nunca tive saco. Sempre me pegava achando que ia mudar o mundo dos alunos. Das notas à vida sentimental. Aaaa, páporra! Tenho saco não. Quando crescer vou querer emprego de gente grande também. E de preferência ganhando bastante e trabalhando pouco. Muito pouco! ahahahahah! Beijos!

  8. L.

    Pous minha aluna de português pagava em libras!
    Era meio bizarra, mas sempre aparecia e pagava em libras.
    Eu precisava era de mais alunos assim…

  9. cris68

    L., eu tenho dois alunos muito bons. um é engenheiro de produção, todo metódico e organizado. paga adiantado, não se atrasa nem desmarca aula. o outro, por coincidência, também é engenheiro (acho que preciso de mais alunos da área de exatas…). também paga adiantado, nunca desmarcou e faz todos os exercícios. esses dois eu queria manter ano que vem, mas os outros todos vão receber cartão vermelho!!!! bjs

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