Então teve essa reunião lá no trabalho novo. ‘Análise do perfil profissional’, eles dizem. Que nada mais é do que um momento pra você conhecer os outros colegas que passaram no concurso e ir se ambientando na estrutura da casa, que é enorme. Muitos departamentos, professores, coordenadores, funcionários e alunos. Um mundo. 4.000 alunos. Confesso que fiquei meio assustada.

Aí, papo vai, papo vem, tem aquela coisa de se apresentar, dizer nome, características, etc. Aqui abre um parênteses. Porque diabos todo mundo que faz essas dinâmicas acha bonitinho/legal/cool dizer que é perfeccionista, hein? Ou que o maior defeito é ‘ser muito exigente comigo mesmo’? Ai meus sais. Eu sou curiosa e indecisa. Tenho dúvidas até pra escolher que sapato vou usar pela manhã. Não sei se isso agrega muito status à minha pessoa numa situação dessas, mas é a mais pura verdade. Bom, fechemos os parênteses.

Chegou o momento do trabalho em grupo. Que nada mais era do que terminar em grupo uma historinha, onde, claro, havia um conflito. Uma historinha que lembrava um pouco o Mercador de Veneza. O objetivo era terminar a história em grupo. Todo mundo tinha que concordar. Como a ação se passava num tempo imaginário, que evocava a Idade Média, a gente foi logo pensando em soluções mágicas e tals. Aí aconteceu o momento-tensão. Todo mundo discutindo, rindo, se divertindo com as possíveis soluções e uma voz se sobrepõe às outras. “Gente, mas como assim, como fica a ética, é isso que vocês vão ensinar pros alunos de vocês, esses valores? Porque é claro que essa situação da história é para ser transposta para a sala de aula. Tem que ter uma moral”. Nossa, tem mesmo é?

Bom, nem precisa dizer que eu parei. E fiquei olhando pra criatura. Como assim, Bial? Deixa ver se eu entendi. Então toda história precisa efetivamente ensinar alguma coisa, valores éticos? Oh, santa ingenuidade. Pra mim o ensinamento poderia ser: olha, o mundo é cão e não existe justiça dos homens, não, fia. Ou então: olha, era assim que as mulheres eram tratadas em tempos passados. Mulher não apitava nada e era obrigada a casar pra pagar as dívidas do pai. Qualquer coisa desse tipo. E ainda ponderei que se estávamos tratando de uma narrativa, não adiantava transpor nossos valores para aquele universo narrativo. Que ética é algo flutuante. Tão óbvio isso, né? Mas a criatura era professora de português. Não sei o que acontece com os professores de português, mas todos têm esse pequeno defeitinho, de querer cagar regra pra todo lado. Deve ser por conta da maldita norma (in)culta.

Mas bem, continuando. Quando senti que minhas palavras e a de outros colegas eram como pedras sendo jogadas num lago, me retirei da discussão. Não fisicamente, é claro. Continuei sentadinha, mas estiquei bem os braços pra cima, me espreguicei e automaticamente liguei o piloto automático interno. E na minha cabeça mandei a criatura tomanocu. Ela que terminasse a história do jeito que bem entendesse. Acho que muita gente fez a mesma coisa. Um colega de francês – aliás, simpaticíssimo, gay – que estava sentado a minha frente me olhou e eu notei uma certa cumplicidade. Deixemos a louca. Deixemos a louca com a sua moral, seus valores e sua voz estridente.

Para mim o melhor final era e sempre será esse (idéia do coleguinha de francês): a moça casa pra pagar a dívida do pai com o mercador, sim. Aí lá pelas tantas ela bota um veneninho básico na comida dele, algo assim potente e imperceptível que ela conseguiu com a feiticeira da aldeia. E o infeliz morre bem morrido, deixando a moça livre pra casar com quem ela bem entendesse.

Porque gente que caga regra, mercadores gananciosos e gente de voz estridente que quer se impor na base da força tem mais é que se ferrar mesmo. Pelo menos na minha história.

E viva a ética.

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18 Comments

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18 responses to “

  1. O relato ficou ótimo, o que eu não entendi direito foi o motivo da desistência, sua e de alguns de seus colegas.

    A container ficou em vantagem porque conseguiu apoio, ou porque simplesmente falava mais alto e era autoritária, e depois de um tempo não dava mais vontade de argumentar?

  2. (pra quem não sabe: container = a maior mala sem alça que o homem já construiu)

  3. Edu

    Adorei “contâiner”, hehe… Mas meeeeeeda dessa moral de vocês! Bichinho insiste em cozinhar lá em casa e logo logo se eu morrer a casa vai pra ele… sei não!! 🙂

  4. cris c.

    olha, marcus, no que diz respeito a mim, eu não tenho saco pra discutir com quem quer falar mais alto que todo mundo. desisto mesmo. acho perda de tempo ponderar com gente assim. não sei se é coisa da idade, mas cada vez mais eu fujo de discussões. discussões pra mim só as acadêmicas, e olilá. eu acho que a maioria acabou achando que ela era mala e que a situação não valia o esfoço de querer falar mais alto que ela. e uns dois ou três meio que concordaram com a container mesmo. é isso. bjs!

  5. cris c.

    edu, bichinho vai é deixar você fofo e com uma pancinha linda. cê acha que ele vai arriscar ficar sem o gostoso dele? mas nunca, né? onde ele vai achar outro? hehehehe. e essa moral é só pra gente mala mesmo. você tá longe de ser assim. bj

  6. Su

    Não sei se é idade ou simplesmente sabedoria… bater de frente com topeira, ainda mais por pouca coisa, realmente não vale a pena. Eu também fujo desse tipo de confronto bobo. Afinal, não é ela (ou ele) que vai pagar minha tinta de cabelo quando aparecerem os primeiros fios brancos, né? Beijos, lindona.
    PS: adorei o conceito do container, ahahahaha!

  7. Su

    Ah, outra coisa (mas agora falando das injustiças do mundo): porque nesse blog você sempre aparece linda e maravilhosa vestida de Betty Boop e eu apareço como uma cebola descabelada, mal-humorada e cheia de pernas estranhas? Desse jeito, minha auto-estima vai ficar abalada… ahahahahahah! Beijos!

  8. cris68

    e eu adorei o comentário da tinta de cabelo, su. it saved my day, hahahaha. bjs, querida

  9. arthur

    Sempre tem que avaliar se vale a pena entrar numa disputa, tem algumas que é melhor deixar para lá, e como diz uma amiga da taís, mandar a contêiner (também gostei da nomenclatura rsrsrs) brincar com a massinha.

    Su, o avatar é do wordpress, se você não têm conta no wordpress parece que tem uma outra forma de modificar o avatar. O fato de ser monstrinho foi escolha da Cris, mesmo que inconsciente. Podia ser figuras geométricas rsrsrsrs

  10. cris c.

    thur, eu adoro essa de ‘vai brincar com a massinha’. gostei desde a primeira vez q a tata falou.

    e su, mas eu acho cebolas descabeladas o máximo, menina. é sério! hehehehehe. bjs

  11. L.

    adorei teu post.
    Mesmo.
    Acho que essa coisa de moral da história é ilusão.
    Moral da história só existe em retrospecto, e é sempre uma interpretação meio forçada.

    Meu próximo post, tô escrevendo ele, é niilista, duvida das morais das histórias e otras cositas mas.

    Só queria dizer que concordo.
    E que gostei. Muito.
    podia ter sido mais sucinto, não é mesmo?
    😉
    Bjo,
    L.

  12. Gentes, adorei esse texto!
    Não sei o motivo, mas adorei!
    Já detesto a profa de português e adoro o profis de francês. [Gay, né? =P]

    Besos

  13. é, não vale discutir com gente assim… principalmente numa ‘Análise do perfil profissional’, pelo menos deu pra filtrar quem será amiguinho e quem será malinha pro resto da vida. kkk

    agora

  14. Su

    Olha, Cris, a inveja é uma merda mesmo… veja bem, nada contra a cebola descabelada, mas é fiquei com inveja da Betty Boop! ahahahahaha! Beijos!

  15. Fabianne

    Bem,sobre o post você está coberta de razão em não querer bater de frente com pessoas como essa container…
    E sobre esses bichinho que estampam os posts…até que os acho bonitinhos,sabia???
    E se o meu fosse mais corado(que não esse azul céu!) podia jurar que fizeram uma fotinha minha de careta….rsrsrs
    Bjo

  16. Nuuunca fiz dinâmica de grupo mas sei que esse truque de “sou perfeccionista”, “sou centralizadora, faço de tudo e não delego”, “sou workaholic” são bem antigos, né? hahahaahah E olha, eu não discuto nunca. Quer votar no Serra? Vota. Quer comprar roupa verde limão? Compra. Quer moral da história? Faça. Não discuto mesmo. Pra quê? Ninguém mais ouve ninguém.

  17. cris68

    ai, tina, eu tenho um vestido verde-limão. glup!

    [quer discutir comigo? hahahahahaha]

  18. Amore, vc pode verde-limão, amarelo-manga, pode tudo, gatam.

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