Tempo, tempo, tempo

É sempre assim. Quando o trabalho aperta (quase sempre) e eu não sei o que fazer pra dar conta de tudo, a vontade é de sentar e chorar. E amaldiçoar a falta dele, por não saber como sair do rodamoinho. Quando, como por encanto, tudo acaba (porque as provas um dia se cansam de dar filhotes), eu o tenho de sobra e, de igual maneira, não sei o que fazer com ele. Aí eu ando pela casa, procuro sujeirinhas no espelho e invento necessidades que não existem. Hoje foi um mural de fotos que eu achei de pregar no corredor que vai da sala aos quartos. Passei boa parte da tarde envolvida com isso. Claro que o excesso de tempo também ajuda a fermentar pensamentos que, de outro modo, eu nem saberia que existem.

Primeiro foi o post dele falando de depressão. Um texto que eu não sei nem adjetivar. Só sei que gostei muito porque me provocou. E eu achei bonito, delicado e irônico ao mesmo tempo. O post dele e as fotos que eu escolhi pro mural me fizeram voltar alguns anos atrás. Quando eu vivia depressivinha e achava que não sabia nada de nada. Bom, não que eu saiba muita coisa hoje em dia, mas já consegui evoluir um pouquinho. Descobri que o que há pra ser aprendido, na maioria das vezes, é que as margens das coisas são meio borradas mesmo. Os conceitos, em sua grande maioria. Os seus limites. Eu tento definir, mas não consigo. Porque a natureza dos objetos e das pessoas me escapa.

Algo que eu acho que nunca vou entender direito é essa questão do gostar de alguém. Eu sei que pra filho, mãe e pai a gente aprende a dizer ‘eu te amo’ desde cedo e isso nunca parece estar errado ou fora de lugar. Com outras pessoas eu já não sei. Tenho amigos para quem eu digo ‘eu te amo’ e isso me parece a coisa mais natural a se dizer. Mas eu não entendo quando nem como isso começa. Só sei que de repente a gente fala e pronto. O outro repete e tudo está bem. Temos laços agora. E quando não se é só amigo, tem regra de etiqueta pro gostar? Quantos meses, anos deve-se passar até que se possa dizer o que se tem vontade? Tem limite de tempo pra se dizer ‘eu te adoro’, ‘você é importante pra mim’, ‘eu te amo’? Corre-se o risco de ser leviano, dirão alguns. Ou precipitado, dirão outros. Só o tempo vai dizer. Porque com o tempo, virão as crises, os probleminhas, as situações-limite. Momentos em que você poderia pular fora rapidinho, se esquivar, dar uma de ‘joão-sem-braço’ e alegar que você não está preparado para aquilo. Que precisa de um tempo pra você. Mas se, pelo contrário, a vontade de ir embora lhe falta e você quer mais é ficar – com ou sem problemas – aí, penso eu, o estrago já estará feito. Ainda que não diga nada, o simples ‘você é importante pra mim’  já não dá conta de definir o que se tem. Existe algo mais forte ali que muitas vezes o pudor impede que seja mencionado.

Dizem os meus amigos que eu sou muito atirada. Que vou com muita intensidade às coisas e às pessoas e que por isso me machuco. Eu simplesmente não consigo imaginar um mundo sem paixão. Esse vai me parecer sempre um mundo governado por robôs. O tempo, contudo, me educou e – por questões até de etiqueta – eu evito expressar um entusiasmo muito grande a respeito das coisas. A gente vive num tempo em que ser blasé é super cool. Então, por ignorar como esses processos funcionam – esses gatilhos do gostar e ser gostado – eu me retraio. Aprendi que menos é mais.

Eu comecei esse texto de um jeito e agora não sei como terminá-lo. Talvez um dia o tempo me ensine a não divagar tanto. A manter o foco e andar em linha reta.

Eita começo bom de férias.

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13 Comments

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13 responses to “Tempo, tempo, tempo

  1. arthur

    Mais uma vez eu indicando o que nem sempre sei fazer, que tal o caminho do meio, o mais difícil de se manter, mas o que gera menos stress e ainda dá sabor a vida?

  2. o problema com o caminho do meio, thur, é que como não tem placa pra chegar lá eu nunca consigo encontrá-lo. e tem outra coisa: como se sabe que se chegou ao caminho do meio?

    🙂

    bjs

  3. alguns pontos interessantes dona moça…
    primeiro, eu nunca aprendi a dizer o tal do eu te amo quando era criança. Talvez com isso eu tenha perdido grande parte da chance de fazer sentido do amor nesta vida 🙂

    estava lendo um texto do skinner, sobre como as pessoas aprendem a “sentir” as emoções, e como são diversas e borradas essas definições.

    eu, ao contrário de vc, tenho dificuldade em dizer isso soando como verdadeiro. E também tenho uma certa implicância com esse “o outro repete depois e fica tudo bem”. Repetir se torna uma obrigação. O que é tranquilo se a sua definição de amor for bem light, mas nem tanto se não for, como a minha.

  4. arthur

    Um jeito é ficar ziguezagueando entre os dois extremos, tecnicamente você vai estar no caminho do meio :). Mas não indico isso, pois acho que vai te deixar esquizofrênica. O maior problema do caminho do meio é esse mesmo, o achar e depois se manter nele, em ciências exatas nós diríamos que é um ponto de equilíbrio não estável, qualquer peteleco e você sai dele e depois é difícil de voltar. Mas teoricamente seria o modo de viver que eu acredito que gere menos dor.

  5. mari

    eu acho que se a gente quer se atirar, se atira. eu nao sei viver de outro jeito, de qualquer forma. já tentei ser cool, só consegui quando a pessoa realmente não significava muito. acho bonito o caminho do meio também, mas eu nem com gps encontro esse caminho. toda vez que eu tento fico é recalcada e retraída. resolvi me aceitar assim, paixão, lá vamos nós. cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…

  6. mari

    … e eu achei o texto bonito pra cacete! te amo!

  7. Antes eu me atirava, agora sou super cool. Motivo? Cansaço.

  8. Taís

    Eu amo ocê, quitandeira!
    Pronto, falei:)
    Beijocas

  9. seu texto é incrivel cris! e eu havia acabado de ler um texto do cotargo calligaris que a ticcia indicou: http://contardocalligaris.blogspot.com/2008/12/zo-e-o-demnio-do-meio-dia.html#links

    tambem fantástico.

    e isso do “amar”, poxa, é uma coisa que eu discuto tanto com o meu barbudo que solta “eu te amo” pra tudo quanto é lado. que me disse isso antes mesmo da gente se encontrar.
    eu vivo dizendo a ele “tu é leviano, gasta as palavras. não tem mais o que me dizer pq dizendo isso voce ja foi ao topo da lista de coisas que se pode dizer a quem se gosta. nao tem mais como diferenciar o que tu sente” e etc.
    eu economizo “eu te amos” demais da conta. mas tem sim, como voce bem disse, algumas pessoas que a gente sente vontade de dizer isso quase de imediato. quase um amor a primeira vista. aí eu nao tenho medo nao. digo, mas é sincero. é com vontade. e sempre acerto.

    beijos.

  10. ah, eu tmb não sei se digo logo no começo, no meio ou no fim, não, no fim não [pq não quero fim], então digo qndo estou sentindo e se o outro [ou outros] quiser achar q é precipitado, phoda-se…

    eu te amo cris, muitão …

    beijos

  11. ah, sobre o tempo?
    tmb não sei o q fazer com ele agora… antes eu até dominava bem, agora só sei dormir… kkk
    beijos

  12. Marcela

    Ah, como eu gosto das suas “abobrinhas”. Esse post veio na hora certa… vc acertou em cheio!
    Beijos

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