Ana

Esse é um conto que eu escrevi há muito tempo atrás. Quem acompanhava meu blog véio chegou a lê-lo em outro site, onde ele foi publicado. A razão de ele estar aqui é uma conversa que eu tive ontem com um amigo sobre esse texto lindo da Lia. Um texto tão bom que suscitou questões sobre a natureza e o valor da literatura, vejam vocês. Não que eu tenha pretensão de fazer literatura. Mas já ‘cometi’ alguns textos e os que sobreviveram à lata do lixo são aqueles com os quais eu estabeleci uma relação de afeto. E apenas por isso eles se tornam públicos. Um dia eu coloco aqui parte da minha extensa conversa com o Thanatos (odeio esse nome e ele sabe, argh!) e as (não) conclusões às quais chegamos.

Com vocês, ‘Ana’.

O coração de Ana disparou juntamente com o despertador. Havia sonhado um sonho intenso e febril, desses povoados de imagens desconexas. Não que prestasse atenção a essas coisas, isso não. Mesmo que quisesse, o burburinho ao seu redor, as crianças a correr pela casa, o cachorro, as árvores, o jardim mal-cuidado, tudo competia para trazê-la de volta ao estado sólido da existência. Assim, como em todas as manhãs dos últimos anos de sua vida, ela levantou-se para dar curso a mais um ato daquilo que parecia ser um teatro de feira, onde malabarismo, acrobacia, mímica e farsa conviviam lado a lado.

Os filhos eram quatro. O marido queria mais; ela, porém, encontrou meios, não sabia como, de convencê-lo de que quatro era número suficiente para fazer a felicidade de qualquer um que se interessasse por crianças. Por vezes até se espantava do estranho prazer que ele tinha em pegá-los ainda pequenos, do modo como ele os colocava nas pernas, embalando-os. E, se eles choravam, o prazer era maior, ao vê-los se esgoelarem, a pequena boca a evocar imagens. Ele era um bom homem, disso ela nunca tivera dúvidas. Quase sempre chegava tarde e cansado, sem muito o que dizer a ela. No entanto, não reclamava. Nunca precisara trabalhar. Ficava em casa com os filhos, fazia tudo, cuidava de mantê-los alimentados e vestidos e tinha certeza de que aquela história fora escrita para ser sua.

Moravam na casa que fora da mãe dela, mas já haviam morado em várias outras antes. Essa não era melhor nem pior. Nem grande, nem pequena; muita coisa por terminar por dentro e por fora, um certo ar de desleixo que ela fazia força para não ver. A mãe mudara de cidade, empurrada pela transferência do marido, seu padrasto, e com ares de generosidade, deixara-lhe a casa. Juntavam dinheiro para se mudarem dali, mas a cada dia ela via o sonho um pouco mais distante. O marido insistia para que tivesse paciência. Ela dizia que sim.

Naquele dia ela acordou sentindo-se estranhamente ausente. Deixou o leite entornar no fogão, queimou a mão numa panela. Talvez o sonho a provocasse, mas não queria pensar nele. Pela hora do almoço constatou que o arroz não tinha ficado bom, as crianças menores brigavam, os maiores corriam sem cessar e ela se sentia impotente para trazê-los para dentro, banhá-los, alimentá-los e, finalmente, mandá-los para a escola. Ficou alguns minutos sentindo-se em suspenso, mas os gritos, cada vez mais intensos, trouxeram-na de volta. Conseguiu, ao cabo de uma hora, tê-los prontos para irem com a vizinha, que sempre lhes dava carona.

Respirou fundo. Talvez agora pudesse de algum modo sossegar. A sucessão de eventos daquele dia tinha despertado nela o estranho desejo de descansar, logo ela, que era a última a deitar-se à noite. Talvez fosse o sonho, talvez as crianças ou o jardim que precisava de cuidado. As crianças tinham ido brincar na varanda. Sentou-se em frente à penteadeira antiga, tentando lembrar o que tinha ido buscar ali. Às vezes acontecia de ter lapsos entre o caminho da sala à cozinha ou vice-versa. Esquecia o que havia se proposto a fazer e, volta e meia, percorria o caminho inversamente, numa tentativa de lembrar-se.

Os olhos passeavam pela penteadeira em desalinho. Em meio a vidros de perfume ordinário e muito pó estava o vidro com o remédio que ela tomava. Queria emagrecer e uma vizinha havia lhe recomendado o tal médico. “É batata, em uma semana você já sente a roupa folgada.” Um dia arrumou quem ficasse com os pequenos e foi. Voltou com o vidro cheio de cápsulas. Sentia-se tonta por vezes, mas convencia-se das palavras da vizinha ao olhar as roupas no espelho. Pegou o vidro e decidiu guardá-lo. As crianças sempre passavam por ali, poderiam achar bonitas as cápsulas coloridas.

Ana pegou o vidro e esse acendeu-lhe idéias. Lembrou-se de que só podia tomar duas cápsulas por dia, o doutor havia feito recomendações expressas. Mas estava cansada, a cabeça girava, as imagens do sonho iam e vinham sem que ela pudesse controlá-las. Seriam apenas mais algumas, apenas para poder dormir um pouco. As crianças brincavam tranqüilas, ela certificou-se; guardou então as facas em lugar seguro para que eles não as pegassem, escondeu os fósforos.

Aos poucos, imagens do sonho iam ficando surpreendentemente mais nítidas. A última coisa que pôde ver foi o vidro vazio caído no chão.

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4 Comments

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4 responses to “Ana

  1. hum.. me identifiquei um pouquinho, bem pouquinho, com o conto… histórias de suicídio me desconcertam :/
    e hoje também, tive algum sonho bizarro, do qual me lembro pouco, e talvez gostasse de esquecer…
    creio que escreverei dele logo..

  2. ah, eu acho que essa não é uma narrativa sobre suicídio propriamente, mas sim sobre um pedido de socorro e de como a vida pode se transformar numa coisa banal. escreve sim; eu gosto muito dos teus textos. bjs

  3. arthur

    Muito bom o conto, e pesado como muitas vezes você é. Gostei especialmente da atenção aos pequenos detalhes.

  4. uau, o final foi forte né… eram só mais algumas.
    beijos

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