Para a Su

O texto abaixo foi escrito há algum tempo atrás e publicado no meu falecido bloguito, O Eu profundo. Ele fala do personagem central da minha tese. Nas minhas conversas quase diárias com a Su, prometi a ela postar algo introdutório sobre o moço e seu pensamento. É o típico post-à-porter, cut-and-paste na cara dura, com algumas poucas modificações ao texto original. Pelo menos, eu tenho um bom motivo para isso. Com vocês (quem tiver saco para), Wittgenstein:
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Das tentativas vãs

“Se esgotei todas as justificativas, cheguei então à rocha dura, e minha pá se entorta. Estou inclinado a dizer então: ‘É assim mesmo que ajo”

(Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas, § 217)

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Estou fazendo um curso sobre ceticismo antigo e suas reverberações no pensamento filosófico. O nome é algo como “O ceticismo e seus descontentes” e trata daqueles pensadores – principalmente Wittgenstein, claro – que acenaram, ainda que indiretamente, com alternativas para a questão do ceticismo. Como uma crítica à metafísica.

É muito interessante, pois Wittgenstein foi um pensador que tratou, como nenhum outro, de questões como regras [vivemos num mundo de atividade reguladas; a linguagem é só uma delas], da irredutibilidade da linguagem a qualquer essência metafísica e o fato inexorável de que essa mesma linguagem mantém laços constitutivos com as nossas práticas. Como essas, ela também é regulada e possui limites.

O problema da filosofia, segundo ele, é que ela tem feito as mesmas perguntas durante séculos. Por exemplo, é errado duvidar se sou eu mesma que digito esse texto agora? É errado duvidar do mundo que me cerca? Claro, que não. Mas isso não me leva à absolutamente nada. Da mesma forma que duvidar do fato de que se abrir a porta agora haverá ainda um chão do outro lado também não me acrescenta nenhum ganho. De fato, a filosofia tem feito perguntas erradas.

Algumas pessoas interpretariam a passagem acima como um endosso ao ideário cético. Tenho certeza que não se trata disso. É só uma passagem que trata da questão dos nossos limites humanos. Chega um momento em que não adianta mais duvidar, porque é assim que as coisas são e pronto. Então a dúvida precisa transformar-se em certeza e ser acolhida como tal.

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Ultimamente, tenho desenvolvido uma tendência a ler Wittgenstein com outros olhos. Como um texto que propõe uma reflexão para a vida. Normal. Desde 1999 que ele faz parte da minha. Claro que ler as Investigações como auto-ajuda é um desperdício danado. Melhor – e mais fácil- ler Paulo Coelho. Porém, me apropriando do que o Polzonoff fala nesse texto, o efeito de um texto sobre alguém é pessoal e intransferível. E se, por vezes, o efeito da leitura de Wittgenstein vai além – ou fica aquém – do entendimento dos conceitos do seu pensamento filosófico, isso não significa cometer pecado mortal contra a obra.

É na minha existenciazinha que eu penso quando releio esse trecho aí em cima. Cheguei, finalmente, à conclusão de que bati na rocha em alguns aspectos dela. E isso significa pra mim estar pronta para fazer outro tipo de pergunta daqui pra frente.

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Esse é só o primeiro, Su. Depois eu colo os outros aqui, assim, mato logo dois coelhos: publico alguma coisa e não tenho que pensar em nada novo, u-hu! Olha que desculpa boa. Espero que isso te anime a comprar o livro. Bjs

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15 Comments

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15 responses to “Para a Su

  1. arthur

    Ihh … preciso de uma certa dose de álcool para conseguir debater temas como esse.

  2. Su

    Gente, Cris, só tu mesmo… que gracinha se dar ao trabalho de colocar um texto aqui! Agora já passa das 22:00 (e muito buda na cabeça), mas amanhã vou desfrutar este texto com mais calma e volto a comentar. Isso se não sonhar com ele de novo, ahahahaha! Beijinhos!

  3. hum, assunto complicado demais pra quem está de férias né??? rs
    beijos

  4. Su

    Antes de tudo: o cara do filme é muito parecido com ele! Caramba! Bom, pensar qualquer coisa relacionada à linguagem é novidade pra mim. Eu sinto que não tenho base pra conversar – apesar de estar fascinada com – esse aspecto da linguagem como fator regulador e com o fato de que ela mantém relações com a nossa prática. Esse papo todo tem gerado em mim um sentimento de urgência, pois quem estuda religião – e passa a considerar a linguagem como constituidora de regras – precisa conhecer esse cara e essa discussão. Entendo e imagino como Witt deva permear sua vida; e eu não acharia ruim se você disesse que o lê como auto-ajuda… mas vibro quando descubro você usando tudo isso como reflexão pra vida! Eu tendo a me apaixonar por esses caras, pelos autores… logo, o espaço que eles ocupam na minha vida são proporcionais à minha paixão.
    Particularmente, eu gostei muito (mentira, adorei) do parágrafo que você menciona sobre a dúvida e os limites humanos. Passei o último mês inteiro lendo sobre conversão religiosa e tentando entender como as pessoas ultrapassam as dúvidas da fé e se tornam, por exemplo, missionárias (ou convictas de que aquilo que creem é legítimo e real). A “decisão” de não duvidar é ilusória, pois os questionamentos e dúvidas não são escolhas… surgem no íntimo, no meio da noite, de repente, de modo quase avassalador. Então tendo a acreditar que a) ou as pessoas aceitam a dúvida, vivem com ela mesmo com tendo fé ou b) fazem o que você escreveu: transformam a dúvida em certeza e passam a acolhê-la como tal. Claro que a primeira opção é muito mais dramática, porém mais “vida real” (pra mim, pelo menos). Aceitar a dúvida, as ambiguidades do coração, crer duvidando… pra mim é mais desafiador do que transformá-la em certeza. Aceitar que somos ambíguos é um exercício de humanidade, eu diria. E quando aprendi sobre as ambiguidades da vida e do coração, aprendi mais sobre mim e sobre aqueles caras (os meus “informantes”, como a gente diz na antropologia) que fazem a minha tese existir.
    Nossa, escrevi demais… aff! Mas dane-se, quem mandou dedicar o post pra mim? hahahahahah! Beijos, Cris. E parabéns, o texto é ótimo.

  5. arthur, vc está é de má vontade com o pobrezinho do alemão. coitado, uma coisa assim tão corriqueira e vc nem quer comentar? magoei. snif.

    juzinha, linda, esse não é exatamente o que eu chamo de assunto para quem quer relaxar, hahahahaha. bj

  6. su, tudo isso que vc escreveu é muito interessante. na verdade, meu método de tentar ‘converter’ pessoas à filosofia do witt é bem furado: eu comecei pelo final, hahahaha. tem um outro texto onde eu explico a coisa da dúvida cética e de como ele a encara. quer dizer, é um texto bem superficial, porque foi pro blog e eu nem tenho tanta leitura assim dos últimos escritos do cara. se isso aí te despertar, já terá sido legal. sabia que o witt fez engenharia em manchester? só depois é que ele jogou tudo pro alto e foi estudar filosofia em cambridge. a vida dele me entusiasma tanto quanto a obra. beijos e até o próximo post dedicado a você, hehe.

  7. é, eu imaginei… rs
    beijos

  8. Su

    Hiiii, Cris, abortar missão! Nosso Witt não dá dando Ibope, tamo lascada! ahahahhahah
    Beijos, querida.

  9. arthur

    Corriqueira, sei, tão corriqueira quanto teoria quântica de campos.

  10. ai, thur, deu medo agora. teoria quântica de campos? isso é contagioso? ou é de comer?

    🙂

  11. cris,
    do witt eu li a biografia de 30 min, graças a você, mas arriscar 700 páginas é outra coisa…
    Realmente é um ponto interessante, descobrir qual a utilidade da filosofia. Descobrir regras e padrões sempre soa como descobrir o óbvio (depois de feito ao menos). Por outro lado, saber que existem limitações e regras também me fez pensar sobre as indagações da su. Creio eu que é bem mais fácil aceitar a dúvida como certeza na vida cotidiana. É mais fácil simplesmente viver essas limitações do que questioná-las. Ao meu ver tanto a religião quanto a linguagem são ferramentas para solucionar problemas humanos. Não há porque questioná-los enquanto eles funcionam. A linguagem tem as suas funções voltadas para a manutenção de uma vida social, pensar…
    a religião é uma solução, baseada na linguagem para liberar energia destes pensamentos e inquietações para tarefas mais mundanas. Logo, caso haja ambiguidade, falta de fé, a religião não está trabalhando direito.
    Bem, ao contrário da su, eu me meto a falar do que não sei 🙂

    arthur, 🙂
    pelo menos linguagem todos usam, agora a teoria quântica. Agora, é bastante interessante se parares para pensar. Ambas, filosofia do witt e a física, tentam encontrar regras que regem o mundo. E regras são coisas que quer queira ou não, quer você saiba que elas existam ou não, estão lá, agindo. Descobrir quais são as regras e limitações da linguagem humana pode ser bastante interessante.

  12. F. que bacana você ter procurado ler sobre ele. Wittgenstein é, de fato, um dos pensadores mais importantes da filosofia comtemporânea, da chamada ‘virada pragmática’. Um movimento que colocou a linguagem no centro do pensamento filosófico. É um pensador apaixonante justamente pela radicalidade de eu pensamento. Existe um outro livro de que gosto muito, que está em português e que nem é tão grande quanto o livro do Monk. é esse aqui ó: http://www.travessa.com.br/O_ATICADOR_DE_WITTGENSTEIN_A_HISTORIA_DE_UMA_DISCUSSAO_DE_DEZ_MINUTOS_ENTRE_DOIS_GRANDES_FILOSOFOS/artigo/1c2b2d8d-65cc-4cff-a829-740ffa5421c3
    li sem parar e adorei. acho que você iria gostar também. bjs (ah. a discussão sobre a dúvida cética vai ter a segunda parte, ok?)

  13. hum.. veremos..
    se tudo seguir da forma com que parece, linguagem vai ser meu instrumento de trabalho 😉
    então melhor estudar um pouco sobre ela de qualquer forma

  14. nossa, tu vai estudar linguagem também? que legal, mais um colega, hehe. bjs!

  15. alguma coisa já estudei, principalmente as teorias do desenvolvimento da linguagem na criança e tal, faz parte do curso.
    provavelmente não vai ser o mesmo enfoque, mas mesmo assim 🙂

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