Fugindo do quarto do castigo

‘Quarto do castigo’ é como eu tenho chamado o meu próprio quarto, o lugar onde eu me ‘interno’ pra estudar. Ontem foi de cinco da tarde até meia noite, hora em que o comandante chegou, depois de fazer um vôo de 5 dias. Eu estava louca de saudades, mas pela hora adiantada, o cansaço dele e o filho (o meu) no quarto (o dele) só deu pra trocar uns beijos e uns amassos mesmo.

Já percebi que, em dias não muito quentes, é mais produtivo começar depois do almoço e ir até bem tarde, tipo uma da manhã. Calor é o tipo da coisa que me impede realmente de pensar e o calor aqui não tem dado tréguas, vocês não imaginam. De uns quatro dias pra cá tem chovido e o tempo refrescou. Fez até um friozinho (21º pra mim é frio, tá gente? Por favor, respeitem o frio dos cariocas, humpf!) e foi uma delícia ficar enfiada em casa com o filhote, estudando e fazendo comidinha.

Mas então, nesses últimos dias, aliás, nas últimas duas semanas, eu só tenho feito ler e reler coisas. O que me coloca num lugar muito difícil, pois se eu não começar a escrever logo vou me lascar. O problema em questão é: eu sempre acho que preciso ler tudo antes de começar a escrever. Nem preciso dizer o quanto essa pretensão é besta e infantil. Mas mesmo assim, ela me contamina. Toda vez que eu vejo um texto novo sobre o Wittgenstein eu fico louca se não o consigo. Via de regra, não conseguir é o que acontece, já que a maioria dos livros e artigos não existem por aqui. Importá-los leva semanas de espera e eu já não disponho desse tempo – e nem do dinheiro necessário. O melhor a fazer, então, é acalmar minhas lombrigas (hahahahahaha) e me conformar com o fato de que a palavra ‘tudo’ é daquelas que, como diria Frege (outro alemão danado), tem sentido (eu posso entender), mas não possui referência (não aponta para nenhum objeto). Hoje não tem jeito: vou começar nem que seja à força (com crase? sem crase? ai, ai). Antes, porém, uma corridinha na praia, pra oxigenar os neurônios. Sabiam que eu penso na tese o tempo todo enquanto corro? Momentos de reflexão à beira mar…

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Agora, deixa eu dizer uma coisa: fiquei pasma com a morte da modelo Mariana Bridi. Antes que algum espírito de porco pense: ‘Ah, mas que idiota essa mulé, morre gente todos os dias e ela fica assim só porque a moça era bonita?’ Não, não é só por isso. Eu nunca imaginaria que alguém, no século XXI, pudesse morrer como consequência de uma infecção urinária. Uma coisa tão besta, gente! Acho que é a morte gratuita e improvável que me deixa pasma. Ontem eu senti coisa semelhante. Mataram um cara aqui pertinho da minha casa. Isso às dez da manhã de domingo, numa das ruas mais movimentadas da cidade, se não for a mais movimentada, já que é acesso à ponte Rio-Niterói. Não sei bem como aconteceu, as pessoas não sabiam explicar, estavam todas muito confusas. Parece que o cara era policial, bandidos quiseram levar o carro dele (um Honda Civic), o cara resistiu e mataram ele. Tentaram fugir com o carro (que travou logo adiante), deixando o corpo lá no meio da rua. Eu voltava da corrida e não pude deixar de pensar: ‘Se estivesse passando por aqui meia hora atrás, Deus sabe o que poderia ter acontecido’. E pensei no meu filho, no meu irmão que mora a duas quadras de distância, na minha cunhada, nos meus pais. Uma coisa louca. Como assim, matam uma pessoa no meio da rua, num domingo de sol num dos lugares mais movimentados da cidade? A julgar pelo que acontece por aí, vai tudo ficar por isso mesmo. Se alguém viu os caras, é muito improvável que vá até a delegacia se pronunciar. E assim a gente continua vivendo, se acostumando com o absurdo da existência e torcendo pra não ser o próximo.

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10 Comments

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10 responses to “Fugindo do quarto do castigo

  1. arthur

    Tive um trabalho herculíneo para conseguir ensinar a Taís a não fazer o mesmo que você faz. A parar de estudar e começar a escrever, pois no fim sempre se acha mais para estudar e ai você nunca vai terminar o trabalho.

    Sobre a violência, essa parte choca e me leva a pensar se melhorando realmente a distribuição de renda e transformando esse país em um local mais justo, iremos algum ver isso como um passado?

  2. thur, como assim, você tem um método eficaz desses e guarda segredo?? me ensina também!!!!

    quanto à violência, acho que uma pequena parte dela é causada pela distribuição de renda injusta (embora eu acredite que temos caminhado – pouco, mas temos – nesse sentido). acho que tem mais a ver com uma sensação generalizada de vale-tudo. de impunidade mesmo. o cara sabe que se matar o outro a tiros numa via pública a luz do dia nao será pego. e quando chega nesse ponto, amigo: phudeu! bjs

  3. Contei daquela vez que o marido queria porque queria um livro do Merleau-Ponty, acho, que não existe por aqui? Daí ele achou pelo Submarino. Ficou todo todo até chegar a encomenda. Era um livro, também raro, também em inglês, do Jack Kerouac! Daí pelo Submarino ele entrou em contato com o livreiro que mandou o livro errado. O cara respondeu com um e-mail: é que eu tenho uma funcionária nova, que viu teu nome (Ericson) e trocou por um livro que seria enviado pra um sueco. Ou seja, o livro foi pra Suécia, e o do sueco veio pra Curitiba. O marido enviou o Kerouac pro livreiro, que o enviou ao sueco com pedido de desculpas e pedindo que enviasse ao marido, então, o dele, de filosofia. Sabe o que o sueco fez? Mandou o cara tomar no c. e disse que ia queimar o livro! hahahahahaha! Pelo menos esse livro o marido não leu pra terminar a tese… Para de ler, menina, vai escrever! Bjbj.

  4. Su

    Ahahahahahah (tô rindo da história da Tina). Cris, não se sinta mal por isso, acho que todos passam por essa sensação de TER que ler todo o material (ou senão seremos umas farsas, né?). Mas olha, o tempo cura tudo. Neste caso, a falta de tempo. Deixa chegar mais perto de ter que entregar a tese que você vai achar o máximo não ter que ler mais nada… e aí vai surgir uma inspiração e você vai começar a escrever. Ligue o f• e manda ver aí! (porque aqui aconteceu o mesmo, menos a inspiração, ahahahahahah!).
    Beijos e boa sorte, linda!

  5. Lia

    Realmente, é preciso coragem. Mas tou aqui pra te dar um apoio sempre que vc precisar.

  6. boa sorte!
    e violência é foda, e concordo que o que faz a maior parte disso é a sensação de impunidade. Saber que a lei não será aplicada, e não haverá consequências é o maior estímulo à qualquer tipo de ação criminal

  7. tá faltando o q pra começar a escrever, incentivo??? ok, ô garota, pára de ler e vai escrever agoooooora, pleeease!!!
    [ok, não consigo mandar em ninguém, muito menos em vc]

    menina, sabe a história do assalto? poisé, meu vizinho seguiu os caras, e no caminho ligou pra polícia e não conseguiu falar, daí q qndo chegou na porta da casa dos caras passou uma viatura da pm e o vizinho chamou e o policial disse “não posso fazer nada, eu não vi” – detalhe, os caras estavam do outro lado do portão com as coisas na mão, do you believe????

    beijos

  8. Su

    Ontem, depois de um ataque de piti de tão cansada, o L. me mandou esse link… caiu como uma luva pra mim. Lembrei também de você (e por ocasião desse post…) e e spero que te ajude (texto ridiculamente curto, mas me chamou à vida, rsrs):

    http://www.dur.ac.uk/writingacrossboundaries/writingonwriting/julianlegrand/

    Beijos, linda!

  9. liazinha e ju: obrigada mesmo, queridas. Conto com vocês pra me colocarem pra cima quando o cansaço me consumir…

    F., pois é, também penso assim.

    Su, li e adorei. assino embaixo, concordo com tudo, principalmente com a parte que diz que a gente não termina o trabalho, mas o abandona. Wittgenstein era tão obcecado com perfeição que só publicou um livro em toda a sua vida: o Tratactus. eu acho que esses limites que se aplicam ao trabalho acadêmico servem, a rigor, para todo o restante na vida da gente. valeu mesmo. é preciso não perder isso de vista. bjs

  10. Battle

    Eu fiquei triste demais.

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