Da Certeza

(Continuando com o projeto de espantar visitantes do blog, mais um da série de posts filosóficos dessa quitanda que já foi publicado no Eu profundo)

******************************************

” 340. Sabemos, com a mesma certeza (…), como se pronunciam as letras A e B, como se chama a cor do sangue humano, que outros seres humanos têm sangue e chamam a isso ‘sangue’.

341. Isto é, as perguntas que formulamos e as nossas dúvidas dependem do fato de certas proposições estarem isentas de dúvida serem como que dobradiças em volta das quais as dúvidas giram.

342. Isto é, pertence à lógica das nossas investigações científicas que certas coisas de fato não sejam postas em dúvida.

343 Mas a situação não se assemelha a isto: Não podemos investigar tudo e por isso somos forçados a contentar-nos com suposições. Se queremos que a porta se abra, é preciso que as dobradiças lá estejam.

344. A minha vida consiste em eu contentar-me com aceitar algumas coisas.”

Ludwig Wittgenstein, Da Certeza

****

Então é isso: a dúvida precisa ter um fim, se queremos ter a possibilidade de acreditar em algumas coisas.

****

Da Certeza” foi o último livro escrito por Wittgenstein. Parece-me que os sete últimos aforismos foram escritos apenas dois dias antes da sua morte. Eu li muito pouco sobre o livro pra ser capaz de dizer qualquer coisa profunda sobre ele, mas vou tentar expressar the crust of the crust das coisas que entendi.

De maneira geral, a obra é uma resposta de Wittgenstein à questão do relativismo e do ceticismo. São essas visões que ele pretende desafiar com esse texto. A premissa aqui é que todos os nossos jogos de linguagem se assentam em uma base que é certa. Por isso, o livro é uma descrição bastante original da natureza daquilo que chamamos certeza e essa deve ser identificada com aquilo que é o fundamento das coisas (tenho total consciência de que Wittgenstein é considerado anti-fundacionalista, mas não vou entrar nesse mérito…).

Por muito tempo, a filosofia se debateu com questões do tipo: “Como posso ter certeza de essas mãos que vejo são minhas?“, “Como saber se não estou sonhando?”, “É possível conhecer alguma coisa?”. Bom, Wittgenstein achava que sim, que era possível conhecer. Não tudo, não a plenitude do conhecimento. A filosofia não pode, enfim, prover respostas, mas ela pode sugerir um método de investigação. Foi isso que ele fez durante toda a vida, em todas as suas obras: propôs aquilo que se chama “investigação gramatical”. A maneira como nós usamos as palavras pode nos levar a enganos terríveis; Wittgenstein achava que, ao desfazer os nós da linguagem, estaríamos também mostrando onde nossos enganos residem.

Por exemplo, o cético pode perguntar: “Mas como você sabe que isso que vivemos não é uma ilusão, que não estamos sonhando?” Você apresentará argumentos. Ele os refutará: “Mas como você sabe?” E assim, o argumento da dúvida se prolonga ao infinito. Ao contrário de outros filósofos, a resposta de Wittgenstein ao cético não apela para qualquer elucubração. A única coisa que ele nos diz é: “Veja. Observe. Repare nos nossos jogos de linguagem; em como usamos a linguagem nas nossas atividades cotidianas

Para de fato conhecermos algo, é preciso que se abra mão do argumento cético da dúvida ao infinito. Foi assim que a humanidade chegou até aqui. Imagine se ficássemos apenas imaginando se estamos acordados ou sonhando, se isso que vemos é realidade ou ilusão. Para que nossa vida aconteça no dia-a-dia, precisamos que algumas coisas não sejam postas em dúvida. Por exemplo, tenho certeza de que sou mulher. Não posso dizer como sei que sou, porque esse fato não é da ordem do conhecimento. Isso é uma certeza, um fundamento. Outra certeza: dentro de minhas veias corre sangue. Não preciso sair por aí dizendo em alto e bom som: “Sei que tem sangue nas minhas veias!” Até poderia numa situação de raiva, mas não para convencer alguém desse fato. Outra situação. Quando alguém bate na porta eu me levanto e abro. Não fico me perguntando se, ao me levantar, o chão estará debaixo dos meus pés.

Nosso conhecimento é da ordem do ‘normal’, ou seja, da norma. Sei que isso é ‘vermelho’, tenho certeza disso, porque na minha ‘tribo’ chamamos isso de vermelho. Sei qual é a essência da cor vermelha (o que quer que isso seja…)? Não. Quando pergunto esse tipo de coisa, não estou mais jogando o ‘jogo-de-pedir-uma-explicação’. Este é um outro jogo. Nos nossos jogos normais, é possível perguntar o que é uma coisa e responder. Viu, eu disse ‘normais’. Se alguém me pergunta: “Mas o que é ensinar?”, vou responder tendo como base aquilo que se faz nesse grupo onde vivo, nessa sociedade. Não estou mostrando a ninguém a essência do que seja ‘ensinar’. Aprendemos isso desde quando somos crianças. Aceitamos essas mitologias. “A criança aprende, acreditando no adulto. A dúvida vem depois.” (Da Certeza, 160). Esse fundamentos, essas dobradiças das quais Wittgenstein fala, são necessárias e não contingentes. Sem elas não há a possibilidade de a porta se abrir. ” ‘Estamos muito certos disso’ não significa que toda e qualquer pessoa esteja certa disso, mas que pertencemos a uma comunidade que está ligada pela ciência e pela educação.” [Da Certeza, 298]

Isso é muito diferente, por exemplo, do ceticismo fideísta, que era (eu acho) a posição de Hume. As minhas certezas não são baseadas em fé.

*******************************************

E chega por hoje, né? Aff.

Advertisements

14 Comments

Filed under Uncategorized

14 responses to “Da Certeza

  1. arthur

    Por esse post ser mais parecido com o espirito do método científico, o compreendi bem e concordo com o alemão (ou austríaco, ou …).

  2. isso que é um cara prático 🙂
    eu sei que a senhorita tem um certo asco à palavra essência, mas me parece que a palavra é a essência nesses casos. Ela engloba simbolicamente tudo o que é real.

    Eu, quanto criança me perguntava, como ter certeza que o meu vermelho não é o verde de outro? É esse tipo de pergunta que o witt acha inútil? Que se tem que ter certeza que vermelho é vermelho e pronto? Porque se for, realmente os filósofos são meio viajões 🙂 Afinal, pra discutir eles tem que usar as palavras com certeza, mas eles discutem as incertezas das próprias palavras.

    Não me parece que ele quer desfazer os nós da linguagem. Só que todos aceitem que há nós na linguagem, e temos que conviver com eles. Que mesmo que na linguagem haja dúvida, devemos considerá-la certa ou não saímos do lugar, desta maneira acabando com o problema metafísico, com a procura da grande resposta, em troca de pequenas respostas mais frequentes. Mas arthur… você não está também procurando uma grande resposta não? 😉

  3. oi, thur. que bom que pra você fez mais sentido.

    sim, F., boa pergunta a sua. como sabemos que o meu vermelho é o mesmo de outra pessoa? resposta: não sabemos, oras! mas isso não faz diferença nenhuma para o que é essencial na atividade linguística, ou seja, ao interagir com outras pessoas concordamos que certas coisas ‘contam’ como tais e é isso que importa. numa de suas passagens mais famosas, Witt. diz que ‘o que está oculto não nos interessa’. porque não interessa mesmo. apostar nas essências, no terceiro domínio platônico, não acrescenta nada ao que é fundamental na linguagem, que é fazer com que nós possamos ‘funcionar’ no mundo. tem uma outra passagem, igualmente famosa, onde Witt. propõe que imaginemos um certo lugar onde as pessoas carregam caixas, nas quais cada uma afirma ter um besouro dentro. ninguém pode ver o que o outro tem em sua caixa, mas as pessoas falam do que carregam e conseguem se entender, mesmo sem verem o que o outro possui. isso mostra duas coias. primeiro: todos, sem exceção, afirmam carregar um besouro. como saber se isso procede? não podemos. mas o que importa nesse caso, a interação com os pares, consegue ser levada a cabo. outro ponto: para que as atividades com as quais a linguagem se entrelaça sejam realizadas é preciso que o sentido seja público. de nada adianta falar de algo que só possui sentido para mim. como já mencionei, para Witt. a linguagem está entretecida com as nossas práticas cotidianas e ela não será nem mais nem menos complexa de que as outras atividades que temos na vida. isso que ele diz revolucionou a filosofia e se espalhou por outras áreas. espero que meu comentário não tenha se estendido demais. bjs!!!

  4. ah, última coisa: um ‘certo’ asco não. eu combato essa palavra com todas as minhas forças, chega a me dar urticária, hahahahahaha.

  5. Eu hoje já não tenho mais certezas. Cheguei a este ponto. Qual o filósofo mesmo?

  6. ludwig wittgenstein. meu ‘objeto’ de estudo no doutorado. sou apaixonada por ele, hehe.

  7. tive uma pequena dúvida dona cris…
    e se as atividades cotidianas consistirem em discutir o sexo dos anjos, assim, por diversão?
    😉

  8. Cris, leio seu blog há algum tempo, gosto do seu senso de humor e vim conferir o que tem esse post sobre seu filósofo para ser tão visitado. Gostei muito do modo claro e simples, sem ser simplório, como vc explica uma questão filosófica complexa. Vou voltar mais uma vez depois, com mais tempo, para ler e poder pensar sobre ele. De todo modo, me deu muita vontade de ler seu Witt, o que ficará na esfera dos desejos, porque o tempo dessas leituras hard já se foi, acho. É bom conhecer algo de mais substância num blogue.
    Um abraço,
    clara lopez

  9. que bacana, clara. obrigada. volte sim. eu vou lá te visitar também. beijo!

  10. Pingback: De repente « Quitanda

  11. Carioca

    Das trevas para a luz. Levanta-te e anda.

  12. oh, que lindo. adoro provocar as pessoas a saírem das trevas, rs.

  13. Carioca

    Levei bolo…fiquei te esperando até as 02:15hrs…beijos.

  14. O QUE NÃO PODE FALAR, DEVE-SE CALAR

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s