Personagens

Eu tenho certa dificuldade em entender algumas coisas na vida. Limitação minha, reconheço.

Por exemplo, personagens. Não os de ficção, mas esses que habitam a chamada ‘blogosfera’. Primeiro, deixa falar da minha experiência pessoal. Eu tentei ter um blog anônimo, ou com ‘heterônimo’, ou com um ‘personagem’, duas vezes. As duas tentativas não duraram muito tempo, porque aquilo me incomodava. Eu sei que pode parecer bobagem – e é – mas eu achava que tinha certa ‘responsabilidade’ sobre o que eu escrevia. Quando você ‘monta’ um personagem, tudo o que vem depois necessita estar coerente com a orientação que você dá a ele. E eu achava isso difícil. Algumas coisas que eu gostaria de expressar, não ficariam factíveis na boca dos meus ‘alter-egos’. Decididamente, escrever por meio de um personagem, não é tarefa fácil, e não é para qualquer um.

O principal problema que eu vejo e que tenho sentido na pele é que, de modo geral, as pessoas adotam um certo tom para seu personagem. Até aí tudo bem. Algumas são excessivamente agressivas, ácidas e debochadas. Nada de mais nisso também. Cada um escreve da maneira que sabe e gosta. O problema maior, na verdade, só se revela quando você se dirige a eles, os personagens. Porque alguns acham que, se você usa de tom semelhante ao deles, aí a coisa pega. A eles é dado o direito de expressão, ainda que isso signifique estar várias oitavas acima do aceitável, ou ainda que tenham ‘carregado nas tintas’. Sentem-se, pois, ofendidos.

Eu acho isso complicado. Porque se a pessoa escreve imbuída de um personagem, a rigor, é porque ela não quer ser confundida com ele. Se você responde de determinada maneira, é claro que você não está respondendo a quem efetivamente escreveu o texto, mas ao personagem. É ele que está sendo, por assim dizer, interpelado. Mas nem sempre as coisas se passam com essa precisão matemática, porque os seres humanos não são equações. Você interpela o personagem, mas o autor do texto acha que é ele quem está sendo interpelado. Você está discutindo as idéias contidas no texto (tá, essa coisa de ‘idéias contidas no texto’ é altamente polêmica, mas eu vou deixar assim por ora. Depois eu explico), mas o autor sempre acha que você está dirigindo uma crítica pessoal a ele, o membro da sociedade civil que colocou o preto no branco.

Por essas e outras confusões é que eu, particularmente, desisti de escrever sob pseudônimo. Eu não me sentia capaz de lidar com tantas variáveis e, por isso, achei melhor escrever com meu próprio nome. Assim, se eu escrevesse besteira – e eu escrevo muita – eu não poderia nunca me escorar na desculpa de que foi o meu ‘personagem’. Eu sou responsável pelas coisas que escrevo, mas isso não me faz melhor do que ninguém, apenas revela uma incapacidade minha de lidar com certas delicadezas.

Eu não sou ingênua a ponto de acreditar em coisas tais como o ‘eu psicológico’, uma entidade auto-contida, acabada, coerente e previsíviel. Várias teorias desmontaram a ficção do ‘eu’, bem como a do ‘sujeito’ que fala de maneira independente. Na verdade, o nosso discurso ecoa discursos vigentes e quando falamos (ou escrevemos) assumimos um determinado lugar. É desse lugar que parte a nossa fala. Com isso, eu estou querendo dizer que a originalidade do sujeito é uma ilusão. No entanto, isso não quer dizer que se possa eximir de responsabilidade aquele que enuncia. Essa não é a minha praia acadêmica e por isso não vou levar a discussão adiante, sob o risco de falar (mais uma) besteira. O que eu estou afirmando aqui é, ainda que o ‘eu’ e o ‘sujeito’ sejam ficções, ainda que não exista originalidade em nosso discurso, eu acredito que, como sujeito, digamos ‘civil’, eu me responsabilizo por minhas escolhas. Eu me sinto melhor assim, dando meu nome às coisas que escrevo.

Eu admiro quem como o Marcus, ou o Alex assinam seus textos sem medo de interpelações. Que bancam aquilo que escrevem sem apelar pra nada. Ou gente que, como a Mary W. sabe ser polêmica e não fica de mi-mi-mi. Mesmo assinando sob pseudônimo. As fronteiras desses conceitos que eu coloquei aqui são naturalmente borradas. Eu não me sinto à vontade com elas, elas me incomodam e é por isso que eu escrevo. Porque, no fundo, eu acho que a gente escreve sobre aquilo que quer entender; escrevemos sobre as nossas perplexidades. Eu não sou coerente, vá lá. Nem quero ser dona da verdade.

Quem vos escreve sou eu, Cristiane.

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Eu fui acusada de várias coisas por esses dias. A primeira foi a de ser responsável por um lamentável equívoco, por algo que não escrevi. Eu sou responsável pela minha escrita, mas não posso ser responsabilizada por algo que outras pessoas escrevem em meu nome. Isso já é querer demais.

Outra acusação foi a de que eu, como amiga,  ‘tinha obrigação de saber separar’ o que pertencia ao discurso do ‘personagem’ em questão daquilo que era efetivamente as idéias de quem escrevia. Ora, a premissa já começa com um erro. Eu não tenho obrigação de nada, muito menos de ter esse alcance de conhecimento. Vou explicar. Eu tenho um filho de 18 anos. E quase sempre descubro coisas sobre ele que eu desconhecia. Pequenas sutilezas de personalidade. Por vezes coisas mais sérias, conceitos que eu não sou capaz de identificar de onde vieram, alguns que até me preocupam um pouco. E isso é natural, pois eu queria o quê? Que ele fosse um decalque meu? Que ele absorvesse como esponja os meus valores? Eu acho que não.

Pois bem, se eu não tenho essa capacidade de conhecimento de alguém que saiu da minha barriga, que eu gerei, alimentei e eduquei, como vou saber o que se passa na cabeça de um outro ser adulto? Eu acho essa uma idéia eivada de ingenuidade, a de que “se você é meu amigo tinha que saber que aquele ‘tom’ era do meu personagem”. Bom, eu posso sempre dizer a meu favor que, se você é meu amigo, também deveria saber que eu interpelava o seu personagem e não você.

A gente tende sempre a ver as coisas de uma maneira só. Em geral, de uma maneira que nos favoreça. Eu sou assim, você é assim. O melhor seria sentar pra resolver as diferenças conversando de maneira aberta, de preferência tomando uma cerveja. Mas tem gente que prefere tomar o caminho mais difícil  e aí acaba se transformando naquilo que eu chamo de ‘ressentido profissional’. Eu não faço sempre tudo certo – ainda bem, estou dentro dos parâmetros da chamada ‘normalidade’. Mas também não acho que esteja sempre errada. O que acontece, infelizmente, é que as pesoas invertem essa premissa, na maioria das vezes, a favor delas.

Agora vocês podem começar a achar as incoerências do meu texto. Ele deve, sim, estar cheio delas.

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6 Comments

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6 responses to “Personagens

  1. Seu texto coloca muitas questões interessantes. Acho até que eu teria que escrever um post para comentá-lo com a profundidade que ele merece.

    Eu comecei o meu blog escrevendo com pseudônimo, mas era eu mesmo, apenas cansado de ser “seguido” por desafetos na internet, algo que acontecia já há alguns anos. Desencanei depois e passei a assinar com o meu nome, até porque estava fazendo amizades virtuais com outros blogueiros e parecia um tanto estranho as pessoas não saberem quem eu sou.

    Entendo o episódio que você está narrando, embora não saiba (e nem faço questão de saber) a quem você está se referindo. Eu diria que a melhor coisa é separar mesmo: se você cria um personagem, as pessoas te conhecem como o personagem e não sabem quem você é por trás dele. Assim as coisas ficam menos sujeitas a confusão.

    Se eu escrever de novo com pseudônimo, vai ser para, usando um personagem, acabar por falar mais a “verdade” do que eu mesmo falo com meu próprio nome. Eu não escrevo muito sobre a minha vida porque não quero expor outras pessoas que participam dela — coisa à qual a Mary pode se dar ao luxo.

    Existe um projeto coletivo, muitas vezes adiado, de fazer isso. Há histórias incríveis a ser contadas, mas os nomes não podem aparecer.

  2. marcus, eu acho na verdade que há muita confusão entre o que é personagem, alter-ego, pseudônimo, heterônimo, etc. são coisas aparentadas, mas diferentes. a mim me parece que as pessoas que escrevem esperam daqueles que as conhecem que esses façam uma distinção entre o que, no texto, pertence a elas – autoras -, e entre aquilo que pertence ao dito ‘personagem’. coisa que no fundo acho que nem elas mesmas sabem. eu acho tudo isso muito complicado e os argumentos usados, no caso desse episódio besta, bastante frágeis.

  3. Xi…q chato!

    To sabendo do bafafa mas nao sei qual foi o texto q causou a discordia.

    Enfim, eu acho q se uma bobagem dessas destruiu um amizade eh pq a amizade nao era tao solida assim.

    O tempo dira…

    Beijos!!

  4. oi, flávia. é melhor dexar isso pra lá. mas eu concordo com você. se uma bobagem – porque para mim foi – abala ou destrói uma dita ‘amizade’, é porque não existia amizade de verdade. eu já passei por coisas difíceis com amigos; sentamos, conversamos, demos uma choradinha e voltamos as boas. é assim que deve ser, eu acho. bj

  5. Edu

    Posso trocar a cerveja por um guaraná zero estupidamente gelado? Então tá. Porque concordo com a complexidade da coisa toda, exatamente do jeitinho que você disse. Nem a gente se conhece por inteiro, quanto mais conhecer a outro. Se uma amizade terminou é uma pena. Mas estamos aí pra te dar cobertura onde for necessário, viu?

  6. bem, eu sou do time dos pseudônimos, e entendo que sempre escrevemos de algum lugar.
    Estudei algumas das teorias psicológicas e poucas trazem um núcleo de sí, e quando trazem, é um núcleo bem arcaico, do tipo que não escreve textos. No máximo cria um ponto fixo no centro no qual a personalidade gira em torno.

    Mas falando de personagens, todo personagem tem suas limitações e tentações. É fácil transformar a minha fala em qualquer coisa fantasiosa, é muito difícil ao leitor separar o real da fantasia, mesmo que conheça a pessoa. Eu pessoalmente no entanto, não me incomodo muito em manter consistência de personagem, no máximo é uma autobiografia, que também relata a vida de uma personagem, minha visão de mim, mas que provavelmente é bastante parcial e retalhada

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