Questão de ordem

“O autor deveria morrer depois de escrever. Para não perturbar o caminho do texto.”

(Umberto Eco, Pós-escrito a ‘O Nome da Rosa’)

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E eu – ó audácia! – diria mais. O autor precisa morrer.  Sempre. Para não perturbar os estudantes de letras e todos aqueles que teimam em achar que o pobre coitado – transformado em ‘entidade’ – quis ‘dizer’ algo. Vou bater nessa tecla até o fim. O autor não quis dizer nada e o sentido não ‘mora’ no texto. O sentido não é algo anímico, uma essência que o autor inocula no texto. Ao leitor não cabe ‘extraí-lo’. O sentido é construído pela interação. Movimentos ascendentes e descendentes. Texto-leitor, leitor-texto. ‘Inclua’ o autor fora dessa, por favor.

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7 Comments

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7 responses to “Questão de ordem

  1. Christiano

    Isso depende muito do tipo de texto em questão, né? rsrsrs

  2. é, christiano. eu tô falando mais de literatura. mas isso vale pra outros tipos de texto também*. digamos que em outros tipos de texto, o sentido, [updeite] de igual modo, nunca é imanente. na verdade, o que se tem é sempre o texto. a intenção do autor, ou coisa que valha, estará sempre perdida. por isso as interpretações são múltiplas. repare que eu disse múltiplas, não infinitas. ai, esse espaço é muito pequeno pra uma questão tão complexa. mas a gente vai pingando coisas, aqui e ali. 😉 bjs

    *bem, eu não sei se isso vale pra um manual de instruções, por exemplo, nunca pensei sobre isso.

  3. ontem estava lendo um texto do umberto eco sobre o pensamento latino e ele fala dos labririntos (do sentido) de um texto (ele fala de 3 tipos de labirinto, mas eu estava lendo e morrendo de sono). modos que.

    isso tudo só pra falar que o u. eco tem uma erudição que nem sempre eu consigo acompanhar.

    (desculpe ter saído do assunto do post mas ainda tô meio bege com o texto dele. vou ter que ler de novo pra TENTAR entender direito. isso tudo foi só um desabafo).

  4. Christiano

    Entendo, Cris. Mas eu estava pensando em um texto científico, por exemplo. Acho que, nesse caso, a intenção do autor pode se mostrar de alguma forma.

  5. Um dia, no meu primeiro curso de teoria literária na graduação, a professora estava fazendo a leitura de um poema da cecilia meirelles. E alguém levantou a mãe e perguntou “como era possível ter certeza que ela tinha pensado em tudo aquilo pra escrever o poema”. Sorridente, a professora disse: “Se ela pensou ou não, não interessa pra gente. Interessa só que que está escrito. Ela escreveu e jogou no mundo, agora a gente faz o que quiser com o texto. É nosso.” Eu adoro esse jeito com que ela apresentou a independência do texto em relação ao autor. Foi a primeira vez que eu ouvi isso. E assino embaixo desde então.
    :*

  6. ai, aline, que lindo isso. eu também assino embaixo. mas você não imagina como o povo resiste a essa idéia. meus alunos de letras achavam que eu era ‘feia, chata e boba’ por dizer isso, hahahaha [tá, nem todos :P].

    christiano, texto científico é algo que deve ser pensado à parte, porque tem suas especificidades. mas, acredite, os ideais de objetividade do texto científico não são absolutos. porque a linguagem sempre deixa ‘fendas’, por mais que você queira ‘cercá-la’. tem uma professora muito boa na UNICAMP, maria josé coracini, que estuda isso. ela tava na minha banca de mestrado. se o assunto te interessa, procura alguma coisa dela. bjs!

  7. Christiano

    Concordo contigo, Cris.
    Obrigado pela dica.

    Abraço.

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