O enganador de leitores

“Os limites de minha linguagem são os limites do meu mundo”

Ludwig Wittgenstein

Talvez essa seja uma das frases de Wittgenstein que mais interpretações equivocadas provoca. Não é para menos. O estilo de Wittgenstein, que escrevia por aforismos – frases numeradas, algumas bem curtas, sem estarem necessariamente encadeadas – é cheio de armadilhas. É relativamente fácil pegar qualquer uma delas e colocá-la como pretexto para defender ou negar toda sorte de assuntos. Até o tio Rei, da Veja, já usou a frase acima para – oh, heresia – defender a variante culta da língua portuguesa como a melhor, a que nos levaria a ‘expandir’ os limites do nosso mundo. Wittgenstein, se vivo estivesse, talvez recebesse os comentários à sua obra com desprezo e não dissesse nada. Ou talvez avançasse para o autor da ‘pérola’, brandindo um atiçador de brasas, como fez num famoso debate com Popper. Não há como saber.

O fato, porém, é que sempre parece muito fácil isolar uma frase de certo contexto e torcê-la até o limite. No caso de Wittgenstein, isso é sempre um tiro no pé. Diante do texto dele, eu, muitas vezes, me senti abobalhada. São frases muito simples e com uma clareza aparente. Diante delas a gente se desconcerta, porque não parece haver nada além do que está ali escrito. Bom, na verdade, acho que ele não acreditava muito nessa coisa do ‘interdito’, mas o caso é que é preciso ter uma visão de conjunto para poder começar a vislumbrar alguma coerência ali. Do contrário, parece tudo muito óbvio – e aí, nós, os espertinhos, podemos parar e perguntar: mas por que esse cara escreveria um livro pra dizer isso? Coisas como “O significado da palavra é aquilo que a explicação do significado explica” parecem não levar a lugar algum.

Nesse ponto é que entra a tal visão de conjunto que falei acima. Wittgenstein foi um filósofo ímpar, que criou dois sistemas de pensamento, que foi de um extremo a outro; de pensador com tintas ‘metafísicas’ a nome mais importante da chamada ‘virada pragmática’ na filosofia. Entretanto, ele sempre se manteve coerente em um ponto: seus interesses filosóficos. Ele sempre esteve focado na questão da linguagem e do significado linguístico. As interrogações que o moviam e que o fizeram escrever sua primeira obra aparecem sob outro diapasão no texto das Investigações Filosóficas. No (belo) prefácio às suas Investigações, Wittgenstein assim apresenta o seu novo texto: “Pareceu-me, de repente, que eu deveria publicar aqueles antigos pensamentos junto com os novos; estes poderiam receber sua reta iluminação somente pelo confronto com os meus pensamentos mais antigos e tendo-os como pano de fundo.”

Existe, portanto, um fio condutor, uma linha de pensamento que ‘costura’ toda a sua obra e que torna impossível tomar uma frase e querer entendê-la fora de seu contexto de produção. Aliás, essa é a regra para qualquer texto. Do contrário, a gente tem uma coleção inútil de ‘achismos’. No caso da frase que abre esse post, ela aponta para um fato afirmado e reafirmado no decorrer da obra wittgensteiniana. A linguagem é um jogo e – assim como os jogos – é uma atividade regulada. A isso equivale dizer: a linguagem possui limites. Não limites impostos de fora, mas sim limites que são intrínsecos à própria atividade linguística. Nós podemos forçar um pouco esses limites, refazer as regras no decorrer do jogo, mas isso nunca será obra de um único jogador. Quando a gente nasce, recebe a linguagem por herança. Somos depositários de uma tradição, de um legado. Nós não inventamos a linguagem, ela já estava aqui quando chegamos. Entrar na linguagem é estar constrangido por seus limites. Ou seja, não é possível dizer tudo. Isso me leva a pensar na última frase do Tractatus, outra fonte de equívocos: “Daquilo que não se pode falar, é melhor calar.” Não se trata aqui de uma defesa do inefável, mas simplesmente da reafirmação desses limites intrínsecos da linguagem. Há coisas que não podem ser ditas, não porque estejam em outra ‘esfera’, mas apenas por questões de regras. A linguagem não é nem mais nem menos regulada do que qualquer outra atividade humana.

Para mim, a beleza do pensamento desse filósofo está justamente aí, no reconhecimento de que a linguagem é uma instituição humana – não apenas um mecanismo biológico – e, como tal, está eivada de contradições. E, nesse ponto exato, reside a beleza da atividade linguística, nas suas imperfeições. Não se pode tudo, não se pode dizer tudo. Ainda bem. Assim, penso eu, nasce a poesia, uma maneira sutil de tentar ‘enganar’ a linguagem pela linguagem. De ‘torcer’ os seus limites.

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11 Comments

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11 responses to “O enganador de leitores

  1. monica

    Ai!

    Este assunto muito me interessa, mas o post é um tratado filosófico. Preciso ler de novo, muitas outras várias vezes.
    Beijos,
    Mônica

  2. é verdade, moniquinha, saiu de uma vez só e eu não me preocupei em ‘filtrar’ nada. foi mal. se quiser esclarecer alguma coisa, eu posso colocar uns ‘adendos’, tá?

    bruno, o teu longo comentário muito me comove, mas como hoje é teu aniversário, eu vou deixar passar batido, hehehehe. bjs

  3. Não entendo nada sobre linguística. Mas odeio quando ficam discutindo o que tal autor quis dizer com tal frase. Sem contexto qualquer coisa pode ser qualquer coisa, o que nunca leva a lugar algum.

    Ai sobre a cozinha vou reformar, daí vai ficar linda mesmo =)

    Muitos chocolates pra vc =*

  4. PD

    Dentro dos limites, seu texto é saboroso. Flui, escorrega cabeça a dentro.

  5. karolzita, linguística é troço chato pra cacete, te juro. mas filosofia da linguagem, pra mim, é igual a uma caixa de bomboms: delícia! hahahahaha.

    grande PD, que bom que gostou. sempre bom ter gente que gosta do que escrevemos. bjs!

  6. Arthur

    Ainda estou formando minha opinião sobre esse topico, mas pelo menos estou entendendo melhor a tua visão. Mais um pouco e, metido como sou, consigo debater de verdade essas idéias.

  7. interessante. a tentativa da poesia torcer a linguagem não funciona comigo 🙂
    simplesmente não rola. i just don’t get it.

    mas taí a limitação do jogo certo? torceu demais as regras entre eu e o texto, no nosso jogo aquilo já está fora. isso?

  8. hahahaha, fique à vontade pra meter a colher, thur.

    F., juro que não entendi as últimas perguntas. explica de novo?

  9. to com preguiça até de logar lá no WP, então se eu não fizer muito sentido, denovo, não te preocupe, é só sono.

    é que você falou que a poesia é uma maneira de burlar um pouco as regras do que pode ou não ser dito. Na minha cabeça eu imaginei que as regras pra funcionarem ter que ser de acordo entre os envolvidos, e pra torcê-las, isso também entra em consideração.
    Na relação eu x poesia, não nos entendemos. Por algum motivo eu ou não acho graça, ou não acho bonito, ou não entendo, ou qualquer combinação disso tudo. (fora umas poucas, tipo a que vc me mostrou a um tempão atrás que eu gostei)

    Aí eu pensei que talvez ela não respeite a minha parte do acordo, não conseguimos, eu e a poesia, definir um conjunto de regras em que nos entendamos. Mas é só uma sugestão. Pode ser só que eu não gosto muito e pronto 🙂

    Me deixou na dúvida também se o Witt considerava essa relação como mano a mano, uma parte com a outra, ou se é um acordo mais geral entre as pessoas todas que falam a mesma língua?

  10. Pingback: Um comentário e uma resposta « Quitanda

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