Sapatinhos vermelhos

Nada neste mundo se podia comparar a uns sapatos vermelhos!”

(Hans Christian Andersen, “Os sapatinhos vermelhos”)

“Os sapatinhos vermelhos'” , de Hans Christian Andersen é um dos contos mais cruéis de que eu tenho notícia. Você pode fazer muitas leituras dele, mas, para  mim, a mais contundente é a que trata os sapatos vermelhos como a representação do desejo e a tentativa de ‘domesticá-lo’. Tentativa essa que passa pela punição (a personagem principal, a menina Karen, tem os pés cortados pelo anjo vingador). O viés cristão protestante que ‘costura’ a história pra mim é evidente e eu fiquei bem chocada quando fiz uma primeira leitura do texto, há muito tempo atrás. (Bruno Bettelheim tem um livro – que eu não li – onde o assunto é abordado. Não sei se a análise dele é pertinente, conservadora ou, muito pelo contrário, mas, se alguém quiser me dar o livro de presente no meu aniversário para eu tirar minha dúvida, fica aí a sugestão, hehehe).

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Eu lembrei do conto de Andersen quando li uma micro-reportagem sobre M. Chistian Louboutin. Para quem não conhece, Louboutin é o designer de sapatos mais hypado do momento. Ah, como assim? Começou o post tão direitinho pra falar de algo tão… mundano e fútil? Bem, assim é se lhe parece. O fato é que relendo Andersen, lembrei de Louboutin e da minha paixão por sapatos.

Acho meio ridículo essa associação que fazem entre mulheres e sapatos. Simplesmente porque não é verdade que *todas* as mulheres sejam enlouquecidas por eles. Essas generalizações são bem bestas mesmo. Conheço mulheres que só andam de tênis, outras que tem quatro pares de sapatos no armário e estão muito felizes. Não dão a mínima. Mas a verdade é que eu dou. Só que, no meu mundo, por razões óbvias ($$$), Louboutin é apenas e tão somente o nome de um senhor carequinha e que faz sapatos lindos, de saltos altíssimos e sola vermelha. Pra deixar qualquer mulher poderosa. E pra deixar qualquer homem com vontade de ser pisado pelos saltos que ele faz de maneira quase artesanal.

Gosto por sapatos é como qualquer gosto. E ter muitos, na minha opinião, assemelha-se a ter uma coleção de qualquer coisa. Juntar objetos é ridículo? Claro que é, se você for pensar bem naquilo que motiva o ato. Com que finalidade alguém coleciona, digamos, carrinhos? Discos de vinil? Imãs de geladeira, corujas, ou sei lá eu que outro bicho esquisito? Até mesmo livros, entram nesse balaio. Qualquer coleção tem como princípio a falta de lógica que a motiva e por isso eu sosseguei e passei a comprar meus sapatinhos sem culpa no cartório. E eles nem são tantos assim.

Contando por alto, devo ter uns 30 pares. Se você pensar numa coleção, até que nem é muito. Bem modesta (conheço umas loucas que têm cem pares). Alguns estão intactos, esperando uma boa ocasião para serem usados, como esse aqui:

sapato-rosa-001

O sapato rosa peep toe me encantou pela cor – kitsch – e pelo ar de pin-up. Ainda não aconteceu uma boa ocasião para eu usá-lo, embora minha amiga Rakelita diga que eu deveria deixar de bobeira e calçá-lo para ir comprar pão mesmo. Junto com ele, veio uma sapatilha cor de beringela, que também só foi usada umas duas vezes.

sapato-rosa-004

Alguns, ao contrário desses aí, eu uso até cansar, mando o sapateiro reformar quando ficam gastos e uso mais um tanto de tempo. E fico triste quando eles se acabam, ou quando não há jeito de fazê-los ficarem ‘usáveis’ de novo. Eu tenho caso de amor com alguns sapatos e até deixo de usar quando não quero que eles acabem (#mandemmeprender).
papatinho-fofo-3.

O meu sonho de consumo agora é ter um lugar (pode ser uma estante, porque closet é coisa que eu não vou ter é nunca) onde eu possa deixá-los à vista. Primeiro porque eu às vezes esqueço dos sapatinhos que tenho. E segundo porque acho alguns tão lindinhos que eles merecem ficar expostos. Existe uma relação esquisita entre quem gosta de colecionar coisas e os objetos colecionados. Tem gente que guarda tudo em segredo, em quartos especiais, onde só alguns privilegiados podem entrar e ver as preciosidades. Quem gosta de colecionar sapatos, pelo contrário, quer mais é que todo mundo veja a coleção que ele tem. Sapato é coisa de gente exibida e ter um lugar para expô-los resolveria ainda um outro problema. Eu acabo usando sempre os mesmos, os que estão por cima no armário e acabo nem abrindo as caixas pra procurar outros. Pura preguiça e, na maioria das vezes, falta de tempo.

E os meus ‘sapatinhos vermelhos’? Bom, eu tenho dois pares de sandálias vermelhas rasteirinhas que adoro. Uma sapatilha, um par de Havaianas e dois tênis All Star, tudo vermelho. Sapato, sapato mesmo eu só tenho um par – e nunca usei. São da designer espanhola Pura Lopez e eu ganhei de presente faz uns dois anos. Eles são um pouco desconfortáveis, tem bico fino e salto (e eu quase nunca uso salto) e – para usá-los – acho que só fazendo uma produção minimalista. Tipo, os sapatos e mais nada. Mas essa ocasião ainda está por aparecer. Esperemos, pois.

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8 Comments

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8 responses to “Sapatinhos vermelhos

  1. arthur

    hehehehe, tudo isso para falar de sapatos. Bem; cada louco com as suas loucuras, e eu tenho um telhado de vidro bem fino no quesito coleções. So espero que a estréia do sapato rosa não seja ele atingindo a minha cabeça como vc já me ameaçou.

  2. Lindos, lindos demais. Vou até reconsiderar minha decisão de me desfazer dos meus (são 39 e da Arezzo, então a senhora não vai ganhar) e quem sabe começar uma coleção. Nunca colecionei nada. Geralmente dou tudo. Mas sapatos sempre é bom ter um legal à mão, né? Apoio a idéia do rosinha a qualquer hora, se não pra comprar pão, pra um dia de aula que não precise andar muito, com um jeans.

  3. hum, sou bem suspeita pra falar, mas vamos lá: sou loooouca e alucinada por sapatos, tenho muito mais do q deveria e do q cabe no meu ‘omilde’ armário, minha mãe sempre fala ”pra q tanto sapato se só tem dois pés e usa quase sempre o mesmo???”. e o pior é q é verdade. kkk

    enfim, aumentei minha coleção de pisantes, passei a ter fixação por havaianas, todas, adoro!!!.

    beijos

  4. bem, deixar qualquer homem com vontade de ser pisado? eita… vai lá né, nunca vi o tal sapato, mas acho que depende mais é da dona (e da vontade do sujeito ser pisado no geral…)

    mas então, estava pensando, o que significa o sapato da cinderela?

  5. thur, você tem um super telhado de vidro, lindo, hehehehe.

    hahahaha, tina, mas, mas, eu até tenho DUAS sandálias da arezzo. uma bem antiga, quase não uso. a outra é fófis, fófis, baixinha, prateada e de lacinho. comprei na última liqui de verão por 27 pilas. eu implico, mas sempre passo por lá pra ver se consigo refazer minhas opiniões… [mas e vc quer começar uma coleção, melhor não se desfazer deles não. eu já colecionei imãs de geladeira. e quinquilharias da hello kitty. acho os sapatos uma coisa coisa assim, mais digna]

  6. juzinha, também adoro havaianas, mas tenho pouquinhas. é um presente que eu adoro ganhar e dar.

    F., você ficaria espantado de saber quantos homens adorariam ser pisados e nem precisa ser por um sapato Louboutin… quanto ao sapato da cinderela, nunca pensei a respeito. mas deve ter coisa ali, não?

    bjs!

  7. Cris, eu tenho só dez pares, por enquanto.
    beijos

  8. monica

    Oi Cristiane,
    O par de sapatos cor de rosa são um mimo. Realmente parecem pedir um momento bem especial, ou quem sabe, fazê-lo.
    Beijos,
    Mônica

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