Poesia é melhor que Prozac

Faz muito tempo li um texto no qual o autor fez alusão a beijar Adélia Prado. Nunca cheguei efetivamente a beijá-la, mas cheguei bem perto, numa tarde de autógrafos na FLIP. Adélia é mulher linda, que bem merece a minha devoção. E ouvi-la falar foi um pequeno privilégio.

Tem gente que prefere prosa. Eu como sempre, respeito. Mas nada há como a palavra poética, aquela que fere rente, ali onde a razão nem chega a alcançar. Daí fiz essa seleção de sexta-feira, uma mistura de Adélia e outras coisas, sem lógica alguma (na mistura, digo). Porque a semana está terminando agitada e eu preciso de um pouquinho de paz.

*****************************************

Objeto de amor

De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem a sensação de um roubo:
cu é lindo!
Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.

(Adélia Prado)

Mais difícil é falo

mais difícil é falo
que falá-lo

mais difícil é língua
do que lua

mais difícil é dado
do que dá-lo

mais difícil vestida
do que nua

mais fácil é o aço
do que achá-la

mais fácil é dizê-la
que contê-la

mais fácil é mordê-la
que comê-la

mais fácil é aberta
do que certa

nem difícil nem fácil

nem aó nem licor
nem dito nem contacto
nem memória de cor

só mordido só tido
só moldado só duro
só molhada de escuro
só louca de sentido

fácil de falá-lo
difícil de contê-lo
o melhor é calá-lo
o melhor é fodê-lo

(E. M. de Mello e Castro)

Os lugares comuns

Quando o homem que ia casar comigo
chegou a primeira vez na minha casa,
eu estava saindo do banheiro, devastada
de angelismo e carência. Mesmo assim,
ele me olhou com olhos admirados
e segurou minha mão mais que
um tempo normal a pessoas
acabando de se conhecer.
Nunca mencionou o fato.
Até hoje me ama com amor
de vagarezas, súbitos chegares.
Quando eu sei que ele vem,
eu fecho a porta para a grata supresa.
Vou abri-la como o fazem as noivas
e as amantes. Seu nome é:
Salvador do meu corpo.

(Adélia Prado)

Sossegue coração

sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa

(Paulo Leminski)

FLIP 071


[Dona Adélia, a que não precisa de legendas na foto]

Advertisements

5 Comments

Filed under Uncategorized

5 responses to “Poesia é melhor que Prozac

  1. Tina Lopes

    Triste. Poesia náo me pega.

  2. ah, tina. eu gosto. mas, assim. não me venham com análises de poemas que eu tenho muita preguiça disso. e tenho meus eleitos. gosto de alguns poetas, mas tem poesia que realmente também não me diz nada.

  3. aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah dona adélia, cris.
    tu sabes o que isso significa aqui? sabe né?
    *
    *
    vou ali comprar uns lenços.
    *
    *
    …Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
    com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora…

  4. L.

    Pois essa ali do leminski tem um isgnificado muito legal pra mim e pra Su. Dum tempo em que a gente queria muito ficar juntos, mas tinha que esperar.
    Um dia escrevi num bilhetinho pra ela, não sei se acompanhado de flores, mas com certeza florido de amor,
    “calma calma
    logo mais a gente goza
    perto do osso
    a carne é mais gostosa”
    Bjos,
    L.

  5. monica

    Poesia é. Sem mais.
    Bjs,
    Mônica

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s