Querido filho

Hoje é dia das mães. Nem sei se em outros países existe esse costume de se separar um dia para festejar as mães, nunca me interessei em pesquisar, mas para mim o dia é só mais uma daquelas datas comerciais. Só pode ser isso mesmo – comércio – do contrário eu diria que me espanta alguém estabelecer um dia para celebrar algo que uma pessoa decidiu fazer, uma escolha que ela tomou em sua vida. Acho que, para aqueles que veêm alguma ‘legitimidade’ nesse dia festivo, a maternidade deve ser algo como uma ‘dádiva’ divina e todas aquelas que a abraçam deveriam se sentir ‘abençoadas’ e mais privilegiadas que o restante das mulheres. Sim, vamos comemorar porque vocês conseguiram enxergar o ‘óbvio’, que mulher nasceu mesmo foi para ter o sublime dever de parir.

Eu nem me revolto com isso, primeiro porque não adiantaria e, segundo, porque isso é só mais um sintoma de uma mesma maneira de pensar; aquela que vê os fatos da vida como algo ‘dado’. Quer dizer, eles estão ali sem que a mediação humana seja necessária. Como se as coisas pudessem existir independentemente daqueles que as pensam, ou seja, nós mesmos. Nem precisaria evocar muitas teorias pra chegar a simples conclusão de que, não é porque o meu corpo me dá inúmeras possibilidades para ‘usá-lo’, que eu terei necessariamente que me valer delas. A herança biológica me dotou de um leque de opções; o que me torna diferente de outros animais é que posso lançar mão delas ou não.

Ser mãe, na minha história de vida, nunca foi algo pelo qual eu ansiasse. Não foi também algo que eu tenha planejado, embora ele só tenha acontecido com a minha anuência, claro. Como eu era bem jovem, eu achava que seria uma experiência ‘legal’. Meio ingênua, eu nem pensava muito no depois. Eu escolhi meio sem saber, sem ter todas as informações de que precisava pra fazer a escolha. E meio porque, diferente das outras mães, a minha sempre dizia que eu tinha era que trabalhar e estudar. Ela achava que eu não tinha ‘jeito’ pra maternidade, seja lá o que isso queira dizer. E quando eu tive um filho ela me fez ver – muito sabiamente – que meu estilo de vida nunca me permitiria ter outro. Talvez eu quisesse mostrar a ela que ela estava errada; que eu podia – sim – estudar, trabalhar e cuidar de um filho. Coisa de gente que não amadureceu, isso de querer ‘provar’ algo pra alguém, ainda mais a mãe.

O meu filho veio e eu comprovei para mim mesma que aquilo que dizem sobre amor maternal é um equívoco. Amor de mãe é igual a qualquer outro amor. Quando o filho nasce, você sente um estranhamento; eu pelo menos senti. Algo saiu de dentro de mim, mas era um desconhecido para mim. Quando olhei pro meu bebê a primeira vez pensei: ‘Oi, vamos nos conhecer?’. Não foi uma relação fácil. Eu digo sem medo hoje em dia que, muitas vezes, eu tive a certeza de que havia feito a escolha errada; de que eu não servia para aquela ‘tarefa’ que havia me proposto. E acho que muita gente tem esse ligeiro pensamento, tão ligeiro quanto uma lufada rápida de ar. Só que nem dá pra parar e pensar, porque esse é um pensamento ao qual não nos é franqueado o direito de acesso. A gente repele na hora. Imagina. Mas eu pensei isso muitas vezes. Que eu podia ter ido mochilar na Europa, podia ter feito o doutorado mais cedo, podia tanta coisa. E só amadurecendo você entende que uma escolha implica na negação de outras coisas. E aí, faz o quê?

Ocorre que o amor tem seus mistérios. E como ele é caprichoso a gente tem que insistir, e dar mais uma chance a ele, e outra e mais outra. Amor de mãe por filho quando vinga é porque a batalha com certeza foi boa. Mas como, então tem mãe que não ama o filho? Claro, ué. Aos montes. Porque, se você aposta na dimensão biológica da coisa e acha que o amor vem assim fácil, vem ‘no leite’, o projeto vira um fiasco. É preciso muito empenho pra dar certo.

Eu comprovo isso no meu trabalho quase todos os dias. Não é preciso analisar classe social, renda, nada disso. Para muitas crianças a regra é o desamor e o abandono. Não é preciso ser pobre pra ser abandonada. Isso na melhor das hipóteses. Quando não tem violência, abuso. E, novamente, isso não é privilégio dos mais pobres. Não estou dizendo que isso é um problema só de mães, claro que não. Mãe não faz filho sozinha, nem mesmos naqueles casos – como o meu – em que ela jura que não precisa de pai pra nada (o que é mentira).

Eu falo do projeto conjunto de ter filhos que nasce entre duas pessoas sem que elas saibam muito bem a razão. Só porque ‘todo mundo que casa tem que ter filho’, ou porque ‘eu não quero ficar sozinho/a na velhice’. Eu e minha amiga Mari chegamos à brilhante conclusão de que tem gente que precisaria de uma tirar uma ‘carta’ igual a de motorista, se quisesse ter realmente o direito de ter um rebento. Porque eu não acho que ter filhos enobreça uma pessoa, faça dela alguém melhor, ou que seja algo ‘natural’ na vida de alguém. Também não acredito que tê-los é muito melhor que não tê-los. Tudo é uma questão de escolha e daquilo que se está disposto a abrir mão. Ter filhos é, como tudo na vida, uma aposta. Mas isso é outra história, eu comecei esse texto pra falar de dia das mães e dessa ‘entidade’ chamada ‘amor maternal’. E que eu não vejo muito sentido em ter um dia separado para celebrá-lo, se o amor é, como tudo, uma construção.

Eu não tenho uma definição pra ‘amor’. Na minha cabeça isso não existe. Amor é aquilo que nós – animais dotados de linguagem – chamamos de amor. A gente pode não ter definição precisa, mas sabe usar a palavra e sabe dizer quando o amor existe ou não. Eu me sinto muito feliz de ter aprendido a amar o rapazinho que mora comigo hoje. Foi um projeto difícil, mas ele está aí, bonitão, na faculdade, seguindo a vida dele bem tranquilo. Eu não preciso lamentar o fato de não ter ido mochilar na Europa porque eu tenho hoje o melhor companheiro de viagens ever. Na verdade, eu só adiei a ‘mochilagem’ por um curto espaço de tempo.

******************************
Se eu posso dizer que conheço meu filho? Um pouco. Por exemplo, sei que o senso de humor dele é dos melhores. Hoje ele me abraçou e disse que eu era ótima mãe – quando concordava com ele, óbvio. Mas eu juro que fiquei passada há algumas semanas atrás quando fiz brigadeirão – algo que faço há séculos – e descobri que ele nunca gostou desse doce. Tem muita coisa dele que eu ainda não descobri, mas e daí? Eu tenho toda a vida pra fazer isso.

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19 Comments

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19 responses to “Querido filho

  1. Arthur

    Nossa, que complicação para falar de um dia só, imagina se pedirem para vc discorrer sobre os outros 364.25 dias do ano rsrsrs

  2. é que esse é um dia especial, arthur. bem, talvez o dia seja comum, mas, se você me conhecesse, saberia que aquilo que se celebra hoje sempre foi uma questão importante pra mim. eu sempre questionei e virei pelo avesso essa coisa de maternidade. talvez por isso o texto. como não temos intimidade um com o outro, você não teria como saber, né. bj

  3. listadafeira

    E se não é inato, é ainda mais valioso.

  4. Tina Lopes

    Ah, Cris, eu vi o aviso do post e já vim ler sabendo que você ia matar a pau. Lindo, assino onde?

  5. mãe é tudo né?
    e a vida é assim, cheia de erros e acertos, crescimento sempre e é como vc disse, passou um tempão fazendo uma coisa pra ele e descobriu há pouco q ele nem gosta, e por isso vai deixar de ser uma ótima mãe? claro q ‘dão’.

    feliz todos os dias das mães [365 dias do ano]

    beijos

  6. Arthur

    Ihh, parece que a minha tentativa de humor foi por água abaixo. Quis brincar com vc sua boba, claro que sei o quão importante é ser mãe para você. Só quis mesmo brincar com esse seu jeito de desconstruir tudo nas menores peças e analisar os detalhes mais ínfimos, indo assim do seu amor adquirido, construído para a definição de qual é o significado dessa palavra, voltando a sua vivência e interpretando se como a sua construção desses conceito se encaixam nos suas experiências.

    Agora, dá o dedinho, ou ainda quer ficar de mal? rsrsrsrs [<- mostrando claramente que num estou de mal, tá e que sei que vc leu mais no meu comentário do que estava lá]

  7. monica

    A ideia da carteira de motorista é boa, huahuahua. Meu pai sempre dizia que não há livro, conselho ou experiência de outros que sirvam para nossas dúvidas na hora de educar os filhos.
    Bjs,
    Mônica

  8. Hum vc tocou nessa coisa de amor materno e tals. Não amo minha mãe e ela tb não me ama. Somos sinceras uma com a outra nesse ponto. Talvez a gente desistiu de se conhecer melhor ou a gente nem mesmo tentou. Mas somo felizes assim, cada uma na sua e com paz.

    Bjo Bjo

  9. namo fez uma palestra sobre mais ou menos isso esses dias…
    realmente, não existe nada de instinto materno. Acho que muita gente se perde no conforto dessa noção, de achar que sente e sempre sabe com certeza o que é melhor pro filho. ora, ninguém sabe ao certo o que é melhor pra si, quanto mais pros outros. porque filho, querendo ou não, é um outro, e não uma extensão dos próprios desejos, como a maior parte pensa. E toda relação com outros é construída.

  10. ai, thanatos, que lindo o teu comentário, adorei.

    karol, :****

    moniquinha, teu pai sabia das coisas.

    thur, tem razão, querido. desculpe. dá aqui o dedinho e toma um beijo :***

    ju, brigada, linda!

    ah, tina, que bom que você gostou.

    lista [que esquisito te chamar assim, mas vá lá], eu não sei se é mais valioso por ser inato, nunca pensei nisso. mas acho que é como toda relação amorosa, dá um trabalho danado e tem que ter muito empenho. bjs

  11. Izabel

    Concisão não é teu forte, hein…

  12. questão de ponto de vista, né, izabel. pra mim, quem fala/escreve uma coisa dessas é porque, no mínimo, não tem intimidade com as palavras; deve ser alguém que evita ler jornais porque os artigos ‘são longos demais’ e prefere revistas pra ‘ver as figuras’, rs. em todo caso, tenta o meu twitter. lá são apenas 140 caracteres, pra deixar qualquer ‘cerumano’ feliz. beijusss

  13. maaaaaas, pra q veio mesmo???
    num intindi o q ela falô.

  14. acho que nem ela entendeu, ju 🙂

  15. num é menina???
    eu juro q não consigo entender o pq da visita, o pq do comentário, o pq do retorno, e o pq do lálálá se não gosta do q é escrito. com tanto tuíter por aí pra ver besteira vem logo aqui. né? eu ando tão tolerância zero q se fosse comigo juro q não seria tão educada…

  16. Gulossita

    Embora tudo que seja pra ler pra mim ’sejam longos demais’ e prefira revistas pra ‘ver as figuras’ e tenha ido buscar no google o que é Concisão, acabei lendo o post, detalhes que a mim agradam muito, tornou tátil, cheiros, medos, certezas, amor maior e expectativa.
    tudo tem um porque e um pra que, lembra ? vc me disse isso, talvez o porque dela tempo a gastar e o pra que oferecer a oportunidade de quem não leu, ler algo tão precioso. Tks Izabel

  17. é, gulossita, o grande problema é a pessoa entrar na tua casa e te cutucar de qualquer jeito. eu aceito qualquer crítica, desde que seja feita do modo adequado. agora, se me cutucam, eu sei revidar. é como se – mal comparando – alguém olha pra tua roupa, não gosta e dispara: “pô, bom gosto não é o teu forte, hein?” se fui eu quem pediu a opinião, ok. é meio mal educada, mas vou ter que aceitar. no entanto, se eu não perguntei, mas você quer opinar, tem que saber como fazer. todos os espaços têm as suas regras implícitas. na internet, os blogs são públicos, mas educação é a regra número 1. beijos

  18. Gulossita

    desculpe não quis dar aval ao comentário, ao contrário,eu não soube me expressar como queria.

  19. ah, tudo bem. eu também não quis dar um tom agressivo, desculpe se ‘soou’ assim. é uma coisa absolutamente sem importância esse tipo de comentário. eu pensei em deixar quieto, mas sabe como é, quem um dia já gostou de briga, sente uma coisa arder por dentro com a mais leve provocação. eu acho que falta um pouco de elegância às pessoas às vezes pra dizer o que pensam, por não saber como fazer diferente mesmo – e me incluo nesse grupo – por isso atualmente eu evito entrar em discussões de quaisquer espécie. é que hoje tá calor, então, já viu. não resisti, rs. beijos, apareça mais.

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