Não contem pra ninguém

Mas eu estou tentando diminuir meu consumo de carne vermelha. Não é uma decisão sacramentada. Não estou batendo o martelo e dizendo que vou virar vegetariana estrita, mas é um desejo e eu venho pensando nele já há algum tempo. Nunca fui o que se pode chamar de carnívora convicta. Não babo por um pedaço de picanha. Gosto de bife, mas passo semanas sem comer. E, ultimamente, quando a falta de tempo tem cada vez mais me impedido de cozinhar, eu tenho feito muitas refeições na casa dos meus pais. Eles comem pouquíssima carne, quase nenhuma, mas os pratos lá são tão saborosos, tudo o que a minha mãe cozinha é tão bom que eu venho questionando cada vez mais essa pseudo necessidade de comer bicho morto.

Tem uma historinha da minha adolescência. Assim. Meus pais, que nunca tiveram vocação pra ripongos, nem nunca foram à Woodstock, um belo dia resolveram que eles e a filharada iriam virar vegetarianos. Desse jeito. Leram uns livros e simplesmente nos comunicaram que, dali pra diante, carne não entrava mais na nossa casa. Eu devia ter uns 13 anos e lembro que fiquei meio revoltada, mas fazer o quê. Só restava a nós acostumar com aquelas bolinhas que pareciam carne de cachorro (isso mesmo, proteína de soja). Vale dizer que no início dos anos 80, não havia assim tanta oferta de produtos ‘macrô’  ou ‘naturebas’. Lembro que uma vez a minha mãe resolveu fazer leite de soja do próprio grão. Jizuis, que coisa horrível! Tinha gosto de óleo de cozinha. E ela jurando que a gente tinha que tomar porque era saudável. Vejam vocês os traumas que uma pessoa tem que superar na vida.

Lá pelos 18 entrei na faculdade e joguei pro alto a idéia maluca de virar vegetariana por imposição. Mas nunca consegui superar o ‘trauma’. Vez por outra eu questionava e chegava à conclusão de que deveria parar mesmo. Numa época, entrei pra uma religião ‘alternativa’, dessas que lidam com magia e lá ninguém comia carne porque tornava um dos nossos ‘corpos sutis’ mais densos. Aprendi a fazer umas receitinhas bem legais, mas não aguentei a maluquice das reuniões no meio da reserva florestal do Grajaú por muito tempo. Inda bem, né. Perdi a alma, mas, em compensação, salvei o corpo.

Foi lá que eu comecei a ler os livrinhos da Sônia Hirsch. Li vários e os tenho até hoje. A Sônia era macrô radical, mas hoje em dia já tem um discurso mais ‘macio’. Tem boas coisas nos escritos dela e coisas que dispenso solenemente. Tem receitas legais também. Dá pra ver que não é nenhuma tragédia viver sem carne. Por ora, quem tem me interessado é o filósofo australiano (tem filosofia na Austrália? Nossa! Hehe) Peter Singer, um cara que fala sobre os direitos dos animais, aborto e eutanásia. Já tem tempo que o livro dele – Ética prática – pega poeira na minha estante. Li algumas páginas, mas como é preciso fôlego para levar a leitura adiante, ele – como tantos outros – estão resevados para meu deleite pós-tese. Enquanto isso, me contento em comer carne branca e arroz integral. Será que dessa vez eu consigo resistir ao bifinho que a Otília faz aqui em casa? Aguardem os próximos capítulos.

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12 Comments

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12 responses to “Não contem pra ninguém

  1. Cris, você vai AMAR esse livro do Peter Singer. Como eu disse num post, ele te envolve numa lógica tão irrefutável que você começa até a achar que infanticídio é justificável.
    Bjs (e saudades)

  2. Eu AMO carne… vejo picanha, capaccio, kibe cru e fico salivando horrores.

    Mas como carno 2 x por mês, qdo muito. Peixe e/ou frango, várias vezes por semana; legumes td dia.

    O engraçado é q carnivoros me acham vegana e os veganos, carnívora…

    Rá!

  3. Edu

    Eu acho infanticídio plenamente justificável. Cada monstro que anda nascendo… 🙂

  4. Eu dispenso carne também. Já a Nina é a carnívora mais voraz que já conheci. Então sempre tem que ter carne em casa, não vou traumatizá-la pra ficar igual você quando crescer… hahahahahaha, sacaneei. Bjk.

  5. Arthur

    Eu sempre achei os argumentos vegetarianos muitos fracos, não faz sentido parar de comer carne por achar que isso é um crime. Acho que as pessoas devem comer ou não carnes se as apetecerem; não gosta do sabor ou não sente falta, sem neuras. Mas para quem gosta, se privar por essa bobagem é muito idiota, pelo menos na minha opinião.

  6. nem fala um troço desse, mulher.
    os bifes da otília são a coisa mais gostosa e bem temperadinha do mundo.
    (manda tudo lá pra casa se te der na veneta de seguir com este “conceito” adiante, falou?)

  7. L.

    Faz assim, Cris: todo bife que vc não comer, manda pra cá que eu como.
    Feito?
    rsrsrs
    Bjs,
    L.

  8. L. e débora: vocês são gauchos, tchê. assim não vale.

    🙂

  9. putz, não consigo nem pensar nisso…
    tenho uma certa dificuldade pra comer, minha mãe diz q sou fresca, mas prefiro achar q sou seletiva… kkk
    se eu só pensar em não comer carne eu já passo fome.
    beijos

  10. Eu ando com essa vontade de comer coisas diferentes, pratos mais coloridos, sabe? Só que eu sempre tive tanto problema com verduras e legumes. Até que ultimamente tenho aceitado bem quando estes aparecem no meio da comida. Então, sei lá, achei uma boa hora pra experimentar. Só que não sei nem cozinhar arroz… :~ imagina o resto.
    Mas nunca é tarde… ;P

  11. fico temporadas sem comercarne e me sinto bem. mas. sempre tem um mas. meu marido é o tiranossauro rex em pessoa. faz questão absoluta de carne. não me oponho, ele pode comer carne, não ligo. como estou grávida e a proteína é importante pro bebê, vou esperar pedro nascer pra evitar carnes de novo.

  12. então, lulu, eu também tenho um tiranossauro aqui em casa. o guilherme ama um bom bifão. também não me oponho – e às vezes até acompanho, mas tenho tentado comer menos. é uma questão de se sentir bem. vou cortar oleite da minha alimentação também. há muito tempo que noto que ele não me faz bem. e tomar e me sentir mal. acho que tem outras alternativas, o importante é ficar esperto e saber procurar. beijinhos!

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