De onde tiramos nossas vontades

A noção de inconsciente não ajuda apenas, como se vê, a compreender as causas e razões que determinam a experiência subjetiva de alguém. Ela sobretudo implica o sujeito nas suas próprias ações, por mais disparatadas, enigmáticas e desconfortáveis que possam ser. Com a noção de inconsciente diminuiu a possibilidade de alguém alegar – em relação a uma ação qualquer – que “não fui eu” (e sim “o demônio”, “os instintos”, “os hormônios” ou “os neurotransmissores”). Com isso ela amplia nosso campo de responsabilidade. De certo modo, na medida em que implica o sujeito em todos os seus atos, a imagem freudiana do sujeito recomenda uma espécie de imperativo socrático. Mas “conhecer-se a si mesmo” não significará descobrir “o que na verdade se é”, e sim entrar em contato e reconhecer-se nas múltiplas (e frequentemente desagradáveis e indesejáveis) modalidades de ser sujeito que nossa individualidade física pode abrigar e cuja existência nossa própria trajetória singular tornou possível.

Diferentemente do que ocorre com as idéias de Copérnico e Darwin, portanto, o descentramento do psiquismo produzido por Freud tem implicações éticas incontornáveis. Na vida comum do dia-a-dia, as teses do heliocentrismo e o evolucionismo biológico não desempenham qualquer papel decisivo. Pode-se perfeitamente tomar decisões sobre como levar a vida, sem levá-las em conta. Não se pode dizer o mesmo do inconsciente.”

Benilton Bezerra Jr., Descentramento e sujeito – versões da revolução coperniciana de Freud (In: Costa, Jurandir Freire. Redescrições da Psicanálise, Relume Dumará)

Advertisements

3 Comments

Filed under Uncategorized

3 responses to “De onde tiramos nossas vontades

  1. Baixou um Bahuan aqui e não li.

  2. Pingback: Balanço anual « Quitanda

  3. interessante..
    realmente responsabiliza o sujeito pelas suas ações.
    Mas pelo que eu lembro da facul não foi Freud exatamente que “inventou” o inconsciente. E depois dele vários outros, tipo o Jung, tiveram opiniões diferentes sobre o papel dele na vida de alguém

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s