Passaredo

Eu tenho passado dias pensando em quando eu era criança. Não sei exatamente a razão, deve ser velhice mesmo, pura e simples. A gente vai envelhecendo e sabe que a única coisa que ainda pode preservar por mais tempo é a memória. O resto se vai bem mais rápido do que se pensa.

Quando eu tinha vinte anos sequer lembrava de coisas que foram determinantes e que aconteceram justamente no período mais tenro da minha vida. Infância já foi refúgio de poetas e romancistas, lugar idílico, de paz e felicidade. Hoje se sabe que nem na infância somos poupados de angústias. Mas às vezes é bom, dá um certo sossego imaginar que em algum momento da vida a gente ainda não era adulto – e um adulto que, por essas duras contradições da vida, gosta de acolher sofrimentos. Como se sofrer agregrasse alguma coisa. Daí vem essa certeza de que um dia a gente já consegiu fazer melhor que isso.

Eu fui criança de subúrbio, criada em casa com quintal e um jardimzinho. Tinha cachorro (pastor alemão), gato vira-latas e pé-de-abacate. Tinha também carambola, que naquela época nem tinha prestígio algum. Era só uma fruta esquisita e de gosto um tanto ácido. Eu gostava de subir no pé dela e brincar de Robinson Crusoé. Era assim. Eu era o náufrago e tinha que me abrigar das feras da ilha e pra me proteger fazia uma casa em cima da árvore. Brincava muito sozinha, coisa esquisita pra quem tinha dois irmãos e uma irmã. Mas para mim isso era o mesmo que nada. A irmã era quatro anos mais nova, o irmão mais novo era oito anos mais novo e o outro irmão era moleque de rua, não ia querer brincar de coisas sem graça de menina.

Eu tinha muitos blocos de montar – tipo Lego – e aquele monte de Playmobil. Também tinha livros. Como aprendi a ler muito, muito cedo – e já entrei na escola alfabetizada – eu sempre ganhava livros de presente. Dos livros saíam as historinhas que eu usava de argumento pra brincar com os Legos e Playmobils da vida. Eu não gostava de boneca e, segundo a senhora mãe, era uma menina sempre muito séria. Eu queria crescer e ser mocinha logo. Burra.

Minha vó favorita sempre me dava livros de presente. A melhor coisa que ela me deixou nessa vida foi a coleção completa da obra infantil do Lobato, encadernado em couro cor de vinho, com ilustrações originais. E eu li muitos contos de fada, tantos quanto era possível e isso servia de combustível pra historinhas que eu gostava de inventar. Depois fazia o teatrinho com os Legos e tals. Isso era a segunda coisa mais legal da minha vida. A primeira era ver o Sítio do Picapau Amarelo na TV. Foi daí que eu tirei o título desse post. Uma música do Chico que fazia parte da trilha sonora do Sítio, cantada – se não me engano – pelo MPB4 (alguém se lembra deles?). Essa semana, eu cantei essa música o tempo todo. Dentro da minha cabeça e baixinho, nos ônibus, na sala dos professores. Acho o ritmo vibrante, sincopado, a letra cheia de nomes de pássaros e tantos que você até pode ouvi-los cantando.

Daí que a música me lembrou de um tio que morava numa casa em Santa Teresa; casa essa por onde passava uma nascente e onde ele construiu um enorme viveiro cheio de pássaros. Tinha uma árvore no meio do viveiro e um riachinho que passava por dentro também. Esse meu tio se chamava Edalmo, e foi por muitos anos dono de uma única farmácia no bairro, se não me engano a farmácia Aurora. Diziam que ele ficou famoso naquela área porque as mulheres dos ‘donos do morro’ chegavam lá sem dinheiro pro remédio e ele dava assim mesmo. Não sei se por medo ou por dó.

Enfim. O tio Edalmo morreu esse ano, o viveiro de pássaros não existe faz tempo, a casa de Santa Teresa ficou perigosa por conta dos tiroteiros no morro e esse post já tem ‘eu me lembro’ demais. Melhor ouvir a música mais uma vez e ir pra cama. Mas hoje, se pudesse escolher,  juro que queria dormir e sonhar com a minha casa da infância no subúrbio, com meu balanço e as historinhas que eu inventava. Necessariamente nessa ordem.

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6 Comments

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6 responses to “Passaredo

  1. arthur

    Nossa, ficou melancólico mas muito bonito este teu post. Gostei muito.

  2. monica

    Nossa, a cronista tá demais hoje!

    Bjs,
    Mônica

  3. Pô Cris, acabou comigo. Eu evito ouvir essa música porque traz “eu me lembros” demais. Adorei saber desse pedacinho de tua história. Bjk.

  4. Edu

    Bom, que muitos passarinhos acompanhem o seu dia, todos os dias, pra te fazer cantar e voar gostoso.

  5. Engraçado você dizer que aos vinte nem lembrava desses detalhes da infância. Acho que eu nasci velha. Lembro de quase tudo da minha infância. E tenho 20 anos, né… mas eu sempre fui nostalgica.
    Acho que desde que eu nasci. Talvez desde que a minha irmã nasceu… começou a nostalgia de ser filha única. Daí foi pra tudo que vem antes do que veio depois. rs

    Pode ser o tempo mesmo, mas acho que é mais saudade, viu?

    Beijo e espero que tenha esses sonhos sim. Mas quando você menos esperar! São os melhores. 🙂

  6. PD

    Lembranças… Você já se deu conta de que a memória é mais uma reconstituição do que um resgate de eventos passados? Um mesmo fato pode ser lembrado de várias maneiras. Seria um jogo?

    ps: adoro quando você vai “lá”.

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