De repente

SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinícius de Moraes

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Eu sei que esse é o soneto mais batido da história da literatura Mas eu também não conheço ninguém melhor pra falar de separação do que ele. Não me interessa o que críticos literários e supostos entendidos venham me dizer sobre a obra dele. Pra mim esse é o texto que melhor condensa o que eu sinto sobre o assunto. Não é uma tristeza dramática – porque essa é espalhafatosa e superficial. A tristeza da separação é algo mais contido. Algo que te puxa pra realidade – e a gente sabe que realidade é coisa feia, fria e sujinha. É assim, o fim do sonho; é acordar e se dar conta de que aquela felicidade foi toda construída em cima de nuvens. E de que a vida pode ser tão banal e sem sal quanto esse texto aqui.

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[Sendo assim, um ‘blé’ bem grande pra mim]

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8 Comments

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8 responses to “De repente

  1. Arthur

    não tenho nada contra o Vinicus, tudo bem que sou bem longe de ser um crítico literário ou entendido no assunto, na verdade não lembro de ter lido muitas coisas dele, acho que não li nenhum livro dele por exemplo. Mas quanto ao tópico do post, a realidade só será feia, fria e suja por um tempo. Nos momentos logo após a perda, depois voltamos a ver as flores, o sol e tudo o mais.

    Beijos.

  2. hum… realidade é sempre fria, sem graça. A graça não está nas flores nem no sol. Beleza do mundo habita só a nossa mente, nossas fantasias.

    Tê-las é ótimo, mas a realidade continua lá. As vezes é bom perceber a diferença acho.

  3. Arthur

    Na verdade isso é altamente dependente do ponto de vista Thanatos, do mesmo modo que vc argumenta que beleza é um conceito construído, o mesmo pode ser dito de perceber algo com “frio” ou “sem graça”. Todas as nossas percepções são criadas pela nossa mente, mesmo quando procuramos observar a percepção de outras coisas, usando maquinas para quantificar essas percepções, ainda assim o output é tratado pela nossa mente, e assim pode ser tratada como fantasia como toda as outras coisas.

    O que quero dizer é que há momentos que vemos o mundo sombrio e outros ensolarado, e em todos esses momentos é uma interpretação, uma modelização, ou como vc disse uma fantasia nossa dos inputs que o mundo externo nos dão.

  4. verdade. troca o frio e sem graça por sem sentido então.

  5. monica

    É Cris, e a realidade feia, fria e sujinha fica bela e aquecida no poema, cuméquipode?
    Bjs,
    Mônica

  6. Não há nenhuma separação boa ou cômoda… Especialmente se o motivo dela não é fim do amor.

  7. Nem ligo, acho lindo.
    E misturo tudo e digo que é porque “não estavam distraídos”.

    Beijo, Cris! :*

  8. pois é, cajuba. no meu caso, não é mesmo. bj

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