Ecos de 89

Ontem eu fui encontrar um amigo que não via desde 1989. Ele estava de passagem por aqui e me chamou pra um café. Na verdade, seria uma coisa banal, não fosse ele a pessoa que é. Pela importância que teve na minha vida, eu posso dizer que o encontro de ontem vai ser lembrado ainda por muito tempo.

Em muitas coisas nós dois mudamos bastante, claro. Eu já não sou uma menina – embora me ache muito melhor hoje em quase tudo do que há vinte anos atrás, isso falo com toda certeza, sem pestanejar. Ele também mudou em relação a várias coisas, aparência principalmente. É o que mais chama a atenção quando duas pessoas que não se vêem há tanto tempo se reencontram. Acumulamos gordurinhas em muitas partes do corpo (ele mais do que eu), os cabelos dele estão bem grisalhos (os meus primeiros fios brancos começaram a aparecer esse ano, coisa leve, que ainda não me faz pensar em tintura ou coisa parecida), ele usa óculos o tempo inteiro (eu uso só pra ler e quando estou no computador); enfim, essas pequenas agruras que já são bem de se esperar com o passar do tempo.

No entanto, para além desses pequenos desfavores que a idade nos faz, notei que, de resto, ele continua o mesmo. Tem o mesmo tom de voz macio e profundo que tanto me encantava e a mesma risada calma; um jeito de explicar detalhes importantes com uma paciência e clareza que me deixavam quase hipnotizada. Não por acaso, ele foi a primeira pessoa a me despertar para a filosofia. As aulas dele sempre foram melhores do que as de quaisquer outras pessoas e, quando penso no quanto me interessei pelo assunto muitos anos depois, penso que ele teve um papel determinante nas minhas escolhas.

Nesses vinte anos, eu o perdi e reencontrei por diversas vezes, mas foi graças à internet e à minha infinita curiosidade e vontade de tê-lo novamente entre os meus amigos que me fizeram empreender buscas e superar vergonhas. Afinal, pra uma mocinha de 18 anos, um professor carismático será sempre inesquecível, mas o contrário nem sempre acontece. Por que ele lembraria de mim entre tantas alunas? E, se lembrasse, por que teria vontade de trocar idéias e telefones comigo? Bem, mas o fato é: ele lembrava e pareceu feliz da primeira vez em que nos falamos. Isso já faz algum tempo. Uns três anos, talvez. Eu ainda estava casada; ele não mais. De lá pra cá nós sempre nos ‘esbarramos’ nos vários cantos dessa rede imensa. Orkut, Twitter, Google, meus blogs, o site pessoal dele. Para mim não foi difícil encontrá-lo porque ele se tornou uma espécie de ‘celebridade’ no meio onde trabalha. Escreve pra jornais, tem livros publicados, trabalhou para algumas organizações. Nada disso me surpreeende, sempre tive certeza de que ele não seria mais um entre tantos.

Lembro-me que logo assim que ele se mudou da minha cidade foi morar fora, em outro país, e nós trocamos algumas cartas apaixonadas, todas perdidas nas minhas inúmeras mudanças, infelizmente. Tem também a história do vinil do Beto Guedes, onde ele fez uma dedicatória mais ou menos assim (aham): “Para Cris, porque o amor não conhece fronteiras”. Eu achava lindo e tão lindo achava que despertei os ciúmes do meu primeiro marido, o qual não hesitou em rasgar – é, eu disse rasgar – a contracapa do disco onde estavam gravadas as palavras da discórdia. Fosse hoje e ele teria arrumado a mala naquele mesmo dia, mas, naquele momento, eu estava muito fraquinha pra esboçar qualquer reação (quando digo que estou muito melhor hoje não é à toa).

Em 89 éramos bem diferentes, não só eu, mas o Brasil, o mundo, a vida que nós levávamos. Collor acabava de ser eleito, para a minha frustração e de tantos outros que tinham – como eu – apostado alto num sonho. George Bush-pai era o presidente estadunidense e um estudante chinês maluco resolveu que podia parar tanques do exército ficando na frente deles. O muro de Berlim caía, Harry e Sally davam as caras no cinema e eu morava com mais duas amigas, desde que tinha resolvido sair da casinha de papai e mamãe. Havia uma turma animada de amigos e as festas na minha casa eram de arromba. Muitas vezes eu acordei e tinha um casal desconhecido dormindo na minha cama, mas isso era só um detalhe.

O dado mais importante daquele ano é que, numa tarde de outubro, eu saí de casa vestindo uma bermuda listradinha, uma camiseta preta e atravessei a baía pra ir almoçar com meu ex-professor. No dia seguinte, eu me despedia dele na calçada do hotel onde ele estava hospedado, uma despedida carinhosa, com um beijo ali mesmo na calçada, e depois disso nunca mais o vi até o dia de ontem. Ontem, antes de ele entrar no táxi – e eu, de novo, usava uma camiseta preta – foi a mesma despedida carinhosa, um abraço longo, um selinho desengonçado que ele me deu, até me beijar assim, meio que de repente. “Você não mudou nada. Nós não mudamos nada!”, eu disse.

E era a mais pura verdade.

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16 Comments

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16 responses to “Ecos de 89

  1. lu

    que história bacana.

  2. Edu

    Noooossa… fiquei morrendo de tesão aqui! Verdade! 🙂

  3. cris…
    me botasse pra pensar com essa história..
    em tantas coisas que acontecem e significam.
    é de sentimentos que ainda não me cabem, não entendo. Me intriga.
    Depois eu pergunto mais e tento fazer sentido das coisas.

  4. Lindo texto e invejinha de manter um amigo por tanto tempo. Os meus reencontros com colegas dessa época não foram os melhores.

  5. Ju

    Essa é a parte bonita que ficou da história contada. Parabens!

  6. Arthur

    Agora é soh não demorar outros 20 anos para marcar um novo encontro, certo?

  7. como assim?
    hahahaha.
    quero detalhes.

  8. madoka

    Cris,
    Que linda História. Vale a pena viver, os anos, pra ter hoje essa experiência e contar. Nossa, inda mais com trilha do Beto Guedes. Lindo mesmo e parabéns.
    bjs
    madoka

  9. É tão bom reencontrar pessoas foram/são importantes na nossa vida. 🙂 Recarrega as baterias, vai dizer… rs

    Lembrar do passado, nem sempre é ruim, porque, como você mesma disse, pode perceber o quanto mudou (pra melhor) e que o tempo cura as coisas mesmo… você diz que não mudaram nada… bem, acho que não mudaram o que não precisava mudar, né? 🙂

    Beijo, Cris! E que muitos reencontros felizes apareçam pela frente.

  10. vou começar de trás pra frente.

    stella: você está certa, a idéia é essa. a gente mudou em muitas coisas, mas digamos que a ‘essência’ continua a mesma. no fundo eu sempre fui isso que sou hoje, só que eu não sabia. o que eu sou estava esmagado por camadas e mais camadas de entulho que eu tive o trabalho de tirar durante esses anos. então essa sou eu, a que eu sempre fui, numa versão muito melhor do que a do passado. será que compliquei muito? 🙂

    sim, queridos, é uma linda história. eu me orgulho de ter histórias bonitas na minha vida pra contar. tem muita coisa feia, mas eu encontrei tanta gente bacana também. a prova disso tá aí.

    thur: eu acho que não vai demorar tanto assim pra sair outro café, não.

    madoka: o vinil era duplo, sabe. um de capa rosa bem forte, com todas aquelas músicas maravilhosas: ‘amor de índio’, ‘a página do relâmpago elétrico’, ‘lumiar’ e etc. eu tinha ido a um show do beto no parque lage – o primeiro show do beto da minha vida – e logo depois ele me deu o disco. e tinha essa dedicatória linda que o idiota do meu éks [que se éks prestasse, não seria éks, num é mesmo?] rasgou. que besta, né. achou que tava destruindo as palavras, quando na verdade ele só reforçou o que tava ali. hehe.

    bjs, cambada

  11. existem pessoas q de mansinho marcam presença né?
    bjs

  12. A Casa Di Minas está de portas abertas. Lá você vai encontrar receitinhas da deliciosa comida mineira, vai ver dicas de lugares incríveis nas belas montanhas e vai também poder comprar lindos teares feitos pelas mãos habilidosas das artesãs mineiras.
    Venha nos visitar!!!!

  13. PD

    Seu jeito carinhoso de contar é super envolvente. Li quase sem respirar.

  14. Su

    Ai, Cris… concordo com o PD. Li sem piscar… que texto lindo, bem escrito, que “vida real”… lindo mesmo. Continuas escrevendo bem como nunca!
    Beijos, querida. E tava morrendo de saudades daqui. Mas aos pouquinhos vou voltando e matando as saudades… 😉

  15. eu só procrastino bem, su. apenas e tão somente. bjs!

  16. Pingback: Odeio rom-coms; amo “Harry e Sally” « Quitanda

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