A Índia que Glória Perez não conhece

Há algum tempo atrás [muito tempo, pra ser sincera] eu fazia parte de um grupo de leitura. Era um grupo singular e divertido e – por alguma razão misteriosa – formado só por mulheres. Um clube da luluzinha literário. Não era de caso pensado, isso. Mas é fato que, onde nós todas trabalhávamos, a esmagadora maioria era de mulheres, daí o clubinho. O nome era Mulheres de Nietzsche. Acho que alguém sugeriu o nome por achar o bigodudo um tesão; porém, acredito, um texto que eu levei certa vez – “Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral” – pesou um pouco na escolha. [Por favor, Moniquinha, me corrija se eu estiver errada]

E o que liam as Mulheres de Nietzsche? Basicamente literatura de língua inglesa moderna/contemporânea, escrita, na sua maioria,  por mulheres. [Aqui uma observação: favor não chamar esse tipo de texto de ‘literatura feminina’, se não quiser despertar a ira de blogueiros conhecidos e a urticária dessa que vos escreve]. Os critérios para a seleção dos textos variavam muito, mas, em geral, prevaleciam coisas que as meninas gostavam de ler e queriam compartilhar. Simples assim. Lemos muitos contos – e foi pela mão das Mulheres que eu tomei contato com vários autores fantásticos e interessantes. Por exemplo, Kate Chopin [“A pair of silk stockings”], Gloria Sawai [autora do conto com o título mais legal eva: “The day I sat with Jesus on the sun deck and a wind came up and blew my kimono open and He saw my breasts” , Joyce Carol Oats [“Where are you going, where have you been“] e ela, a que mais me impressionou e até hoje a que eu recomendo sem pestanejar: Jhumpa Lahiri. Essa é uma autora nascida em Londres, criada nos EUA, cuja família possui raízes na Índia.

Praticamente todos os meus alunos de graduação tomaram contato com Jhumpa quando eu ensinava Academic English: eu sempre sugeria que eles começassem a aventura de escrever um pequeno essay em estilo mais formal partindo da leitura de “A temporary matter“, conto que abre o livro “Interpreter of Maladies“, com o qual a autora ganhou um pulitzer em 2000. O conto narra, basicamente, a vida de um casal durante uma semana na qual são informados que haverá interrupção no fornecimento de luz todos os dias à noite. E é nessa semana, numa atmosfera de penumbra, que os dois refazem o percurso de suas vidas e de seu casamento, que revelam um ao outro dores e segredos que nunca imaginaram que o outro possuísse. O conto é belo pela tristeza e melancolia que carrega – e sempre me dá um nó na garganta ao lê-lo. Procurando na pasta do computador onde arquivei os textos sobre o conto, encontrei o seguinte, infelizmente sem link:

The world that Jhumpa Lahiri creates in “A Temporary Matter” is one in which women are in charge.

Women act; men react. This state of affairs is a reversal of traditional gender roles in India, the country from which both Shoba’ s and Shukumar’ s parents emigrated, and theUnited States. This role reversal gives the story a strongly modern feel.

Both the author and the critics who analyze her work categorize Lahiri along with other female Indian American writers whose work deals with the cultural conflicts faced by immigrants and their children. But Lahiri’s stories in general, and this one in particular, do not seem to grapple with cultural issues as much as with gender issues.”

Espalhados pelo livro, os personagens de Jhumpa são indianos – ou descendentes deles – em conflito, tentando adaptar-se a uma cultura nova, lutando para não perderem suas raízes e sua identidade. Ela retrata a angústia, a dificuldade de pertencimento a um determinado grupo [na verdade, alguns já não pertencem à Índia, mas também não se sentem membros do novo grupo ao qual se juntaram]. Enfim, quem se interessa por questões de gênero na literatura, ou relacionadas aos estudos culturais, com certeza, achará bom material na obra dessa autora. Agora, quem procurar seu livro [o qual, aliás, tem edição em português] buscando o exotismo carregado pelas tintas da autora global ou de Bollywood, vai dar com os burros n’água. Ficadica.

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7 responses to “A Índia que Glória Perez não conhece

  1. Ótima dica, vou atrás. Aliás, será que as demais citadas também foram traduzidas? Vou pesquisar. Meu inglês só serve pra assistir séries sem perder (muito) das piadas náo-traduzidas.

  2. tina, mas se você consegue entender o humor de ‘house’ e ‘seinfeld’ consegue ler essas autoras aí, oras. modéstia pouca é bobagem 😉

  3. Adorei as dicas! 🙂
    Sabe se os livros dela vendem em livrarias comuns ou é só em sebos mesmo? :/ (perguntando por causa do link da estante virtual). Ri muito com o título do conto da Gloria Sawai! rs

    Beijos!!

  4. Obrigada again, Cris, tentarei.

    Beijo

  5. Lembrei d’umas aulas com uma certa professora de all star…
    Ótimo texto, moça. Inteligente, direto ao ponto e sem aquele mimimi todo dos teóricos da conspiração.

  6. stella, não sei se os livros vendem em livrarias, talvez você ache no submarino, por ex.

    marie, não tem de quê!

    bruno, e eu lembro do meu pavor quando vi aquela turma com ar totalmente blasé e eu ensinando fonética pela primeira vez na vida. mas valeu. depois daquilo podem me atirar aos leões, hahahaha. bjs!

  7. monica

    Oi Cris,

    que bom vc ter mencionado o Mulheres de nietzsche, e algumas das leituras também. Sensação boa esta que vc trouxe pras minhas lembranças.
    Bjs,
    Mônica

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