Complementando…

… o post aí debaixo [e também porque já são 11:10 da matina e eu tô aqui escrevendo abobrinha, em vez de caçar algo produtivo pra fazer. Enfim]. Lembrei de outro conto que me deixou assim, meio com cara de paspalha, meio de boca aberta. Sabe essas coisas que a gente lê e que caem como uma pedra na cabeça? [o Alex diria, certamente, se lesse essa minha metáfora, que isso é uma baita idiotice. Que uma pedra na cabeça não é algo bom, logo um livro que lhe cai como uma pedra na cabeça também não pode sê-lo. Da mesma forma que se é como um soco no estômago não pode ser bom. Mas deixemos o Alex de lado e voltemos à minha pedrada].

Então. Era minha última noite em Porto Alegre e a muié resolve – depois de horas de conversas sobre as nossas existências ínfimas e do absurdo delas – me dar um livro pra ler. “Lê só esses dois contos. Tu vais ver que beleza”. Não foi exatamente isso que ela me disse, mas imaginemos que seja [Hugaia Hassan tem um texto no qual ela fala sobre ‘suspension of disbelief’ que é basicamente um mecanismo que nos faz aceitar a ficção e encontrar prazer no texto. Então, por favor, acreditem que foi dessa maneira e me deixem terminar].

Eu li e fiquei do jeito que falei ali em cima, com a boca meio aberta, as palavras reverberando na minha cabeça. Eu acredito que a boa literatura seja assim. Nem sempre a gente consegue tecer considerações lógicas sobre o texto, mas, de algum modo, aquilo te remexe, machuca, ou, como diz o Caio [o Fernando Abreu], aquilo vai certeiro “na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente”.

E que contos tão terríveis eram esses? Um deles eu me lembro o nome. É “Ventre seco” e o autor é Raduan Nassar. O outro também era desse autor, mas, embora tenha gostado, não cortou tão fundo quanto esse. Talvez, quando ler esse post, dona Débora me ajude a lembrar.

Porque amigo bom precisa ser desse jeito. Te faz pensar na existência louca que tu levas, te apresenta um autor ‘leve’ desses quase à meia noite – e você tentando arrumar na mala as mil coisas que comprou na capital gaúcha –  e te ensina como lápis de olho marrom e sombra chocolate Duda Molinos te transformam numa nova mulher. Não é fácil encontrar amigos assim; por isso tenho tão poucos deles.

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11 Comments

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11 responses to “Complementando…

  1. (o outro era sobre um homem que levanta no meio do expediente, faz cara de doido/maluco e sai, como se nada fosse nada, porque estava entediado com o trabalho e precisava ir pra casa deitar na rede. lembrou? ele vai explicando as feições/caretas que precisam ser feitas para que ninguém tenha como te chamar de volta ao escritório. hahahahaha. eu amo e entendo. hahahahaha).
    *
    *
    sobre o resto, que se é resto é resto e só resto, a vida é isso que a gente quer e eu, e espero muito do fundo meu coração que tu também, não estou muito aí “pras” respostas, coisas ditas certas e socialmente estipuladas, uniformes didáticos de conduta adulta e responsável, embasados na experiência e no sofrimento que já se teve…quero mais é que se dane, porque o importante é: além de um bom vestido, paciência e um creme que nos dê viço, ter quem abraçar. simples assim.

  2. Etamos sempre expostos aos encontros que poderão ser tão espetaculares quanto apáticos.
    Cadnho RoCo

  3. débora, sim, agora estou lembrando do outro, mas nem de longe tem o impacto desse aí. agora, quanto ao que você disse no final: “o importante é: além de um bom vestido, paciência e um creme que nos dê viço, ter quem abraçar.” isso eu já tenho. todos 3. porque, pra abraçar, o mais importante são aqueles que estão bem próximos, né? filho, mãe, pai, irmãos, amigos. eu tenho muita sorte nessa vida. mesmo. bjs, querida.

  4. aí é que é me refiro, colega.
    claro que tens.
    uuuuuuuuuuuuuuou.

  5. madoka

    Então, minha amiga da blogosfera, Laura do ´Caminhar´é amiga dele. E ela fala que o RN é o maior escritor brasileiro do nosso tempo. Parece que ele escreveu poucos livros né, e não quer mais escrever. Pena.
    Vi o filme Lavoura Arcaica, e é lindo, vc viu? Tenho o livro lá em casa no Brasil, que raiva, não trouxe.
    Será que o outro conto não seria o `Hoje de madrugada´´? parece que o Chico Buarque, num ciclo de leituras, ele lendo RN e vice-versa quase chorou lendo este conto.
    Bom, e vc cita Caio F Abreu, nossa menina, adoro esse cara, muito, livros autografados dele tenho. Ele é lindo, muito né.
    Vc tá sabendo que Paula Dip, tá lançando livro hoje, lá em SP, sobre o Caio? Se souber me fale, rs.
    Madoka

  6. oi, madoka. vi ‘lavoura arcaica’ e ‘um copo de cólera’. confesso que queria ver de novo, os dois. eu também amo o caio e tenho amado mais ainda nesse momento da minha vida. lindo demais da conta ele. e não sabia desse livro, mas agora que você falou eu vou fuçar. obrigada, querida [e vc, não tem blog?]. bj

  7. Já que you know who I am, posso comentar travestido de alterego.
    Já senti isso várias vezes. Ontem mesmo, abri o livro dos abraços e reli um conto curtinho n’O livro dos Abraços. As palavras do Caio descrevem, quase à perfeição, as emoções todas que “cairam sobre minha cabeça como uma pedra”.

  8. oi, zé. seus alteregos todos são muito bem vindos =)

    tudo o que o caio escreve, quase sempre, me deixa assim, com essa mesma sensação que você teve. bjs

  9. ele parou de escrever e foi pro mato criar galinhas.
    bem sozinho.

  10. Esses contos por acaso fazem parte daquele livro “Menina A Caminho”? Acho que ele só tem esse de contos, mas não custa nada perguntar, né? x)
    Olha, Raduan é difícil, viu? Ele trata dos mais diversos temas de uma maneira tão “atirando na sua cara” que a gente fica até meio sem saber o que fazer depois.

    Eu não sei me expressar, então desculpa. rs

    Beijos!

  11. nossa, stella, eu acho que você se expressou super-bem. bj!

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