Leituras inesquecíveis

A Tina falou de trechos inesquecíveis de alguns dos livros favoritos dela. Pena eu não ter lido nenhum da lista, mas vontade não me falta [pelo jeito, após a tese, terei leituras suficientes até fecharem meu caixão. Bom isso]. Puxando pela memória, lembrei de um livro maravilhoso, quase desconhecido do grande público, mas uma das melhores coisas da literatura brasileira, segundo um antigo professor meu [e um dos melhores que tive na universidade]: “Crônica da casa assassinada”, de Lúcio Cardoso. Revirando meu blog-defunto [O Eu profundo, agora definitivamente fechado], encontrei uma bobagem que escrevi sobre o livro em agosto de 2005:

Crônica da Casa Assassinada“, você já ouviu falar? Algum dos seus professores de literatura no segundo grau já mencionou o nome de Lúcio Cardoso? Pois eu só o conheci por obra de um professor de graduação que me apresentou o dito cujo. Graças ao José Carlos Barcelos, professor muito querido, eu li um dos melhores textos da literatura brasileira, no qual a fronteira entre prosa e poesia é muito tênue. A Revista Carcasse, ao comentar o livro, diz: “A cultura solar do Brasil, cheia de festas, alegria, otimismo, risos e fantasias também abriga uma vertente sombria, sinistra, agoniante. É neste nicho que se encontra a literatura do mineiro Lúcio Cardoso (1913-1968). Seu universo [é] atormentado, de contra-luz (…), de desespero e solidão (…)” Não é literatura para a gente ler e sair leve. É angústia no seu estado mais puro, é literatura na veia, é texto que seduz pela maestria com que é tecido. E do qual, certamente, a gente não consegue sair impune.

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PS.: Esse post tá com cara de rádio relógio: “Você sabia?”

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Então, se animaram? Não é muito fácil se entusiasmar pelo livro. “Crônica” não tem uma narração linear; vários são os narradores, cada um apresenta seu ponto de vista sobre os fatos e você só consegue – de alguma maneira – make sense sobre os fatos narrados depois que o livro termina. É a história de uma família mineira tradicional e decadente, é o relato da paixão de um filho pela mãe, tem incesto, tem angústia, morte, enfim: tem uma penca de coisas pesadíssimas que Lúcio Cardoso transforma em poesia pura em alguns momentos. Eu gosto muito; li várias vezes e, de vez em quando, pego o livro na estante só pra ter o prazer de ler meus trechos favoritos, todos devidamente marcados.

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E já que o post é sobre leituras inesquecíveis, reproduzo aqui minha lista top ten de contos inesquecíveis [ na verdade, top eleven].

1. A hora e a vez de Augusto Matraga, Guimarães Rosa.

2. A Biblioteca de Babel, Jorge Luis Borges.

3. Emma Zunz, idem.

4. A Temporary matter, Jhumpa Lahiri.

5. A pair of silk stockings, Kate Chopin.

6. A hunger artist, Kafka.

7. Where are you going, where have you been? Joyce Carol Oates.

8. Feliz aniversário, Clarice Lispector.

9. A igreja do Diabo, Machado de Assis.

10. Aqueles dois, Caio Fernando Abreu

11.  O vestido vermelho, Dalton Trevisan

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E, pra terminar de uma maneira simpática: quais são as suas leituras inesquecíveis?

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10 responses to “Leituras inesquecíveis

  1. “Memórias de Adriano”, Marguerite Yourcenar
    “A descronização de Sam Magruder”, George Gaylord Simpson
    “Lolita”, Nabokov
    “Ética prática”, Peter Singer
    “A jogadora de go”, Shan Sa (tradução ma-ra-vi-lho-sa de Adriana Lisboa)
    “Corpos em movimento”, Mary Anne Mohanraj
    “Um beijo de colombina”, Adriana Lisboa
    “Aventuras provisórias”, Cristovão Tezza
    “O livro dos desmandamentos”, Carlos Trigueiro
    “O mundo segundo Garp”, John Irving
    “Verão em Baden-Baden”, Leonid Tsípkin
    “Orientação dos gatos”, Julio Cortázar (porque só vou citar um)
    “Um espelho distante”, Barbara Tuchman
    “O visconde partido ao meio”, Italo Calvino (porque só vou citar um)
    “O nome da rosa”, Umberto Eco

    E por aí vai…

  2. Não vou fazer uma lista, apenas lembrar de obras que foram especialmente impactantes pra mim, quando as li.

    Já que você citou um conto do Borges, eu lembrei que foi um deles o que mais me impressionou: “A Casa de Asterion”.

    Tem o do Cortázar, também, “A Auto Estrada do Sul”. E uma novela do Dostoievski que é curtinha e não sei direito se é um conto: “Notas do Subsolo”.

    De romances, me lembro agora de “O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar”, do Mishima, e “Os Maias”, do Eça.

    E dos brasileiros, o conto “Pai contra Mãe”, do Machado, e, claro “Grande Sertão: Veredas”, do Rosa.

    Tem um montão que eu não estou lembrando agora, mas eu sou do tipo que fica emocionado e até chora lendo livros…

  3. meu pai. fiquei feliz por ter lido um desses e não me sentir um ignorante completo 🙂
    Porque quem perde de zero passa por debaixo da mesa, sabe?

  4. Ah, sacanagem, eu sou incapaz de fazer um top ten. Toda hora tem um diferente; minha memória não é seletiva, é emotiva. ;))

  5. ué, tina, então fala daqueles que te emocionam, oras.

    meu amigo T. você é muito, muito jovem ainda. não tome isso como demérito, pelo contrário. isso só quer dizer que você tem muito mais tempo que eu pra ler tudo o que quiser, enquanto que eu tenho que ser mais seletiva, porque as vontades são muitas, mas eu já tenho tanta coisa pra cuidar que às vezes acho que não vou conseguir.

    marcus, o cortázar sempre está em qualquer lista de melhores-ever e eu nunca li. sacrilégio. mas isso vai ser resolvido. e eu tenho inveja de quem já leu dostoievsky. acho chique no úrtimo, rs. e esse conto do borges que você mencionou – sim! – é maravilhoso.

  6. suzana, desses aí, os que eu li: ‘o nome da rosa’ e o começo de ‘ética prática’. o que estão na estante, esperando: ‘lolita’. os que eu tenho vontade de ler: o cortázar (qualquer um), ‘memórias de adriano’ e ‘um beijo de colombina’, de tanto que tu fala nele, hehe. bjs

  7. Assim, de chofre (ou xofre? sei lá):

    Mel e Girassóis – Caio Fernando Abreu
    Aqueles Dois – Caio Fernando Abreu
    A Velha – Fausto Wolf
    O Cobrador – Rubem Fonseca
    Amor – Clarisse Lispector

    Top five, que agora foi só o que lembrei.

  8. oi, marie. é ‘chofre mesmo, viu? [mas não se preocupe não]. muito bacana o teu top five. se lembrar de mais alguma coisa, conta pra gente. bjs

  9. Uia adorei isso. Os meus10 prediletos são:

    Esse Lopes – Guimarães Rosa
    Os sobreviventes – Caio Fernando Abreu
    I love my husband – Nélida Piñon
    Um general na biblioteca – Italo Calvino
    Assombração – Heloisa Seixas
    A dama do lotação – Nelson Rodrigues
    Cartografia – Cintia Moscovich
    O alienista – Machado de Assis
    Um braço de mulher – Rubem Braga
    Solitário de amor – Peri Rossi

    Amei amei seu post.
    Beijooo

  10. oh, karol. eu também adoro esse conto do caio. que bom que você gostou. bjs!

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