Olhares

Sempre gostei do Felipe Camargo. Sempre achei o trabalho dele como ator excelente e a minissérie “Som e Fúria” veio comprovar que ele nunca foi apenas um rostinho bonito. Ele tem um jeito meio sacana que eu gosto, jeito de quem não tá nem aí, mas que, na verdade, parece pensar em cada detalhe do trabalho que faz. Fiquei triste por vê-lo sumir da telinha por conta de seus problemas pessoais. Seu envolvimento com drogas e álcool fizeram com que ele protagonizasse cenas bem terríveis. Ele tem no currículo brigas com a ex-mulher [com agressões físicas, inclusive] e até uma morte por dirigir embriagado. Sinceramente, acho que quem comete crimes deve pagar por eles. Mesmo que tenha problemas com drogas ou sofra de alcoolismo. E falo isso como alguém que teve um caso desses com alguém bem próximo na família. Numa época em que viciado ia pra delegacia e respondia processo. Bem. No caso do Felipe, não sei quais foram as consequências, mas parece que ele se tratou e se desintoxicou. E se ele pagou o que devia e buscou resolver seus problemas, não vejo porque execrá-lo para sempre. Parece que a mídia entendeu assim também, tanto que ‘decidiu’ retirá-lo da geladeira.

Agora a Revista de Domingo traz uma matéria com ele mostrando um outro lado do Felipe que eu não sabia que existia. Ele é fotógrafo. E eu achei as imagens dele muito boas. Claro, não sou especialista. Fiz um cursinho de fotografia em épocas jurássicas, quando a gente ainda aprendia a revelar em papel, enfiados num quarto escuro. Então, eu sigo a intuição mesmo. Eu gostei do ‘olhar’ do Felipe. Do jeito de ver beleza em cenas meio distorcidas. A certa altura da entrevista, ele cita o documentário de Walter Carvalho, “Janela da Alma”, e fala que, para ver as coisas com mais clareza, é preciso dar a volta e olhar por outro ângulo. Algo bem simples, mas que a gente vive esquecendo de fazer. Tão simples, que um filósofo morto em 1951 disse coisa parecida:

As pessoas dizem, por vezes, que não podem fazer qualquer juízo sobre isto ou sobre aquilo porque não estudaram filosofia. Eis um disparate irritante, porque o pretexto é o de que a filosofia é uma espécie de ciência. As pessoas falam dela como poderiam falar de medicina. Por outro lado, podemos dizer que quem nunca levou a cabo uma investigação de tipo filosófico, como, por exemplo, a maior parte dos matemáticos, não se encontra equipado com os órgãos visuais adequados a este tipo de investigação ou pesquisa. Quase da mesma maneira que um homem que não está habituado a procurar flores ou amoras, ou plantas na floresta, não encontrará nenhumas porque os seus olhos não estão treinados para as ver e não sabe onde deve procurar. De modo semelhante, alguém pouco versado em filosofia passa por todos os lugares em que se encontram escondidas na relva as dificuldades, ao passo que alguém que com ela tenha contactado deter-se-á e pressentirá que há uma dificuldade ali perto, embora ainda não consiga ver.

Em filosofia, como em fotografia, como na vida, o que importa mesmo é treinar o olhar.

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12 Comments

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12 responses to “Olhares

  1. Verdade, sobre os olhares.
    quanto ao ‘perdão’ da sociedade, talvez só tenha sido possível ao saber que hoje tais atitudes são muito mais comumente ignoradas ou escondidas, e já não fazia sentido continuar crucificando alguém que não seria crucificado hoje.

    E das fotos, gostei, principalmente da 7. E também gosto das janelas na chuva, fazem sentir bem de estar dentro delas.

  2. olha, não sei se entendi muito bem esse teu ponto sobre o perdão. você acha que as pessoas hoje estão mais insensíveis e por isso ‘deixam passar’?

    eu gostei muito dos samplers com os filmes eróticos. queria ir à exposição, mas tenho impressão de que é na barra. loooooooongeeeee!

    beijos, lindão.

    😉

  3. Cris, não consigo gostar dele. Eu soube detalhes do acidente (inclusive que as vítimas apanharam dentro do carro, mesmo desacordados) porque o jovem que morreu era filho único do meu professor de português na faculdade. Fomos à missa de sétimo dia e vimos como o acidente devastou a família. Até o fim da faculdade a vontade que tínhamos era de dizer algo, fazer algo que terminasse com aquele sofrimento.

  4. eu gosto dele e adoro foto. rs
    bjs

  5. “Em filosofia, como em fotografia, como na vida, o que importa mesmo é treinar o olhar.”
    *
    *
    essa é a minha crisolda.

  6. ah, que bom então! somos duas 🙂

  7. olha, su, eu te entendo. talvez se eu tivesse uma relação pessoal com alguém que tivesse passado por algo assim também não gostaria de quem provocou o incidente. mas ele pra mim é só um ator que eu considero muito bom. acho que, como pessoa, é todo errado, mas também acho que ele vem tentando trabalhar em cima desses problemas. porque não tem nada que me irrite mais na vida do que complexo de gabriela, sabe. a pessoa que diz ‘eu nasci assim eu cresci assim eu sou mesmo assim vou ser sempre assim”. afe, aí não dá. bjs

  8. Ronzi Zacchi

    Cris!!!!! Que bom que achei teu blog de novo, rs!!! Não conhecia o trabalho dele como fotógrafo até hoje. Vou bisoiar.

    Saudades (vc me deve uma visita, ein?)

  9. devo sim, ronzi. e vou pagar. acho que em outubro, que é quando a débora [do filhas] vai pra sumpaulo também. vamos fazer uma bagunça juntos? 😉 bjs

  10. é, acho que é mais ou menos assim. Como vc falou, numa época que quem era viciado ia pra delegacia, respondia processo. Onde acidentes com motoristas bêbados eram incomuns, e homens batendo em suas mulheres eram ou desconhecidos (pq ninguém sabia) ou covardes, pela frase que todo mundo aprendia na escola, que “em mulher não se bate nem com uma rosa”.

    Acho que antigamente a culpa durava mais tempo, mas era mais fácil fugir dela. Mudar de cidade, de estado, de país, resolvia seu problema. Hoje essas histórias tem o potencial de te acompanharem pela vida toda, onde quer que vc vá, então as pessoas se obrigam a ficar mais tolerantes, afinal, elas mesmas talvez precisem recorrer ao perdão algum dia.

  11. ah, entendi sim. e acho que faz muito sentido no que tu disse, lindo. [adoro quando você comenta coisas assim, adoro]. bjs

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