Falas de Lula

Em primeiro lugar, é preciso que eu diga. Não obstante minha opinião sobre o governo, como professora e pesquisadora da área de linguística, sempre achei de péssimo gosto as piadinhas sobre a capacidade intelectual do presidente. Sempre vi essas expressões de preconceito explícito como um atestado de ignorância por parte daqueles que as emitiam. Claro que essas opiniões são a expressão daquilo que o senso comum tem de pior em matéria de preconceito linguístico. Segundo esse mesmo senso comum, existe – sim – uma língua ‘ideal’, na melhor versão do essencialismo platônico. Uma língua ‘pura’, acabada, reificada e inacessível. A nós, pobres mortais, só nos resta o esforço máximo de tentar ‘capturá-la’. Claro que esse é um esforço que ‘valoriza’ aquele que empreende a busca. Sendo assim, a língua se transforma em prêmio, em valor máximo. Quem consegue aproximar-se de sua forma mais perfeita e acabada, transforma-se em vencedor. Aquele que não possui o mesmo mérito é relegado à vala comum. E vai, obviamente, transformar-se em motivo de piadinhas.

O que é esquecido, nesse caso, e a Linguística enfatiza, é que a língua em sua versão mais culta é apenas e tão somente isso: uma variante, uma versão. Existem outras, claro, e nenhuma delas deveria ser colocada em posição superior, pois nenhuma delas ‘comunica’ melhor do que a outra. A língua é o que fazemos dela. Ela é, inclusive, e acima de tudo, instrumento político, usada para dominar e oprimir. A língua é, como outras instituições humanas, depositária de crenças, valores, preconceitos. Quando alunos vêm me dizer que acham o inglês mais fácil, que português é difícil, que nossa língua é mais ‘rica’ e etc, etc, eu tomo isso apenas como opiniões e nada mais. É difícil convencê-los de que algo, para ser afirmado com tanta certeza, precisa ser pesquisado. É necessário que haja um ‘corpus’, uma coleção de textos, e que desse corpus consiga se ‘extrair’ alguma informação que dê respaldo a tais afirmações [eu mesma não acredito nisso de ‘extrair’ nada de corpus algum. Não acredito na separação sujeito/objeto. Os dados são construídos por aquele que pesquisa, mas isso é coisa muito específica, então, vamos esquecer]. Bem, tudo isso para dizer que nada dessas coisas que andam por aí nas bocas de todos pode ser comprovada. O que sabemos da língua é isso: que não se pode abarcá-la. Que não existem versões ‘melhores’, tecnicamente falando; apenas versões mais valorizadas, dependendo do grupo que dela faz uso. Claro que nada disso é levado em conta quando se trata de malhar a variante usada por Lula.

Parece que alguém interessado nesse assunto – alguém de fora da academia, um jornalista – resolveu se embrenhar nessa seara espinhenta. E – pasmem – quem fez isso foi o Ali Kamel, jornalista de O Globo, famoso por afirmar que no Brasil não existe preconceito racial [ele deve achar, da mesma forma, que preconceito linguístico é fantasia de estudiosos loucos]. As conclusões do livro de Kamel estão resumidas aqui, num artigo do professor Sirio Possenti. Não li o livro, claro, mas a resenha do professor Possenti dá a entender que as conclusões do Kamel surpreendem. Não a  mim, nem a outras pessoas da área, mas acho que vai deixar a mídia em polvorosa. Afinal, de que irão se alimentar as piadinhas agora, hein? Melhor arrumar outro vetor. Porque esse aí, minha gente, já deu.

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Sobre preconceito linguístico, melhor livro que já li foi esse, do professor Marcos Bagno, da UNB. Ele também tem um site muito interessante.

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A autora desse post é professora, quase doutora e comete – oh, heresia! – ‘erros’ de português, vez por outra, assim como qualquer pessoa normal. Reclamações e cartas diretamente para a Academia Brasileira de Letras. Ou então #mandemmeprender.

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21 Comments

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21 responses to “Falas de Lula

  1. Nunca achei que o Lula cometesse tantos erros assim. Na verdade, eu sempre prestei atenção na fala de quem criticava o português do Lula, so pra achar errinhos de gramatica. Cansei de ouvir meus professores, la na USP mesmo, cometendo erros gramaticais, alguns bem feios. Mas é como vc disse, é preconceito mesmo, o povo fica la esperando o menor deslize do Lula pra cair matando.
    Beijos

  2. Cris, te mandei uma musiquinha legal sobre isso. Bjobjo

  3. Edu

    Mau tem que me perdoar, mas olha a carinha do Lulinha de linguinha de fora, no tal site do Sirio. Que delícia de ursinho – eu pegava fácil!

  4. hahahahahaaha, tata, achei que só eu fizesse isso [de vigiar quem critica o português alheio]. na boa, quem critica tem a obrigação de cometer erro-zero. já dei aulas de português, hoje não dou mais. acho que a língua é um bem cultural e todos devem ter acesso à variante culta. mas acho absurdo querer ‘domesticar’ a fala dos alunos ou de quem quer que seja. as pessoas devem saber ser poliglotas na sua própria língua, devem ter noção de adequação ao contexto. só isso. e esse povo aí que fica apontando erro dos outros é tão, mas tão ridículo. é igual socialite reparando na roupa dos outros. bjs!

  5. hahahahaha, edu, acho que o mau não fica chateado não [olha, meu aniversário em sp vai ser em outubro, na semana do feriado quero vcs lá]. bjs!

  6. Haline, adorei a musiquinha, a batida é bem legal. eu teria coisas a dizer sobre a letra, mas, enfim, é uma música, né. não uma tese de doutorado 😛 bjs

  7. PD

    Vim por causa da língua.
    “A nós, pobres mortais, só nos resta o esforço máximo de tentar ‘capturá-la’”.
    Eu sou um deles, um pobre mortal empenhado em capturar a língua, pois deixar a língua solta é um perigo.
    “Não acredito na separação sujeito/objeto.”
    Nem eu! Tem sujeito que não larga o objeto nem fodendo.
    Ah! Eu penso exatamente como você, no que se refere ao Lula. E o seu texto “bourdieuniano” tá bom demais. Sou seu macaco de auditório, doutora.

  8. e eu pago pau pra vc, sabia, moço? muito mesmo, rs. que bom que você gostou do texto. isso quer dizer mais assunto pra gente conversar. bjs

  9. LU

    Oi Cris, obrigada pela sua visita no meu post e também pelo comentário. Ai tomei a liberdade de te visitar…hehe
    Bom…tenho um certo receio de comentar sobre um assunto que eu não tenha muita intimidade, mas gostaria de dar minha singela opinião.
    Não me assustam os erros gramaticais do nosso Presidente.
    O que realmente me assusta é a dificuldade de concatenar idéias complexas e usar as mais simplórias metáforas para conseguir se expressar.
    Acho que esse comentar sem fim dos “erros gramaticais”, de quem, que por ser da real história educacional brasileira, chegou aonde está, é apenas uma cortina de fumaça.
    Tenho pena de todos nós.
    Beijo
    LU

  10. oi, lu. obrigada pelo seu comentário, mas infelizmente, devo discordar de você. não sei se você leu a notícia que linkei, mas ela está diretamente relacionada ao que você disse. ela dá conta de que houve uma pesquisa – pesquisa essa feita por um jornalista que não faz parte do governo, muito pelo contrário – e que, segundo a mesma, lula não é absolutamente esse ser desprovido de habilidades linguísticas que o senso comum gostaria de supor. logo, também não é verdade que ele tenha dificuldades em se expressar. olha, de metáforas eu posso falar. fiz uma pesquisa sobre elas no mestrado e conclui que o discurso da ciência – no caso artigos de química, que fizeram parte do meu corpus – está repleto de metáforas. portanto, não é privilégio de mentes ‘simplórias’ fazer uso das mesmas. eu, pessoalmente, acho que o lula é inteligentíssimo. e falo isso como quem não toma parte em política partidária nem se beneficia dela. sei que a educação brasileira está coalhada de problemas, mas sei também que há iniciativas muito boas e colégios públicos muito bons – o lugar onde trabalho é prova disso. penso também que a trajetória do lula, ao contrário do que você disse, só vem me dar esperanças, em vez de desilusões. ela mostra, acima de tudo, que educação acadêmica não é remédio para tudo; que alguém pode não ser doutor e tomar parte nos debates mais centrais da sociedade; e, finalmente, que diploma superior – e lembre-se que não ter diploma superior não quer dizer nenhum diploma, o presidente tem uma formação técnica – não é sinônimo de inteligência nem é o único saber válido. desculpe a réplica tão longa. não costumo fazer isso, mas é que dessa vez estou ‘na minha praia’, rs. bjs!

  11. LU

    sim…andei por caminhos não conhecidos…hehe..realmente não li o link.
    Entendo sua posição.
    Mas também não defendo a posição estática de que apenas uma formação superior é capacitante.
    Não duvido da inteligencia dele. Mas, pessoalmente, o que chamo de “simplório”, no caso as comparações sobre determinados assuntos que julgo importantes, é que sinto um certo desprezo…veja, devo tomar cuidado ao me expressar agora, mas um certo desprezo do ponto de vista, digamos, de como se fazer entender, para quem tem “estudou”…talvez melhor um exemplo…como simplificar situações de gravidade, e já pisando novamente no meu caminho…como a pandemia da gripe H1N1. Não tenho qualquer envolvimento político, nem interesse….estou na outra ponta…e sim, achei que foram metáforas simplorias demais para uma situação que demandava um pouco mais de elaboração.
    Não acho que metáforas sejam simplórias – lato senso-, ..muito pelo contrario…e sei o quanto são presentes na ciência, na literatura…
    Falo mesmo das comparações simplificadas..como “marolinha”, ou re-leituras de ditados populares.
    Isso acho bem complicado.
    Beijo
    LU

  12. é que eu acho que ele, ao contrário do nosso ‘príncipe dos sociólogos, fala para o ‘povão’. esse é o interlocutor que o lula escolheu para dirigir sua fala, em primeiro lugar. eu entendo sua posição, mas acho que ele tem essa capacidade de ‘trocar em miúdos’ coisas que são difíceis. e não digo nem que ele não ‘simplifique’ demais certas coisas. decerto, pois ele não é especialista em tudo. é que eu acho que isso foge um pouco ao assunto que eu abordei. é um pouco sobre a correlação direta entre ‘fala-pensamento’ que a minha crítica principal incide. e esse é um debate que já dura séculos e que não vai ser resolvido nunca. obrigada pelo seu interesse, lu. beijos!!

  13. Arthur

    Metendo o bedelho em conversa alheia. O problema para mim é o dois pesos e duas medidas, O FHC, professor da USP, era uma maquina de gafes também, mas nem por isso desmerecemos a inteligência dele, o Serra soltou uma gafe horrível em relação a gripe (http://www.youtube.com/watch?v=_z97MhLvWsI), mas parece que não deram muito bola. Não gosto de muita coisa do governo Lula, não voto mais nele desde a ultima eleição, mas acredito que essa ferramenta de o desmerecer é feita pela nossa “oposição” muito mais suja que ele, e muitos de nos caímos nesta bobagem.

  14. é, thur. eu acho que você levantou um ponto relevante. é isso aí mesmo. beijos, querido!

  15. Estudei e li muito os livros do Marcos Bagno. Até me aventurei numa pesquisa nessa área. Aprendi muito e posso dizer que me chateia esse preconceito com o Lula ou com qualquer outra pessoa que seja.
    bjos Cris!

  16. CRIS!!!! So???? Sobreviveu amore????

  17. Hoje em dia já não posso dar pitaco na política ou políticos do Brasil, depois de tanto tempo longe da Terra Brazilis qualquer comentário seria sem muito fundamento, mas no meu ponto de vista o problema é exatamente esse que você tocou em um dos comentários. Como se conectar com um povo que na sua maioria não recebe uma educação elitista que os piadistas de plantão receberam? Pra falar a verdade quem faz piada não quer ser levado a sério e às vezes nem acredita no que está falando, é meio o lance de “perde o amigo mas não perde a piada” sabe? Mesmo assim acabamos aceitando a piada como “tendo um fundo de verdade” e acreditando que Lula não seja inteligente o suficiente pra ser presidente, mas isso já é uma contradição! Se não fôsse, como teria sido eleito?…

  18. Paulo Z

    Eu chamaria a sua atenção para o fato de que as críticas ao modo de falar não são importantes (hoje, nem foram no passado) por não visar a crítica ao conteúdo. Hoje este ponto está totalmente superado e o presidente faz blague sobre este assunto e tira partido disto. Saudações.

  19. Reilla

    Amada,

    Primeiro: amei papear com você hoje e tive que correr pra conhecer seu novo canto.

    Quanto ao assunto do post tenho uma única consideração a fazer: quem já viu o Lula conversando com literatos, gentes da elite, especialistas mis, outros “jefes” de Estado etc, sabe muito bem que ele é um ás da linguística. Com o povo ele fala como o povo, com a outra galera ele fala conforme também.

    O que passa no Jornal Nacional (ao qual o autor do livro em questão é intimamente ligado, vez que é diretor ou whatever da CGJE) são precisamente as falas de palanque, ou seja, a fala que o Lula usa quando a câmera está na sua frente – fala para o povo.

    Beijocas.

  20. reilla, minha flor: quem adorou fui eu. agora além da minha irmã e do pedreiro, tenho mais um motivo pra ir à brasília. conhecer o gnomo, lórrico, hahahahahahaha [brincadeira, tenho que ver você]. quanto ao post, acho que você acertou na mosca. moça sabida é isso aí. bjs!

  21. paulo, claro que foram importantes, do contrário não suscitariam discussão, nem mobilizariam pessoas. se o lula tira partido disso é apenas mais uma prova da inteligência que ele é. ele só merece minha admiração por isso. abç.

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