Andorinhas

Todo mundo conhece a Nana Moraes como a fotógrafa das celebridades. Mas, lendo o jornal há alguns meses atrás, descobri que ela conduziu um projeto fotográfico muito legal sobre as prostitutas da Via Dutra. O projeto acabou virando uma exposição e um livro, no qual Nana descreve o cotidiano dessas mulheres nos seus múltiplos aspectos: com seus maridos, famílias, em suas casas e nos motéis preferidos por elas. Nana relata a dificuldade em se aproximar das prostitutas, do como são desconfiadas e fechadas. Mas ela também conta que muitas vezes se emocionou com os relatos ouvidos.

Pois bem. Conversando outro dia sobre prostitutas com um amigo fotógrafo, lembrei-me de procurar online alguma notícia sobre esse projeto da Nana e eis que me surpreendo com um dado. Parece que a fotógrafa encontrou [ou está encontrando, não dá pra saber, pois o site não traz datas] dificuldades para conseguir patrocínio para lançar o livro, que tem o poético nome de “Andorinhas da Dutra”. De fato, procurei o livro pela internet e não o encontrei – o que me leva à conclusão de que ele não foi lançado ainda.

Sobre a dificuldade de patrocínio, diz Nana:

O livro está pronto há um ano, mas não encontro quem o patrocine. Nunca recebi tanto ‘não’ em minha vida. Há pessoas que até se recusam as ver as fotos quando falo qual é o assunto. É impressionante o preconceito que ainda existe.

Agora fica a pergunta: por que será que um livro como o da Bruna Surfistinha, por exemplo, encontra acolhimento na mídia enquanto esse – cujas fotos são lindas – recebe apenas recusas? Bruna virou celebridade, seu livro virou filme, não há problemas em se falar do assunto na mesa de jantar da classe média. Mas as prostitutas da Dutra devem continuar invisíveis. Não vou fazer aqui uma crítica sobre a qualidade [ou a falta de] do livro da Surfistinha. Mas acho que esse episódio aponta para certas coisas. Tudo bem mostrar uma prostituta se ela for loura, alta, magra e com cara de menina da zona sul. Outra coisa bem diferente é retratar uma realidade que fica bem longe disso. Tudo bem se houver ‘maquiagem’, se a vida receber um tratamento para ficar mais ‘palatável’. A presença da Bruna Surfistinha na mídia serve a alguns propósitos aos quais as ‘meninas’ da Dutra não se enquadrariam.

Pode ser um raciocínio simplista esse meu. Talvez haja mais coisas aí e eu não consiga ver ainda. Mas não consigo deixar de pensar que esse é um ótimo ponto de partida para se refletir sobre o assunto.

Advertisements

8 Comments

Filed under Uncategorized

8 responses to “Andorinhas

  1. Samuel

    Cris,

    Até entendo o seu ponto, mas não concordo. Esta estória deveria servir como um bom exemplo do poder da cultura livre.

    A Bruna Surfistinha começou sozinha – sem o apoio de absolutamente ninguém – postando em um blog. Seu estilo – sem entrar no mérito do mesmo – acabou atraindo uma legião de fãs. Depois lançou um livro, que só pegou mesmo quando “vazaram” uma cópia pirata na internet que acabou sendo lida por vários e deslanchando a venda da versão paga. Dizer que ela é um produto da midia é errado, a mídia só deu espaço após a notoriedade que ela conseguiu por méritos próprios na internet.

    Se a Nana Moraes é tão consciente da causa das “andorinhas da dutra” por que ela simplesmente não coloca as fotos no site, divulga na internet e assim vai.

    Imagino que ela esteja esperando que um patrocinador, use dinheiro público da lei rouanet, e financie, a fundo perdido, a impressão de seu livro em papel couché acompanhado de um belo vernissage com espumante nacional da moda para os amigos da sociedade.

    Gosto a parte, a Bruna Surfistinha se mostra muito mais moderna e democrática que a Nana Moraes, que parece ser mais uma artista esperando a primeira oportunidade para mamar no dinheiro público e tirar onda de consciente.

    Nunca me manifesto, mas desta vez me incomodou. Os tempos estão mudando e temos que perceber isto. Viva a cultura livre.

    Beijos,
    S.

  2. Falando de forma genérica, sem me referir à Bruna Surfistinha:

    A mídia glamuriza a prostituição “de luxo” e não é de hoje. Lembra da Capitu da novela? A profissão é mostrada como se o único problema fosse moral, e não as condições de vida ruins que têm as prostitutas, mesmo as “de luxo”, que muitas vezes são viciadas em drogas ou levam uma vida fisicamente desgastante.

  3. olha, samuel, também entendo o teu ponto, embora não concorde, rs. o que eu tentei levantar aqui foi a questão do preconceito e da aceitação de um tipo de manifestação, em detrimento do outro. não estou julgando os méritos ou deméritos das duas obras, nem fazendo apologia de financiamento com dinheiro público – acho que esse é o tipo da coisa que não pode ser discutida assim, tão apressadamente. o que eu tentei focar – e parece que não ficou muito claro – foi a questão da recepção desses dois produtos em si. por isso eu destaquei a fala da fotógrafa. não tenho argumentos pra debater a propriedade ou não da lei rouanet; não posso falar de algo que não conheço bem [e falo tanto dos prós, quanto dos contras]. acho que até mesmo o fato da surfistinha ter angariado uma ‘legião de fãs’ pode ser problematizado, não? será que, se a origem dela fosse outra e a ‘estampa’ fosse outra, essa aceitação teria sido tão ampla? será que ela não fala mais ao ‘imaginário’ da classe média? não tenho respostas; são apenas perguntas que me faço. obrigada pelo comentário, gostei muito. beijos!!!

  4. é isso aí, marcus. acho que você resumiu bem. bjs!

  5. “A mídia glamuriza a prostituição “de luxo”. Lógico. Concordo com o Marcus. Acho que os dados que o Samuel trouxe fazem o maior sentido, mas não tem a ver com a discussão. Se a fotógrafa estivesse promovendo um book com um bando de brunas surfistinhas já teria sido aceito. A Bruna surfistinha só conseguiu notoriedade (e não cabe analisar o veiculo) pq é bca, loira, esclarecida e etc. Se fosse uma dessas da Dutra não conseguiria nem ter o blog. Não dá pra comparar.

    A classe média não se escandaliza com a moral da prostituta. Inclusive a “puta” é atraente, sedutora e etc. Constantemente recorrente no imaginário de homens e mulheres. Se escandaliza mesmo é com pobreza. Não querem ver pobres. Essa é a dificuldade da fotógrafa. Se pegasse um bando de universitárias prostitutas, bcas, bem cuidadas, classe média, todos se interessariam pelas histórias delas.

  6. haline, obrigada pelo comentário. certeiro. bjs.

  7. Samuel

    A minha critica é esta:

    Culpar terceiros pelo próprio fracasso é uma filosofia que me incomoda muito. Os meios para ela divulgar o trabalho estão aí, se ela só divulga se receber patrocínio da Lei Rouanet, só me resta criticar. A culpa não é das putas de luxo ou da major sertório, mas da autora que se recusa a compartilhar sua obra. É neste ponto que identifico o mal maior, por isto volto a insistir, os meios para distribuição on line estão ai, quem nos priva deste conhecimento é ela, não a classe média. Mãos à obra. Estamos todos perdendo pois ela não achou um patrocinador para um obra que já está feita. Coitadas das andorinhas.

    Sebastião Salgado só fotografa pobreza e ninguém pode dizer que ele não espaço. Há um excelente filme espanhol “Princesas” sobre a baixa prostituição em Madri, que saiu do papel, chegou ao cinema e esta disponivel em qualquer DVD. O cinema brasileiro, em várias oportunidades, fez filmes que não retratavam meninas loiras da classe média, aliás em sua grande maioria. A boa literatura idem.

    Uma observação:

    Entrando no mérito do produto Bruna Surfistinha, ela tem espaço por que virou sex symbol e se propôs a isto. Entendo que o livro da Nana Moraes não tem este objetivo, se encaixa no campo da critica social.

    Sexo vende mais do que critica social, é um fato do mundo contemporâneo. Não acho que a falta de patrocínio a um livro, seja o pano de fundo adequado para uma discussão desta.

  8. Humm nessa eu concordo mais com o Samuel. Vide livros como Carandiru ou Diario de um detento em que a dura e feia realidade foi sim parar na mão do povo e com sucesso. O mercado de livros é tão saturado, que a gente nem sabe que livros assim existam.
    A mídia e a imprensa só se importa em mostrar o que já é famoso entre as massas porque isso que traz dinheiro.
    Existe um grande caminho entre colocar o livro pra Impressora imprimir e ter o povo falando sobre isso…
    Dan Brown deu os primeiros livros de Código Da Vinci de graça em metrô e pros amigos antes desses amigos começarem a fazer barulho de que o livro era bom… E daí sim a mídia cair matando.
    Só outro exemplo 😉

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s