Odeio rom-coms; amo “Harry e Sally”

Eles formaram o casal mais improvável do cinema. Ela gostava de sapateado e saladas sem molho, usava calcinhas com os dias da semana e reclamava que seus namorados nunca a jogavam no chão da cozinha para fazerem sexo. (“Nem uma única vez. Deve ser esse piso frio e duro de cerâmica mexicana.”). Ele amava baseball, cuspia carocinhos de uva nas janelas (fechadas) dos carros, queria pegar todas as mulheres que encontrava e uma vez até fez uma delas miar de prazer. Então, por que Harry e Sally é a melhor comédia romântica já feita?

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Eu não sei responder essa pergunta. Só sei o que sei: que acho rom-coms* chatas, mas “Harry e Sally” figura no topo da lista dos meus filmes favoritos. Quando penso num filmeco do tipo “PS: I love you” vejo que não há nem por onde se começar uma comparação decente. Uma comparação requer que haja um mínimo de equivalência entre os objetos comparados. No caso desses dois que tomei como exemplo, a distância é sideral. “PS” é um filminho chato e babão. Eu tive vontade de ir embora várias vezes durante a minha ida ao cinema pra vê-lo e só aguentei firme porque sabia que, um dia, estaria aqui escrevendo esse texto e malhando aquela porcaria. Só isso me fez aturá-lo.

No entanto, eu estaria sendo injusta se malhasse apenas e tão somente esse exemplar de comédia romântica. As outras de que consigo me lembrar também são igualmente insuportáveis [“Mensagem pra você” e “Sleepless em Seattle“, apenas para ficar com dois filmes da mesma Meg Ryan, o que prova que um raio não cai no mesmo lugar duas vezes…]. O que eu gosto em “Harry e Sally”, o que me fez ver o filme várias vezes e preparar aulas com passagens dele [uma vez eu dei aula de fonética com uma transcrição de uma das cenas; meus alunos adoraram] é o fato de achá-lo muito mais ‘amargo-doce’ do que os outros filmes do mesmo gênero. É como se quem narrasse a história nos lembrasse o tempo todo: “você pode até querer um amor, mas depois não reclame.”

A trilha sonora que costura o filme é tão deliciosa quanto o filme em si. Isso sem contar a atmosfera oitentista e a famosa cena do orgasmo falso na cafeteria, o que já valeria a minha devoção. Rob Reiner, diretor do filme, e Nora Ephron, roteirista [tenho um livro engraçadíssimo dela: “Meu pescoço é um horror”], contam que os personagens foram inspirados neles mesmos e na ideia de que sexo pode ‘estragar’ uma relação de amizade ente um homem e uma mulher. Pode-se objetar horrores em relação a isso; pode-se dizer que o filme aposta numa visão ‘caricatural’ de homens e mulheres mas nada disso – nada – tira em absoluto a graça e o tempero do filme, o qual, na minha opinião, manteve-se saudável e atual mesmo completando vinte anos de lançamento.

Eu já fiz um post aqui sobre como era a minha vida em 1989 – em linhas gerais – ano de lançamento de “Harry e Sally”. Naquela época, eu nem dei atenção a ele porque, afinal, pegava mal achar um filme com essa temática digno de ser assistido. Quem possuía pretensões ‘intelectuais’ ia ver os filmes espanhóis e franceses dos festivais que a UFF promovia, conversava sobre Win Wenders e Fassbinder e achava o máximo sentar e discutir coisas como “Vá e veja” [esse eu vi com um namorado. Achei um saco, chato e tive a mesma vontade de sair correndo do cinema, mas aguentei firme porque estava interessada no gatinho…].

O texto do Times diz que “Harry e Sally” evoca as primeiras comédias românticas, um gênero surgido na década de 30 e que teve seu auge na década seguinte, com os filmes de Cary Grant e Katherine Hepburn. Eu admito que tenho uma cultura deficitária quando se trata de filmes mais antigos; portanto, não posso opinar sobre a propriedade dessa afirmação. Não dá pra dizer se “Harry e Sally” é melhor ou nem chega perto dos filmes produzidos naquela época. O que eu acho sinceramente é que ele possui méritos próprios, é único em vários aspectos [adoro as cenas intermediárias, onde os casais velhinhos contam como se apaixonaram] e adorável como um todo. Talvez você não consiga encontrar “Harry e Sally” em nenhuma locadora, o que é uma pena. Mas, se você topar com ele, não o deixe escapar. Eu posso garantir que, como eu, você também vai achar que, chamar esse filme de ‘comédia romântica’, é não fazer jus a nenhuma das suas qualidades.

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Para não ser injusta, preciso confessar que também gosto dos filminhos açucarados do Hugh Grant. Adoro a canastrice dele e tudo o que vem no pacote.

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Tem uma ótima resenha em português sobre “Harry e Sally” aqui.

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Para quem não sabe, *rom-com é a maneira abreviada de se dizer ‘romantic comedy’ em inglês.

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Aqui o trailer, em inglês e sem legendas, infelizmente:

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8 Comments

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8 responses to “Odeio rom-coms; amo “Harry e Sally”

  1. Arthur

    Ok,

    Ta ai um filme que me escapou, ou se não escapou se perdeu na minha memoria no meio dos outros 15 filmes que via por fim de semana na minha adolescência. Quando estiver mais calmo eu o assisto, ou re-assito, para poder comenta-lo com vc. By the way, uma comedia romântica que gostei muito foi 10 coisas que odeio em você.

  2. veja sim, thur [eu acho que, na verdade, você não deve ter visto. “harry e sally” é inesquecível]. quanto ao outro que você citou, eu ouvi falar, mas não me interessei muito. agora que desocupei, quem sabe, né? bjs!

  3. não bate, mas eu nunca assisti esse filme… 😀

  4. hahahahaha, ju, claro que não bato. tirando eu, que tô véia, acho que ninguém mais assistiu 🙂

    bjs

  5. Respondendo à sua pergunta:
    Aquele texto lá no Breviário é meu sim, Cris. Veeeeelho, mas é meu.
    Próximo fimsem tô solteira. E, provavelmente, com um pouco de dindim. Assim sendo, às ordens.

    Vou procurar o contato da Nana Moraes. Conheço uma editora que provavelmente vai querer editar o livro dela.
    Bjs

  6. texto lindão, su. vou dar um jeito de lincá-lo aqui. bão, eu agora ando por conta do ócio, então a gente pode combinar algo, vou adorar. mando email. bjs!

  7. haahahahahaha, então tá né.
    bjs

  8. Pingback: Language « Quitanda

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