Dona Cleo

Dona Cleo dá aulas. Dona Cleo é a maior especialista em Literatura Portuguesa no Brasil. Dona Cleo encanta e desperta paixões.

Nada disso seria tão notável, não fosse por um detalhe: Dona Cleo tem 93 anos. Ainda trabalha na PUC/RJ e na UFRJ orientando alunos. Também dá cursos e palestras. Minha defesa de doutorado foi marcada para acontecer na sala que leva seu nome no prédio de Letras. Infelizmente, a sala estava em obras e eu não tive o privilégio de poder incluir o nome de Dona Cleo na minha biografia, mesmo que de maneira indireta.

Cleonice Berardinelli fala das suas aulas com tanta vitalidade que surpreende quem é muito mais jovem que ela. Na sua idade, quando muitos esperam que uma senhorinha fique em casa vegetando ou assistindo novelas, ela dissemina os conhecimentos que acumulou durante toda uma vida. Não a conheço pessoalmente, mas as pessoas que com ela convivem – minha orientadora, inclusive – falam dela com respeito e admiração enormes.

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Eu comecei a pensar na vida de Dona Cleo por conta da minha própria vida. Porque, na minha história, velhice sempre foi tabu. “Ah, mas que bobagem”, irão dizer. O fato é que passei a vida inteira ouvindo da minha mãe que ‘ficar velho’ era algo muito ruim, quase uma maldição. Que eu estivesse preparada, portanto, porque a vida depois dos 30 seria uma decadência só. Então, desde cedo, essa imagem da velhice como fardo e castigo foi algo muito palpável.

Ocorre que o tempo passou e nada do que a minha mãe vaticinou de fato aconteceu. Minha vida hoje é melhor do que aos vinte – e isso não é uma afirmação leviana. Aos vinte, o corpo e o rosto ainda conservam aquele frescor de algo intocado pelo tempo, os olhos faíscam por tudo e por nada, a gente tem muitas certezas e se arrisca muito mais, porque tem muito pouco a perder. Mas também as angústias são muito maiores, por não se saber, de fato, quem se é ou o que se quer realizar. Quando sabemos, fica a dúvida de pensar se aquilo realmente é possível. A gente quer e precisa de um sentimento de ‘pertencimento’. Uma causa, um trabalho, um amor, um filho. Tudo é instável e a gente precisa de âncoras.

O que a idade traz – e isso é a melhor coisa, em detrimento de qualquer outra – é uma outra certeza, essa muito mais provisória do aquela que temos aos vinte. É a certeza da brevidade e da instabilidade, e essa serve para nos dar foco. A gente percebe que é muito melhor tirar os óculos para poder olhar com clareza [o que parece uma contradição, mas se você pensar com cuidado, vai ver que não é]. A gente passa a ver e admirar o macro. Bom, comigo foi assim.

Por isso fico feliz quando leio sobre pessoas como a Dona Cleo. Que pode ser tudo, menos uma velhinha frágil.

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10 Comments

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10 responses to “Dona Cleo

  1. Bom já dizia a minha terapeuta, primeiro somos os pais que temos pra depois sermos as pessoas que queremos. E que bom que você percebeu a tempo que a vida é a gente que faz, novas ou velhinhas, é o que a gente monta que conta no final né? Feliz Aniversário!!! Hoje é o seu dia que dia mais feliiizzzz 🙂

  2. ah, Lelei, que doce você é. muito, muito obrigada pela lembrança [vem pro Brasil com a Mari, vem. vamos fazer bagunça juntas, ahauhauhauauha]. bjs!

  3. madoka

    ah, Cris, é por isso que simplesmente a gente acredita que um mundo melhor é possível. Melhor, mais ético, mais doce, mais simples, mais bonito.
    é de pessoas como vc que tem sensibilidade pra sentir , escrever um texto assim, sobre a D.Cléo.
    Vou no coro, parabéns e feliz aniversário, toda felicidade que vc merece menina!

  4. Eu tive uma professora de Antropologia q tem 83 eu acho. Cara, ela é mega lúcida. Chegava a tirar onda com a cara de alunos que são bem século passado viu.

  5. pensou que eu tinha esquecido? pensou?
    sábado eu te mordo e te aperto. por enquanto, por aqui, só vou dizer o que tu bem já sabes: te amo e estou contigo pro que der e vier, dotôra.

  6. Hellen

    Parabéns pra vc, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida, ÊÊÊÊÊÊÊ…

    Beijundas, muito sucesso pra ti e muitas felicidades!!!!

  7. eu morro de medo de ficar velho.
    tanto que já planejei vários suicídios programados para os meus 40 ou no máximo 50… se bem que o mundo vai acabar em 2012 e eu ja me pouco da copa, olimpiadas e suicidio. hahah.

  8. PD

    A cigana leu o meu destino: vou morrer aos 92 anos, assassinado por um marido ciumento.

  9. querido, sorte a sua que eu não caso mais, né? ahuauahuauhauhahauha.

  10. ruiva, tu bateu com a cabeça, só pode.

    🙂

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