Era uma escola muito engraçada

Não tinha aula, nem séries, nem provas, nem nada dessas coisas que fazem uma escola se parecer com o que a gente conhece como ‘escola’. Essa escola existe de verdade – não é um delírio – e seus alunos conseguem se sair muito bem nos chamados ‘exames nacionais’. Chama-se Escola da Ponte e fica em Portugal, num vilarejo que tem o poético nome de ‘Vila das Aves’.

A Escola da Ponte entrou na minha vida através de um grupo de professores da PUC que trabalham com uma ‘visão’ pedagógica chamada Prática Exploratória. Vou deixar a Prática um pouco de lado porque hoje é dia dos professores/as e eu queria falar desta que é uma das experiências mais legais em educação de que eu tenho notícia. Como eu ia dizendo, alguns professores do grupo da PUC [que não são apenas acadêmicos, mas professores de escolas de ensino fundamental, públicas e particulares] foram até Portugal conhecer a experiência da Ponte. Segundo me disseram, sempre que chegam visitantes por lá, um aluno é designado para ‘mostrar a escola’, mais ou menos como fazemos quando chega um visitante em nossa casa. E tudo era exatamente como relatavam os livros e os ‘sonhadores’, gente como Rubem Alves, que escreveu um dos textos mais bonitos que já li sobre a Ponte.

A Ponte resume tudo aquilo que eu acredito que uma educação de ‘qualidade’ deva ter. E essa qualidade não se traduz apenas em números e tabelas, mas tem muito mais a ver com a vida das pessoas envolvidas na experiência de ensinar e aprender. ‘Liberdade’ é a palavra-chave que explica o sucesso da Ponte. As crianças podem escolher, resolvem problemas junto com outras, opinam e interagem. Quando eu falo essas coisas em público sempre aparece alguém pra me lembrar da ‘disciplina’, que isso é impossível de ser implantado porque as crianças precisam de limites. A esses eu diria que a palavra ‘disciplina’ perde o sentido num lugar desses e que limites só são apreendidos verdadeiramente no exercício da liberdade. A conceito de liberdade traz em seu bojo a noção de limites. O que acontece é que a gente aposta muito mais na coerção. Acho que sou conhecida como uma professora cobra muito porque atuo dentro de um sistema onde os próprios alunos esperam isso. Uma estrutura com alto poder de cooptação. É preciso um esforço enorme pra mudar isso. Por mim jogava tudo abaixo e começava de novo, do zero. Na impossibilidade de fazer isso, vou procurando brechas.

Através dessas pequenas ‘brechas’ você vai inoculando uma noção de liberdade que não seja tão abstrata. Para isso a gente lança mão de algumas ações simples. Quando deixo que eles escolham, por exemplo, que tarefas querem fazer. Reparem que eu disse ‘eu deixo’. Acho uma droga isso, mas a verdade é que eu tenho o poder.

De resto, é preciso operar uma mudança de perspectiva. Por exemplo, quando digo pra mim mesma que a quantidade do que eles aprenderão não depende diretamente da quantidade de informação que eu ‘passo’ para eles. E que nem todo mundo aprende as mesmas coisas, embora todos assistam as mesmas aulas. Enfim, teria um mundo de coisas para dizer, mas acho mais fácil deixar as palavras do idealizador da Escola da Ponte, o José Pacheco. Ele é aquele típico português mal-humorado e meio seco, mas quando veio ao auditório da faculdade de educação da UFF dar uma palestra [que durou duas horas], ninguém queria ir embora. O cara chegou com uma malinha, colocou na cadeira e perguntou: “O que vocês querem saber?” – e daí falou, falou e falou. E todo mundo lá, babando. Meio no improviso, sentindo a reação das pessoas, ele me deixou uma certeza: dá pra fazer diferente. E isso sempre deixa um gosto amargo na boca.

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Conversando com o Marcus Pessoa, ele me perguntou se Summerhill não seria exemplo de escola com as mesmas características da Ponte. Conheço pouco sobre Summerhill, mas uma diferença fundamental a deixa a anos-luz da escola de Vila das Aves: Summerhill é paga e bem paga. A Ponte é uma escola pública e que recebe aqueles alunos ‘que não tem mais jeito’ e que ninguém quer.

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Tem mais Rubem Alves falando da Ponte aqui, aqui, aquiaqui.

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9 Comments

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9 responses to “Era uma escola muito engraçada

  1. Taí uma coisa que você não me disse na nossa conversa: que a Escola da Ponte recebe os alunos que “não têm mais jeito” e que ninguém mais quer.

    Achei esse dado interessante. Porque provavelmente permite um grau maior de liberdade do projeto da escola e uma cobrança externa menor (que sempre é um tanto conservadora) sobre o tipo de educação que ela está dando.

  2. Ah, sim. Ainda não li os textos linkados. Mas estão aqui nas outras janelas pra ler, ainda hoje.

  3. é sim, marcus, eles recebem muitos alunos que tiveram problemas sérios em outras escolas, mas não só esses. é uma escola realmente inclusiva. ah. não deixe de ler os textos. são longos, mas são super-interessantes. beijo.

  4. Parabéns por ontem!!!
    bjs

  5. madoka

    ganhou muitas maçãs?
    parabéns dra.
    🙂

  6. owwww. que fofas vocês, meninas. obrigada! [mas não ganhei nem uma maçãzinha, snif]

    🙂

  7. monica

    Sensacional! Rubem Alves relata no livro acontecimentos inacreditáveis para nós. Fica também um gosto de sonho possível. 🙂
    Mônica

  8. é lindo, né, moniquinha?

  9. é, não fazem mais alunos como antigamente né?
    bjs

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