Como é trabalhar no olho do furacão

Saí de casa hoje super-apreensiva. Atrasei mais do que o de costume porque fiquei uma enormidade de tempo na internet, tentando achar notícias sobre o conflito. Não consegui, liguei pro trabalho e me disseram que estava tudo bem. Eu nem sei o que dizer porque, na verdade, parece que a percepção das coisas por parte das outras pessoas é um pouco diferente. Pra mim trabalhar nessas condições é novidade. Mas hoje, quando eu disse que não sairia daqui debaixo de tiro de novo [como já aconteceu] alguém me disse: ‘Ah, mas eu já saí daqui com tiro também’. Tipo. Normal, né? Você é uma niteroiense [nem sou, sou carioca da gema e niterioense adotada] surtada. É, as pessoas riem da minha apreensão niteroiense. Como se eu fosse Jeca Tatu na cidade grande, entendem?

Por mim, as aulas seriam suspensas. Se não há como garantir a integridade das pessoas, se o morro está ocupado, se os policiais dizem que estão numa guerra, não vejo porque expor as pessoas. Mas há que se continuar vivendo. Deve haver algum mecanismo de negação da realidade pra gente poder continuar saindo de casa e vindo trabalhar. Os bairros atingidos parecem estar em paz hoje. Mas é uma ‘paz’ que parece estar sentada em cima de um paiol. O ar está pesadíssimo. No entanto, não fosse pela presença da Globo no Boulevard 28 de Setembro e os inúmeros carros da polícia estacionados aqui na rua em frente, eu diria que nada aconteceu. De onde as pessoas tiram esse espírito meio ‘blasé’?

Acho que só eu e os alunos estamos assustados. Pra mim isso já é motivo suficiente pra ir pra casa. E é o que estou pensando seriamente em fazer. Tchau.

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Eu sei que isso tudo é bem complicado e tem causas muito intrincadas. Nem me cabe discutir nada, isso foi só um desabafo. Um post ‘expletivo’, por assim dizer.

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13 Comments

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13 responses to “Como é trabalhar no olho do furacão

  1. Arthur

    Essa foi a maior diferença de viver em um outro país, descobrir que não deveria ser aceitável viver com esse nível de violência, aceitar como fato da vida essas situações.

    Já odiava quando as pessoas, ao comentar de qualquer tipo de violência urbana, desde a menos agressivas como assaltos até as coisas que realmente assustam, como a situação de vocês, justificam e diminuem os seus efeitos. Quando elas ainda põem as vítimas como culpadas, pois elas “pediram” para ser vítimas ao se colocarem em “situação” de risco.

    Eu sei que o problema da violência tem causas complexas, que ela é uma consequência de desigualdades gritantes, e que devemos solucionar esses problemas maiores para realmente sanar esse sintoma, mas mesmo assim acredito que enquanto buscamos soluções para os problemas mais profundos ,devemos sim tomar medidas para tonar suportável de verdade viver neste país. E para mim, viver em um país em que morrer por bala perdida, por causa de guerra de traficantes ou assalto não é aceitável!

  2. Não tenho nada a dizer a não ser compartilhar da sua estupefação e concordar com o seu desabafo.

  3. putz, muito esquisito isso, fiquei daqui vendo e roendo as unhas, preocupada pelas pessoas daí. concordo com vc q a vida continua, mas normalmente não assim logo no segundo dia né? quem garante q a coisa está sob controle? quem garante que agora dá pra sair na rua sem levar bala ou helicóptero caindo do céu? fiquei em pânico daqui, sensação de impotência total.

    vem pra cá?

    bjs

  4. confessioning

    Primeiro, brigadinha pelos parabéns Cris, vc é uma fofa!!! (acho q jah vi isso… rs)
    Quanto ao seu post, adorei ver tanta realidade nas suas palavras.
    Não tem akele caráter rebelde, que faz mais barulho que redemoinho… tbm não tem a comodidade de achar tudo normal.
    No fundo é isso, tah tudo normal. Tiroteio tornou-se programa de domingo. Basta passar agachadinho e tudo beleza! Essa mania de achar que somos imortais e nada acontece com a gente…
    Por outro lado… é tão difícil acreditar que chegamos tão fundo nesse poço… q o ser humano pode ser tão ruim…
    É literalmente estar entre o sonho e o pesadelo, mas em ambos, acordados.

  5. é, thur, eu também odeio quando as pessoas ‘naturalizam’ a situação. eu ouvi muito isso ontem, a respeito de suspender ou não as aulas: ‘mas a gente não pode deixar que eles determinem a nossa vida’. relôôôôuuuuuuu!!! os caras JÁ determinam a nossa vida, gente. nós já passamos [e em muito] desse estágio de ‘vamos fazer a resistência’. a hora é de recuar e pensar em outra estratégia porque eles já dominam o nosso dia a dia sim. enquanto não se repensa a situação, é preciso zelar pela vida das pessoas e não expô-las desnecessariamente ao perigo. eu concordo que não se pode suspender as aulas indefinidamente [em alguns lugares, infelizmente, isso parece que já é a regra], mas como a ju disse, ontem era o segundo dia. e meus colegas conversaram com os policiais. eu também concordo contigo: enquanto se buscam as causas mais profundas, há que se ter ações pra tornar a vida possível. e certamente fingir que não está acontecendo nada nãofaz parte desse conjunto de ações desejável. beijo, lindão!!

  6. marcus!! obrigada, lindo. bjs.

  7. juzinha, me leva pra brasília? [mentira, em brasília não tem esquina , eu ia morrer de tédio, hohohohohoho]. eu pensei exatamente como você. que não dá pra fingir uma normalidade no segundo dia. e outra: os policiais estavam ali dizendo pra gente que a ‘chapa iria esquentar’ ontem mesmo. eu saí voada de lá às 5 e meia, não quis ficar pra conferir, obrigada. beijos, lindona.

  8. oi, manu. obrigada pelo comentário. sobre isso de ‘passar agachadinho’, um amigo meu falou exatamente assim: qualquer coisa você abaixa e corre, cris. hahahahahahahaa. eu já estive num tiroteio lá esse ano e foi terrível. parecia filme, sabe? mas tem muito mais coisas aí do que a ‘ruindade’ do ser humano. a violência no rio é estrutural. precisa ser combatida nesses momentos, mas quando tudo está na calmaria é preciso pensar em ações mais ‘profundas’. um beijinho!!

  9. Gulossita

    É triste essa capacidade que temos em acomadação, moldar-nos a tudo né ?
    Sabe que eu reconheço que tenho um pouco disso, essas notícias, essa onda toda de violência pra todo lado, aqui em São Paulo também, com outra proporção talvez menos visivel, palpável a olhos visto, que eu me desespero, me deprimo e esse tom bláse acaba por me atingir, sinto falta do meu folego antigo, em causar mudanças, de achar que eu era a geração que iria mudar o mundo, rs.
    Seu relato, vindo de alguém que sei existe de verdade, me dá um chacoalhão.
    De novo, se cuide !

  10. gulossita, eu não quero nunca fazer parte do time que acha que isso pode ser normal. nunquinha. bjs!!

  11. ah, pára de falar q aqui não tem esquina, a cidade não é redonda tá???????? rs
    ó só, eu odeio violência com todas as minhas forças e nunca [nunca mesmo] vou achar q ela é normal e faz parte do cotidiano, pq não faz, não é pra ser assim. é fato que a vida continua, mas não dá pra negar q o medo vira uma constante. eu, depois do assalto, estou completamente em pânico, quase não saio de casa e as vezes até acho q na rua todo mundo olha pra mim, muito esquisito isso. e barulho? já sabe como é né? nem sei o q eu faria se estivesse aí no rio, mas se aqui, por uma coisinha de nada eu já fiquei refém do meu edredon, imagina aí.

    vou te contar uma coisa, eu nunca fui a favor das olimpíadas serem aí no rio, nada contra a cidade, mas não acho q o Rio e o Brasil tenham estrutura pra isso [por mais investimentos q façam], e esse confronto unilateral e covarde veio só pra ratificar a minha opinião anterior. Acho q temos coisas mais importantes pra nos preocupar aqui do q receber gringo pra jogar e fazer graça. Taí uma coisa q podia melhorar, o armamento da polícia, que tal?

    beijos

  12. mensageira

    “Deve haver algum mecanismo de negação da realidade pra gente poder continuar saindo de casa e vindo trabalhar”.
    Realmente há um mecanismo de negação da realidade, ou de distorção, como queira…
    O que acontece no dia-a-dia num local de risco desses, só quem vive sabe.
    E pode ter certeza que o que eu e você vivemos, não chega aos pés do que eles vivem.

  13. sim, mensageira, eu concordo. o povo do asfalto reclama, mas nem tem ideia do que é o inferno de verdade.

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