O horror

Com o passar do tempo, eu me tornei uma pessoa mais sensível a manifestações de machismo, tanto veladas quanto explícitas. Na verdade, elas sempre estiveram aí, lógico, mas nunca chegaram a me incomodar tanto quanto agora, que eu tenho mais consciência delas. De tanto ler e ouvir pessoas diferentes, fiquei mais sensível ao tema. Antes de prosseguir, é preciso que eu deixe bem claro que eu não tenho experiência acadêmica no assunto e, o que sei, aprendi de segunda mão. Portanto, o que eu digo são as minhas opiniões, mescladas com coisas que outras pessoas disseram e que eu acho pertinentes. E eu nem sei se já sou capaz de processar essas opiniões com a devida propriedade. Muita coisa do discurso machista me escapa – e isso me faz sentir uma pateta, à vezes.

Por que essas coisas têm me incomodado tanto? Como eu disse, eu fiquei mais sensível a elas. Antes eu seria incapaz de reconhecer machismo na maioria das situações que hoje me perturbam. Quando eu falo machismo, eu preciso dizer que isso não se refere necessariamente apenas aos homens. É algo que tem a ver com discursos e as posições que nós assumimos. Explico. Em linguística, existe uma linha de pesquisa que se chama ‘análise do discurso‘. É uma denominação que acomoda algumas linhas diferentes entre si, mas essa de que vou falar leva o nome de seu principal precursor: Pêcheux. Não é a minha praia, sei muito pouco, mas, do que li, algumas coisas se mostraram úteis pra eu entender o que se passa quando se fala desse tema. Resumidamente, a análise do discurso afirma que os sujeitos enunciam de um determinado ‘lugar’ na cadeia discursiva. A isso equivale dizer que ninguém enuncia , ou seja, diz nada no vácuo porque o discurso é uma construção social. A gente é meio que ‘capturado’  por essa estrutura. Quando a gente acha que está enunciando algo ‘inédito’, do fundo do coração, ou porque acredita-se sujeito e senhor de suas vontades e atos está apenas e na verdade atualizando discursos vigentes. As nossas falas são colagens e não tem nenhuma originalidade nisso. É como se, ao dizer algo, estivéssemos assumindo uma determinada posição, nos colocando em algum lugar para, dali, dizer algo. Fazemos isso o tempo todo.

Por que eu estou dizendo isso? Porque muito frequentemente eu escuto pérolas machistas, mas as pessoas que as dizem 1) não sabem ou não reconhecem nelas machismo algum; 2) não acham que estão reforçando nenhum discurso opressor. Dão várias razões pessoais para o fato, como se isso justificasse suas falas. Pra não ficar confuso, vou dar um exemplo. Meu pai sempre diz ao meu filho quando voltamos da casa dele [detalhe: moramos no mesmo prédio, 5 andares acima]: “Toma conta da sua mãe”. Apressadamente alguém poderia dizer: olha aí um homem preocupado com a filha. Eu diria: olha aí um exemplo do que eu acabei de falar. Meu pai tem 72 anos e com certeza nunca iria pensar que está sendo machista ao dizer isso, mas está. Para ele, uma mulher sozinha, sem marido, sempre vai precisar de alguém que tome conta dela, ainda que ela seja independente, pague suas contas, seja doutora e funcionária federal. Nada disso entra nessa conta. Como meu paizinho não entenderia um ato de revolta meu, eu simplesmente balanço a cabeça e sorrio. Mal sabe ele que apenas repete uma noção que está entranhada em quase todo tipo de discurso. Essa ideia da mulher desprotegida, desamparada e em perigo só porque está sem homem.

Noutras ocasiões eu sou tomada de espanto justamente pelo teor explícito – e nojento – das coisas que eu escuto. Lá no trabalho tem um grupinho de machos-alfa que adora nos brindar com pérolas. Coisas do tipo “Mulher não precisa falar nada inteligente; é só abrir as pernas”. Juro. Isso no meio de professores. Nessas horas eu nunca consigo ficar quieta e mando logo uma frase mal humorada do tipo “Ah, você devia se olhar no espelho de vez em quando antes de falar isso”. Eu sei que deveria tentar dizer algo mais inteligente, mas eu me sinto uma troglodita nessa área [direitos da mulher] e não tenho muitos argumentos. Só me dá raiva mesmo. E eu com raiva não consigo articular nada que preste.

Sobre essa coisa de não ter argumentos. Por exemplo, aqui no Ridejanêro tem um carro só para mulheres no metrô, nos horários de rush. Antigamente eu achava bobagem. Agora eu não acho mais. Claro que eu acho que o ideal seria que os homens fossem educados o suficiente pra entender que as mulheres não são um pedaço de carne que eles podem ir passando a mão impunemente. A gente adora sexo – ou não, e isso também não é problema nenhum – e, por isso mesmo, a gente pode escolher com quem, quando e como vai fazer. Como a grande maioria dos seres que possuem pinto não possuem, entretanto, tal discernimento, eu passei a achar o tal carro uma boa opção. Eu, por exemplo, só ando nele. Mas se me perguntarem a razão eu não tenho argumentos muito mais sofisticados do que os que eu apresentei aí em cima. E que, bem. Pra mim são suficientes. Eu decido se quero alguém se esfregando em mim, assim como a hora, o local e tudo mais. E como tem pessoas que não entendem esse princípio simples, a gente desenha.

*********************************

Eu comecei a escrever esse textinho há algum tempo e andava sem vontade de terminá-lo até que ontem, quando cheguei em casa tarde da noite, o Marcus me conta do babado que movimentou a blogosfera durante o dia: a notícia sobre a aluna da Uniban que quase foi estuprada no campus. Logo assim que ele começou a me contar, achei que fosse mais um daqueles casos de mulheres estupradas em estacionamentos desertos. Mas não. O caso é que uma aluna dessa faculdade de mauriçolas resolveu ir à aula vestida – segundo eles – ‘como uma puta’. E é óbvio que todo mundo sabe que as putas são seres desprezíveis que estão aí no mundo pra serem estupradas mesmo. Esse post aqui me deixou estarrecida, babando de ódio e com muitas interrogações na cabeça. Me deixa perplexa o fato de que – como a Marjorie bem pontuou – uma pessoa se choque mais com uma saia curta do que com uma ameaça de estupro. Meu deus. Eu não consigo acreditar que essas pessoas vivam no mesmo mundo que eu.

Hoje conversando com meu filho durante o café da manhã [e eu faço questão de conversar essas coisas com ele], ele veio me dizer que talvez eu estivesse vendo o fato pelo viés errado, ou seja: por que eu estava chocada, se é notório que o mundo é habitado por bichos escrotos como os aluninhos da tal universidade? E eu respondi a ele que é claro que a gente sabe que essas coisas acontecem desde que o mundo é mundo, e que o cenário já foi muito pior. Mas eu acredito firmemente que, se nós caminhamos e evoluímos, é porque pessoas mantiveram-se atentas para essas barbáries, não deixando que elas se instalassem no nosso imaginário como ‘naturais’. Naturalizar uma coisa dessas, assim como a violência na porta do meu trabalho, assim como tantos outros absurdos, é contribuir para que nunca se faça nada para mudar o mundo. Eu sei. Eu sinto desânimo. Um desânimo estarrecedor. Mas acredito também que a gente tem obrigação de fazer alguma coisa. Nem que seja espernear e gritar e discutir. Muito, muito, até que eles – os machistas escrotos desse mundo – se sintam acuados. Se eles não se cansam se serem escrotos, por que nós – que queremos um mundo melhor – deveríamos nos cansar?

*************************************

E o Alex fez uma pergunta que eu acho super pertinente: que tipo de roupa um homem precisaria usar para causar esse tipo de balbúrdia?

Advertisements

16 Comments

Filed under Uncategorized

16 responses to “O horror

  1. Arthur

    Nem tenho muito o que comentar, concordo com tudo, sobre os discursos, sobre o fato que devemos sempre nos horrorizar e jamais achar essas coisas normais, que o comentário do Alex foi certeiro, etc.

  2. Cris! Que tristeza isso. Tem coisas que, por Deus, eu preferia não ficar sabendo.
    bjão

  3. Francisco

    Machismo realmente é uma cultura. Em cada cultura as coisas tem o seu lugar, homens e mulheres inclusos. A fala do teu pai faz sentido pro mundo onde ele vive, é machista, mas também não tem nada de mal.
    A questão do metrô, já é bem mais complicada. Primeiro que segue a mesma polêmica das cotas nas faculdades, já que é uma ação afirmativa para proteger uma certa população de outra. Pelo jeito funciona, mas realmente é triste a gente precisar disso. É um começo, mas não vai resolver o problema que aqueles homens do vagão ao lado tem.

    Já do negócio da universidade, sim, tem gente babaca, homens e mulheres, nesse coro. Mas duvido que todo mundo naquele grupo tivesse ao menos visto a mulher, ainda mais pensado em estuprá-la. Pra mim soa como mentalidade de turba. Uma vez começada a gritaria, não importa mais muito o porque, e uns poucos levam o grupo inteiro pra onde for.
    Lembro dum texto do Jung, que fala basicamente que qualquer aglomeração de pessoas se nivela pelo mais primitivo que elas tiverem, já que o primitivo é o único denominador comum entre todos.

  4. chico, que comentário bonito esse teu. eu concordo com tudo, sem tirar nem pôr. somente uma coisa. no caso da universidade, mesmo levando-se em conta a tal ‘mentalidade de turba’ eu acho triste e revoltante que essas coisas ocorram. mais uma coisa: homens como você, o thur, o L. e tantos outros que eu conheço me dão esperança de que, talvez no futuro, essas cenas que a gente vê nesse vídeo se tornem cada vez mais raras. muitos beijos, querido.

  5. thur, concordo muito contigo. a gente tem que se revoltar sempre e falar sempre e, sempre que possível, agir pra combater isso. como austin – outro filósofo que gosto – diz que a linguagem é ação, a minha maneira de agir é sempre me posicionar contra essas coisas. beijos!

  6. flávia, tristeza aqui também. e revolta. e um nojo danado disso tudo. bjs

  7. Eu me sinto o tempo todo meio retardado emocional por não conseguir mais me indignar com certas coisas.

    Triste.

  8. Francisco

    pois é, talvez um dia pare.
    mas acho que a gente para, tanto homens e mulheres, quando a gente se recusa a entrar na turba, pra qualquer coisa que seja.

    Uma vez dentro dela, até que se dissipe, não se sabe o que se faz. Uma vez que se sacrifica a voz individual, não dá mais pra escolher o que vai ser dito com ela.

  9. desculpa, estou engasgada.
    depois eu volto.
    bjs

  10. PD

    O machismo é uma construção social, certo? Logo, sociedade e família desempenham papéis fundamentais na perpetuação desses comportamentos. Conheço muita mamãe jovem empenhada em construir os machistas de amanhã.
    Um dia desses, numa festinha de criança, minha neta, que tem só dois anos, estava dançando com dois meninos da mesma idade. Um deles a abraçou e a mãe, toda alegrinha, começou a gritar: “Isto, filho! Beija que ela tá dando mole! Lasca em bandas!
    Detalhe: a mamãe é moça bem nascida e finamente educada.

  11. baby, claro que eu concordo contigo. por isso eu disse no texto que machismo se refere a um comportamento generalizado que se perpetua pela via do discurso. a gente é capturado por essas construções e muitas vezes não se dá conta mesmo. quanto a isso que aconteceu à sarah: desnecessário dizer que a mamãe do menino era moça bem nascida; aliás, é na classe que a gente vê isso acontecer a rodo. eu acho que o que precisa é deixar claro que isso é machismo, que coloca a mulher num patamar inferior. toda vez que meus alunos – meninos e meninas – saem com uma pérola de teor machista eu estrilo e falo, chamo todo mundo pro debate. dá trabalho, mas acho que não tem outro jeito. beijos!

  12. putz, vc viu qnto comentários já existem naquele post do buteco sujo? passou de 400.
    detalhe, a maioria concorda com a atitude grotesca dos idiotas da unignorância.
    enfim, machismo é phoda.
    bjs

  13. Concordo com todos os comentários daqui especialmente o de Chico que escreveu tudinho que eu mesma escreveria.
    O problema maior é a gente conseguir entrar na cabecinha pequena do pessoal que pensa diferente da gente e acredita em coisas diferentes…
    Quando a gente escreve em nossos blogs, comenta em blogs que a gente lê, normalmente é pregar pra pessoas que já são convertidas, sabe?
    O problema ao meu ver é novelinha da globo, revistinha Querida e Caras, etc… Que continuam colocando na cabeça do povo que ser machista é não só normal como aceitável e estranho é quem acha tudo isso um absurdo….

  14. Sonia

    Minha sogra (de 60 e poucos anos) comentou que usava mini-saias beeemmmmmmm mais curtas na década de 60 e nunca foi estuprada, nem ameaçada de, nem agredida, xingada de puta, etc.
    Daí concluo que a nossa geração (de 40 e poucos) fez alguma mer…… muito grande ao criar os boçais que estão por aí (como os “escrotinhos” da UNIBAN), com poucas e honrosas exceções. Tenho 2 filhos de sexo masculino (um de 22 e um de 18). ACHO que não seriam capazes desse tipo de atitude. Mas, se fossem, creio que a culpa seria minha. Crianças aprendem o que lhes ensinam.

  15. Sonia

    E Cris…também acho que sou mais feminista hoje aos 46 do que era aos 16, 26, 36…a gente evolui, certo?
    Aliás, feminista, não. Defensora dos direitos da mulher. Pois agora tenho uma filha (de 6 anos) e fico estarrecida com o mundo que ela receberá (e que a receberá). Até minha mãe tinha mais a me oferecer.
    Sorry se estou meio amarga (é a TPM) .rs

  16. sônia, só quero te dizer uma coisa: OBRIGADA pelo teu comentário. porque é muito fácil as pessoas quererem torcer o assunto pra dizer que VOCÊ as está perseguindo quando, na verdade, são elas que estão erradas. não é uma questão de ter opinião. eu não tenho que respeitar a opinião de alguém que acha que uma mulher tem mais é que ser linchada. você está certíssima, não acrescento uma vírgula ao que você disse. beijos

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s