De repente

Acontece sem que você perceba. A gente acorda e pensa que está bem. Tudo continua nos mesmos lugares, tudo tem aquela ‘pátina do tempo’ a qual, para mim, é tão reconfortante. Mas sem querer certas coisas deflagram processos.

Estou em casa envolvida com provas desde ontem. Acordei e sentei aqui, tomei café com o note ao lado, como sempre. Café puro, com adoçante, e um sanduichinho que consiste em uma fatia de pão integral, queijo cottage com cenoura, uma fatia de presunto e salada por cima. A salada é pra ver se a digestão fica mais lenta e eu sinto fome em intervalos maiores. Tudo como sempre acontece todos os dias.

Estou cansada, estou insatisfeita com algumas coisas, mas nada que eu ache muito sério. Uma delas é que eu não me conformo em ser apenas e tão somente uma ‘dadora de aulas’. Eu agora passei a ser professora 40h com DE [dedicação exclusiva]. Meu projeto não é de pesquisa, entretanto. É um projeto técnico, de produção de material didático digital. Isso tudo me afasta das coisas que eu gosto, de ter tempo pra refletir, ler e pesquisar. Comprei alguns livros e ainda não consegui passar da 5ª página. Um deles é esse aqui, do Terry Eagleton, um teórico marxista do qual eu gosto muito. Li o começo, me entusiasmei e logo tive que deixá-lo de lado por conta do trabalho. Tem outros livros aqui na minha mesa que eu também gostaria de revisitar e não consigo. Tem blogs com posts em que eu gostaria de comentar e também não consigo. Posts como esse aqui do blog do Alex, falando sobre ciência e ideologia. Não que eu seja grandes especialistas em nada, mas já pesquisei discurso científico e me interesso pelo assunto. Aliás, uma das linhas que me interessam é justamente a questão da objetividade no discurso e a vagueza na linguagem. Pois o momento passou e eu nem pude ir  ler os comentários ou dar meus pitacos.

Por que eu comecei a falar sobre isso? Porque agora há pouco eu chorei, mas nem sei o motivo. Tudo parece se mover dentro da sua órbita costumeira, mas, de repente, vem alguém, te mostra alguma coisa e pronto. Cutuca.

Lembram que ontem eu coloquei a Maria Gadu aqui, cantando Ne me quitte pas? E a Tina ponderou, muito sabiamente, que incluir essa música no repertório era cafona; só a Nina Simone pode. Pois bem. A Tina é do tipo que conta o milagre e diz quem é o santo. E me mandou o link com a voz lindíssima da Nina Simone de background para imagens do filme “Os Amantes de Pont Neuf”. Daí eu não aguentei e chorei muito e ainda fiquei pensando numa coisa que a Clara comentou aqui, sobre o tempo que já se foi. Isso ficou martelando na minha cabeça.

O tempo de algumas coisas na minha vida já se foi. Não adianta lamentar; infelizmente é assim que a vida é. Por outro lado, eu ainda não consegui consolidar outras. Ainda me debato com dúvidas, porque não dá pra ver o que está além da esquina. E isso tudo angustia, vai minando sem que eu me dê conta. Notaram como é tecida a trama das nossas angústias diárias? São muitos fios desencontrados, mas, do nada, eles se entrelaçam e a gente consegue enxergar o nó. Agora preciso entender como desfazê-lo.

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Pode ser que eu tenha chorado também por motivos que eu tento minimizar. Meu pai está doente. Muito doente. Recebemos o diagnóstico nesse final de semana. Não vou contar a história toda, mas temos a quase certeza de que ele escondeu o fato por muito tempo. Agora precisa fazer radioterapia e quimio, antes que possa ser operado. Um processo longo e doloroso, que vai nos afetar a todos; a mim, minha mãe, meu filho, meus irmãos. Estamos tentando levar a vida na normalidade. Ainda não sei se a ‘ficha caiu’ para todos. Acho que isso irá acontecendo aos poucos – e é melhor que seja assim. Eu ainda estou meio sem ação. Tenho a impressão de que o que aconteceu hoje, ainda vai ser repetir muito, indefinidamente. Eu não queria que esse texto terminasse triste. Eu não estou triste, nem desesperada. Mas é que, às vezes, a dureza do mundo cai na nossa cabeça muito sem aviso prévio. E a gente fica assim por um tempo, sem saber o que pensar.

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10 Comments

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10 responses to “De repente

  1. Vai ficar tudo bem.
    [estou aqui…]
    bjs

  2. Tina Lopes

    É tudo junto, guria, e você teve um ano tão tenso… convenhamos, não tem como não desabar. Muita força pra tua família e eu também estou aqui. Se quiser até passo uns links mais animadinhos. 😉

  3. Nossa, chorei lendo seu post, pq por coincidência estou voltando agora da médica que poderia me dizer que eu teria de recomeçar tudo isso de novo – e tudo isso é químio e radio e todo o pacote. Mas ela não me disse isso, cris, ela disse vamos esperar mais seis meses, parece que está como estava antes, apesar do resultado alarmante do exame. E aí vc fala de seu pai e sinto como se fosse meu o destino, e queria ser mais forte para dizer pra você e pra ele: vai passar, tudo que ele terá de enfrentar vai passar, esteja certa disso. Desejo de coração que as coisas caminhem o melhor possível, muita sorte e muita luz pra vocês.
    abraço,
    clara

  4. Gulossita

    Normalmente eu não sou boa nas palavras, sou boa pacas pra dar colo , ombro e ouvidos, se chorar bunitinho, fazendo bocão, ganha seca lagrima e beijinho nos olhos. Mantenha a serenidade.

  5. madoka

    cris,
    eu desabei vendo a nina simone, o filme a ponte…e o seu texto, chorei.
    eu super te entendo menina, tudo.
    é tanta coisa, e é como vc mesma diz, acontece sem que a gente perceber (me lembrei do Caio F.Abreu, essa frase) , e também que é final do ano, final de um ciclo, é inverno por aqui. desabei.
    um forte abraço, e força sempre
    madoka

  6. Cris, as vezes a gente tem tanta coisa pra resolver que esquece de ficar triste, de chorar, de desabafar. Dai quando isso acontece, a gente não consegue nem fazer as devidas atribuições, desaba mesmo. Essa merda desse somatório de coisas, é lógico que uma doença abala e tals. Claro que tem isso e pode ter mais coisas. Melhoras pro seu pai viu? bjobjo

  7. meninas, vocês são as mais queridas e fofas. obrigada pelas palavras de carinho. estou bem. beijinhos

  8. dufas

    Nossa, Cris, como você descreveu bem a forma como é “tecida a trama das nossas angústias diárias”! Identifiquei a minha aí, metros dela. E também com esse sentimento de que o tempo de certas coisas já passou, talvez algumas muito importantes. Putz.
    Força aí na batalha com seu pai, que vocês vivam isso da melhor maneira possível.
    Beijo,
    Helê

  9. Espero que voce já esteja melhor, nessas horas só um abraço apertado mesmo (serve um virtual e mandar boas vibrações pra aí?) Mas lembre-se que as coisas que mais sentimos ou sentiremos falta são somente aquelas pelas quais a gente se sentiu feliz de ter vivido um dia, e não é todo mundo que tem essa sorte.

    Até na amargura da saudade tem o sabor gostoso de saber que ela só existe porque porque fomos privilegiados o suficiente de sentirmos falta de certos momentos de nossas vidas.

    E minha mãe que diz que chorar é bom, lava a alma e tira o peso de qualquer ombro, então como ela mesmo fala”chora que é bom” 😉

    *mandando bons pensamentos pro seu pai e toda sua família também*

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