Últimos filmes

Eu queria falar dos filmes que vi antes das loucuras de Natal e Ano Novo. Porém, em meio ao caos que foi o final de ano, não tive tempo de postar uma notinha sequer, embora tenha sido acometida por uma vontade imensa, assim que saí do cinema.

Em geral, eu faço uma avaliação muito ‘impressionista’ dos filmes que vejo. São sensações, imagens, lembranças que eles me trazem e que depois, com o passar do tempo, ficam mais difíceis de inventariar. Mesmo assim, vou fazer uma tentativa. Vou falar primeiro sobre o que mais me marcou, por diversas razões, “Abraços Partidos‘, novo filme do Almodóvar. O outro é ‘Nova York, eu te amo‘, uma declaração de amor sensível, engraçada e apaixonada à Grande Maçã. Sobre esse, eu falo depois.

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Abraços Partidos (Los abrazos rotos, Espanha, 2009)

De todos os filmes de Almodóvar que vi, esse é o primeiro a angariar tantas críticas negativas, algo que, sinceramente, me deixa extremamente surpresa. Ainda que goste muito de determinado autor ou diretor, me sinto capaz de manter o distanciamento quando vejo algo que não me agrada, mas esse não foi o caso. Parece que há uma certa má vontade com Almodóvar, como se ele tivesse sempre que exagerar nas tintas para que seu trabalho não seja considerado ‘menor’. Enfim. O plot de ‘Abraços partidos’ é um tanto intrincado – pelo menos foi essa minha impressão. É uma história que dialoga com o passado; aliás, o passado também é um personagem, na minha maneira de entender. Esse trechinho aqui resume bem a trama, sem estragar as ‘surpresas’:

Penélope interpreta Lena, uma aspirante a atriz que, depois de se tornar companheira de um empresário milionário, seu antigo chefe nos idos de 1992, consegue a chance de estrelar Garotas e Malas, a primeira comédia do diretor Mateo Blanco (Lluís Homar) depois de uma série de dramas. Algo de fatídico aconteceu durante as filmagens, porque quando a trama avança até 2008, ano da morte do empresário, Mateo está cego e Lena é apenas uma lembrança.

Achei o filme, em primeiro lugar, uma obra madura, mais contida, de fato. É daquelas obras onde o autor parece olhar para o caminho percorrido a fim de refletir sobre ele. Nesse sentido, o filme de Almodóvar é também um meta-filme. O estranhamento dos críticos causa certo espanto na medida em que alguns dos mais recorrentes elementos almodovarianos dizem presente em ‘Abraços partidos’: um certo clima ‘noir’, o gosto pelo kitsch, as mulheres que parecem sempre fortes – em oposição a homens fracos – e que conduzem a narrativa, os elementos de inspiração claramente melodramática. Todos esses traços característicos estão lá, mas a maneira de combiná-los é, com certeza, diferente dos trabalhos anteriores. Nesse sentido, basta comparar “Abraços partidos’ a outras duas obras do diretor que, por sinal, são minhas favoritas: ‘Tudo sobre minha mãe’ e ‘Volver’. São vários filmes dentro do mesmo, como bem aponta esse texto aqui:

Del mismo modo que Penélope es varias mujeres en una sola (actriz, secretaria, hija, amante), Los Abrazos Rotos son varias películas, o varias historias, que confluyen en una sola. Como un rompecabezas que cuesta armar hasta que predomina una imagen o un color que nos sirve de guía. O como una sala de montaje donde hay muchas escenas, y varias tomas, como pedazos de una misma fotografía, de las que pueden salir diferentes películas según cómo sean editadas. Y según quién las edite. Cine negro, melodrama, comedia dentro del drama, cine dentro del cine. Amores, pasiones, obsesiones, traiciones, mentiras, verdades. Todo con el característico sello Almodóvar, que suele incluir diálogos imposibles, revelaciones inesperadas, mucha música de fondo (siempre brillante, gentileza de Alberto Iglesias) y colores fuertes. Mucho rojo, mucho objeto de diseño, mucha obra de arte, mucho arte.

Voltando à questão da dicotomia que mencionei acima, acho que estabelecer essa relação binária ‘forte x fraco’ quando se trata de mulheres e homens na obra de Almodóvar seria esvaziar seus personagens de sua inerente complexidade. Claro que para um espectador mais desavisado, talvez seja essa o aspecto mais aparente. Em ‘Abraços partidos’, por exemplo, os homens parecem sucumbir à paixão pelas mulheres, são tragados por elas [no caso, pela figura emblemática de Lena, uma Penélope Cruz com ares de diva misteriosa, sensual e belíssima até o limite]. Interessante também é notar o fato de que os homens, invariavelmente, carregam uma ‘impossibilidade’ física qualquer que os leva a estabelecer – em maior ou menor grau – uma certa relação de dependência com as mulheres. Ora é o milionário marido de Lena que precisa contratar uma ‘leitora’ de lábios, já que não pode ‘ouvir’ Lena no vídeo que fazem gravar dela; ora é Mateo que, ao ficar cego, necessita da ajuda constante de sua produtora.

Mas o filme também tem suas fraquezas, a mais evidente delas seria o fato de que alguns aspectos da trama se perdem no todo da narrativa e acabam por enfraquecê-la. Desse modo, concordo com esse resenhista aqui, quando ele diz que as cenas do DJ e das drogas ‘incham’ o filme e passam uma impressão de artificialismo totalmente dispensável. À parte desses pequenos escorregões, não percebo outros elementos que mereçam uma crítica tão aguda quanto as que tenho lido nos sites especializados. Dizer que “Abraços partidos’ é um ‘melodrama monótono‘ é não perceber o lugar que ele ocupa dentro da obra do diretor; é atirar os elementos melodramáticos do qual a obra se vale [e eles são muitos] na vala comum dos filmes estilo ‘sessão da tarde’, o que seria uma injustiça. As reviravoltas na trama ao final revelando fatos importantes do passado – que poderiam servir de munição para os detratores do filme, já que nos remetem a um gênero bastante conhecido, as telenovelas – são de igual modo, infundadas, já que se trata de um recurso recorrente do autor e aqui, particularmente, obedecem à lógica da narrativa. Nesse mesmo espírito, afirmar que a mistura ‘Almodóvar + filme noir” não dá bons resultados me parece um pouco apressada. De maneiras diversas, vários filmes de Almodóvar ‘flertam’ com essa estética noir e em ‘Abraços’, uma história que envolve paixão, ciúmes traição, morte e uma mulher belíssima, ela me parece bastante adequada.

Quanto aos atores e seus personagens, gostei bastante da composição dos mesmos; as interpretações me pareceram adequadas e Penélope Cruz mostra estar no seu melhor momento como atriz. Ao contrário do que li, a paixão que move os personagens é evidente, ainda que ela se manifeste de maneira mais contida, embora seja preciso algum esforço para enxergar através das várias cortinas de fumaça que o diretor arma para seus telespectadores.

Em resumo, o que fica do filme para mim, acima de tudo, é exatamente essa paixão. A paixão de dois homens por uma mulher, a paixão obsessiva de um diretor pelo seu filme, a paixão de um artista por sua obra. E a paixão, como todos sabem, pode destruir, desagregar, despedaçar. É preciso domá-la, domesticá-la para se conviver com ela. Almodóvar faz isso brilhantemente. É, portanto, um filme para se assistir com olhos atentos e coração aberto.

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10 Comments

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10 responses to “Últimos filmes

  1. eu quero assistir esse filme, nem estou lendo nada a respeito pra não ficar influenciada… rs
    bjs

  2. ah, eu já sou diferente: gosto de ler alguma coisa antes e depois ler mais, pra poder tirar minhas próprias conclusões. mas eu nunca vejo filme nenhum ‘no escuro’, nunca mesmo. quando vou já sei que vou gostar 😉

  3. Bella

    já eu, super vejo filme no escuro. posso escolher pelo ator ou atriz, pelo diretor, pelo título… sem maiores informações. só que tem aquele lance, às vezes dá super certo como foi com O Leitor que eu fui ver só por causa da Kate Winslet. como eu não sabia nada, a história acabou sendo mto mais surpreendente, além do filme ser ótimo. mas às vezes dá bem errado!
    bjks

  4. Bella

    mas amiga, fala sério, aquele Medos Privados em Lugares Públicos foi de matar, lembra??! ehehehe! taí um filme q eu fui no escuro e me ferrei…

  5. pois cris, eu prefiro no escuro… se me contar eu faço julgamento e já acho q determinada coisa não vai prestar, daí prefiro ter opinião depois de ver meeesmo.
    bjs

  6. aaahh, mas eu leio várias opiniões. se elas se dividem muito, daí eu vou conferir com meus próprios olhinhos. se a maioria diz que é porcaria, eu nem vou. tá louco, cinema tá muito caro, hehehe #sarinha

  7. bellitcha, eu nem achei aquele filme ruim-ruim. achei bizarro, o que é ligeiramente diferente, hahahaha

  8. é, tá caro mesmo, por isso só vou qndo me convidam. kkkkkkkkkkkk
    bjs

  9. monica

    Adoooro meta-cinema. Quero ver. Sherlock tá na minha lista tb, ai ai, Robert Downey.

  10. Eu li o texto meio por cima, pra não influenciar minha opnião também, mas depois que ver o filme volto aqui pra comentar ou comento lá no meu blog, já coloquei na minha listinha 😉

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