Nanni

Meu conhecimento de cinema italiano é quase nulo; uma ignorância imperdoável. Dos poucos filmes que vi o mais marcante foi, sem dúvida, ‘Noites de Cabíria’. Por questões óbvias, vez por outra eu tinha que parar o filme pra poder respirar um pouco e andar pela casa. Porque dava um aperto bem aqui no fundo.

Daí um dia, nem sei como, descobri o Nanni Moretti e seu ‘Aprile‘. Não sei se li algo sobre e fui buscar na locadora ou se vi o filme em algum desses festivais da vida. Só sei que foi amor à primeira vista. Adorei a história do cineasta às voltas com o nascimento do primeiro filho, tentando fazer um musical sobre um confeiteiro trotskista [tem como ser mais divertido?], ao mesmo tempo em que desfia sua decepção com a política. Depois desse vi ‘O quarto do filho‘, também no cinema e só muito tempo depois conheci ‘Caro Diário‘, o qual, cronologicamente falando, vem antes desses dois aí.

‘Aprile’ e ‘Caro Diário’ eu tenho na minha estante. Sim, senhores, porque, apesar de adorar internet e ser aprendiz de nerd eu ainda gosto de uns tantos itens da chamada ‘cultura analógica’, leia-se CDs, DVDs e livros. Não gosto de nada digitalizado, nada de arquivos no computador. Filme pra mim é algo de pegar, de ver a capa, de ler a contracapa, todas essas coisas que eu acho uma delícia e que são impossíveis de se fazer com um arquivo que você guarda nas profundas do notebook. Sou obsoletíssima, obrigada.

Daí que eu tirei esses dias pra rever ‘Caro Diário’. Eu vejo aos pedacinhos mesmo, saboreando o filme e as comidinhas que em geral me acompanham nesses momentos. Eu costumo ver o filme na hora das refeições e acompanhada da Samara que deita do meu lado e dorme [acho que ela não curte muito cinema italiano]. Eu gosto muito dessa trinca de filmes do Moretti [não vi outros ainda por falta de oportunidade; o próximo da lista é ‘Caos calmo‘, onde ele não encabeça a direção, mas assina o roteiro e atua], mas ‘Caro Diário’ pra mim é um deleite.

São três histórias, todas com atuação e narração do Nanni. A primeira é um tour que ele faz por Roma de lambreta, falando dos bairros de que mais gosta, eventualmente tentando conversar com as pessoas que encontra. Via de regra, os assuntos são seu filme favorito, ‘Flashdance’, e a vontade que ele tem de aprender a dançar. Eu rio demais com a aparente naturalidade com a qual o Nanni trata as esquisitices humanas. É um tom propositalmente sarcástico, mas ao mesmo tempo afetivo, como se ele dissesse: “Estão vendo, nossas idiossincrasias, nossa maneira peculiar de ver o mundo, nos irmanam”. São esses pequenos detalhes que me pegam na narrativa dele. Impossível não achar graça e, ao mesmo tempo, não se reconhecer.

Na segunda história, Nanni e um amigo percorrem várias ilhas italianas em busca de um lugar calmo para que possam trabalhar. Aos poucos, a paz que eles buscam longe de todos os artefatos da cultura moderna – que tem na televisão seu maior ícone – acaba virando uma prisão insuportável. A última história mostra a peregrinação de Nanni pelos médicos da capital italiana, em busca de algum que o cure de uma coceira intensa nos pés e nos braços. Com um tom de documentário, Nanni reúne as receitas que são prescritas, lê as bulas das centenas de remédios comprados, percorre vários consultórios em vão, até ir parar, meio que por acaso, num instituto de medicina chinesa. Algo muito familiar a todos nós e que acaba nos arrebatando. Bom, pelo menos arrebatou a mim, rs.

O Nanni é um desses casos de identificação total com uma obra, ou parte dela, a que eu consegui ver até hoje. Pena que as referências sobre ele sejam bem poucas. Em todo caso, fica aqui a dica pra quem ainda não conhece.

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6 Comments

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6 responses to “Nanni

  1. Já coloquei todos na listinha de filmes pra assistir 😉 Eu gosto muito de cinema alternativo fora do comum de Hollywood então qq fórmula testada e aprovada é bem-vinda!

  2. lelei, pode ir no nanni que não tem como dar errado. pelo menos esses 3 aí que eu vi. agora quero ver ‘caos calmo’, vou procurar na locadora hoje. bjs!

  3. Tina Lopes

    Não só quase desidratei vendo O Quarto do Filho como fiquei triste um bom tempo depois. Aliás, é de longe o filme mais triste que já vi. Mas dos italianos vc sabe que eu amo os antigos, né? Não tem como não ver La Dolce Vita, é tu-do. Oito e Meio. E olha que não sou fellinimaníaca, gosto mais dos dramáticos-divertidos – todos do Mario Monicelli.

  4. tina, vou fazer um curso intensivo de cinema italiano em 2010, prometo!! rs

  5. Tina Lopes

    E mais (marido me atrapalhou, grrr) Nós que nos amávamos tanto (título lindo) e I Soliti Ignoti (não sei a tradução, o George Clooney refilmou) são outros dos meus preferidos. E eu juro que não são parecidos com Feios Sujos e Malvados (adoro, mas é pra ver uma vez na vida).

  6. Concordo com a Tina, Nós que nos amávamos tanto, título e filme lindo, adorei, preto e branco, eu acho que tem o V Gasmann é assim que se escreve?
    vi ontem filme que vc indicou, A Deriva, do H. Dhalia, muito bom, gostei do ator francês e da filha dele, linda né?
    madoka

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