Isso não é uma resenha

Deuzolivre, eu escrevendo uma resenha. Já tive muito que ensinar aluno a escrever textos quadradinhos e adequados às normas. Isso aqui não é uma resenha, volto a repetir. É só um texto pra falar de um livro de que gostei muito. O livro de um amigo meu. Um cara cri-cri, querido e muito amado. Fofo toda vida.

Eu confesso que comecei a ler o livro do Alex Castro – Mulher de um homem só – com uma única intenção: vou achar defeitos. Não quero gostar, não quero me apaixonar. Sei lá eu porquê. Eu tenho essa atitude defensiva, acho, pra ficar ‘testando’ o livro. Tipo uma prova de resistência. O texto tem que me vencer. Algumas vezes sou eu a vencedora. Começo a ler pensando: ‘Ahá, esse aqui não me vence’. E, infelizmente, isso acontece e eu desisto do dito cujo. Porque é chato, monótono, mal escrito, cheio de lugares comuns. Não sou eu que tenho que resistir ao livro. É ele que precisa resistir a mim. Precisa dar um chute bem dado nas minhas desconfianças. Provar que merece minha atenção e meus afetos.

Tenho que admitir que o livro do Alex fez isso – e fez bonito demais. Porque eu me apaixonei. Imaginem isso: um texto que não só me venceu, como me fez cair de quatro por ele. Não estou aqui rasgando seda só porque o autor já lambeu e beijou os meus pezinhos [hahahahahaha]. Vejam bem que, não obstante esse fato, eu comecei a leitura de MduHS já fazendo muxoxo. Levei uma rasteira, fiquei bem feliz e quero tentar explicar a razão disso.

Em primeiro lugar, o Alex escreve bem pra caramba. Ele brinca com a língua, existe uma relação dele com a língua que é erótica, de desejo, de fruição, bem como fala o Barthes. O Alex tem intimidade com essa senhora. Nas mãos dele, ela – a língua – se entrega. São inúmeras as passagens que eu poderia colocar aqui pra ‘provar’ isso. Mas eu não quero provar nada. Lembram? Isso aqui não é uma resenha. Quem acreditar em mim vai ter que fazer a sua busca, vai ter que ir lá e constatar in loco se estou certa ou errada.

Em segundo lugar tem o narrador. Se eu soubesse teorias da narrativa, eu faria uma análise extensa sobre a questão do ponto de vista, ou foco, ou sei lá eu como chamar isso. Só sei que a narradora participa da história. Como se chama isso? Narrador autodiegético? Dane-se, né. Isso não explica nada. Esses nomes que nos obrigam a aprender nas aulas de Teoria da Literatura não servem pra nada. Porque não explicam a paixão. A rasteira. Então eu prefiro dizer que a narradora [Carla, casada com Murilo], me confundiu, me exasperou, me deixou com vontade de dar um chute na bunda dela. Me levou pra dentro da história, dialogou comigo, olhou no fundo do meu olho e me perguntou: “Você me entende?’ A partida então ficou assim:  MduHS 2 X Cristiane 0.

Em terceiro lugar [que deve ser também o último, senão esse texto fica chatésimo e eu tenho que preparar uma aulinha]: existe a questão do título e da história em si. E existe também o fato – para mim muito claro – de que o autor lança uma bela e espessa cortina de fumaça nos nossos olhos. Porque, ao contrário do que possa parecer, MduHS não é uma história de ciúme. Isso não ficou claro logo no começo para mim. Foi preciso prestar atenção demorada às palavras de Carla pra perceber isso. MduHS é a história do amor de Carla por Júlia. E de como ela resistiu a esse amor até o fim. Esse dado, esse ‘truque’ do autor me fisgou. Porque não há nada que seja dito claramente. A gente nunca vai poder dizer com toda certeza e eu acredito que a boa literatura faça exatamente isso.

Bom, quem já leu o livro – ou ainda vai ler, espero – pode questionar as minhas palavras. Essa é a minha leitura. Que eu fiz baseando-me em alguns indícios do próprio texto. E aqui eu me lembro de uma professora da graduação que dizia, ao comentar o texto do Eco, Obra aberta: ‘Gente, a obra é aberta, mas não é escancarada’. E o que isso vem a ser? Isso quer dizer, apenas, que as possibilidades de leitura estão inscritas no próprio horizonte do texto. Essas possibilidades podem ser múltiplas – sim, óbvio – mas não infinitas. Não disparatadas. É no próprio tecido da narrativa que vamos encontrar as pistas de que necessitamos.

Então, só como exemplo, eu vou transcrever aqui uma das passagens do livro que para mim é das mais belas:

Lá do nosso jeito, a gente se entendia, e conversávamos muito, falávamos de Murilo, novela e política e fofocas em geral. Outra vezes, nem trocávamos palavra, e era assim que eu apreciava Júlia. Ela adorava mexer no meu cabelo, me pentear longamente, languidamente, lentamente, e eu gostava, me entregava, me prostrava, ficávamos no sofá da sala, ou até na rede mesmo, eu deitada sobre o colo de Júlia, sentindo a escova repuxar os cabelos, sentindo as pontas dos dedos massageando o couro cabeludo, sentindo aquela coceirinha marota nas raízes do cabelo, sempre naquela faina infindável, deliciosa, pachorrenta, úmida de tão boa, tenho cabelos longos, nunca cortei, vão até a cintura, e Júlia mastigava inveja, degustava mexer em meu cabelo, ajeitar, pentear e cheirar, e cuidadosamente enrolar em seus dedos e mãos e depois deixar desenrolar macio, e assim ficávamos as duas, horas, eu grávida e Júlia ali, puxando e repuxando, penteando e despenteando, depois, Raquel nascida, colocávamos o berço na sala e tudo continuava igual, eu dormia sentindo os dedos de Júlia em meus cabelos, acordava e ela ainda estava lá, e então eu dormia de novo, e era tão bom, porque não havia palavras, não havia Murilo, não havia inconsequência, não havia arte, não havia nada, só aquele momento, só nós duas, só aquele contato […]

Eu poderia dizer inúmeras outras coisas, transformar esse texto num artigo e fazer vocês desistirem da ideia de ler o livro, por isso vou concluir. O saldo da partida ficou assim: MduHS 3 X Cristiane 0. Perdi feio e tenho imenso prazer em admitir isso.

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Eu comecei esse texto como uma não-resenha e, sinceramente, fiquei sem saber como terminá-lo. Acho que, seguindo o espírito do livro, devo apenas dizer: não acredite em nada do que escrevi, uma só palavra. Compre o livro, tire suas próprias conclusões e – quem sabe – escreva a sua própria não-resenha. E depois volte pra me contar.

Itacoatiara, eu e meu pé feio

Para de fotografar meu pé, Alex!!

Fotos tiradas numa tarde de um dia qualquer, em Itacoatiara, quando o autor do livro e eu protagonizamos cenas pervertidas [ele beijou, lambeu e fotografou meus pés] e ainda chocamos toda a boa sociedade niteroiense [como dois adolescentes fariam]

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12 Comments

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12 responses to “Isso não é uma resenha

  1. CariocaExilado

    Logo os pés. Ele que fique com eles e me deixe o resto. Rs.

  2. B.

    Eu tenho que reler Mulher de Um Homem Só, li já tem muitos, muitos anos (outro dia o Alex bem lembrou que já fazem uns bons anos que nos conhecemos). Como vc eu tb comecei lendo o livro (na época era disponível em e-book para download em seu LLL) achando que não chegaria ao fim. Tinha uma puta implicância com e-book e hj até prefiro, mesmo sendo um mini romance, não sei pq torci o nariz achando isso.

    O que sei é que ele teve o mesmo efeito sobre mim, fui lendo, lendo, lendo… E quando terminou (?) parecia até programa do Jô, fiz um “Ahhhhhhhhh…” de peninha. Alex escreve muito, e a mente pervertida dele (neste livro completamente coadjuvante), me excita. Mulher de um homem só é daqueles livros, que daqui a anos vai ser citado como a marca de um gênio.

  3. hahahahaha, carioca, aposto que o alex nem liga pro resto.

    B. gostei muito mesmo disso que você falou e adorei saber que mais alguém nesse mundo compartilha da minha birra, rs. porque o melhor da birra é isso: é descobrir o quão enganada se estava. é se deleitar na derrota e se entregar, hahahahaha. amei o livro, amei. recomendo pra todo mundo. bjs!!

  4. ah, agora eu quero ler…

  5. Adorei esse outro modo de ver o texto. Não pensei em Carla lutando para não amar Júlia… hora dessas releio procurando ver assim… 🙂

  6. Bella

    ahhhhhhhhhhh tb quero ler agora!
    amiga, essa implicância com seu pé… só Freud explica, pra ficar num cliché básico!
    bjs no pézinho rejeitado

  7. hahahahaha, bella, mas é feio, ué. até meu pai falava: filha, você é uma graça, mas esse teu pé… tudo culpa dele a fortuna que eu gastei de análise [olha, totalmente off-topic: eu sigo a @twitess, pode me dar unfollow, hahahhaha.]. e quanto ao livro: leia. compra lá no site do alex.

    ulisses, eu fui ficando com essa impressão [de que carla lutava pra não amar júlia] ao longo da narrativa. e de que o murilo ali é totalmente coadjuvante. a história é das duas 😉

    ju, vale a pena. vai lá no LLL e pede que chega direitim [quer dizer, eu acredito, porque o meu eu comprei na noite de autógrafos, com direito à dedicatória e tudo, rs].

    bjs!

  8. alex castro

    o livro chega e chega mt bem, só temos clientes satisfeitos. 🙂

    e o pé da cris faz sucesso em fóruns de podólatras por todo o mundo, contrariando as neuras bobas dela. 🙂

  9. É uma ótima resenha, cris, fiquei bem interessada no livro, vou ler em algum momento, espero.
    um abraço,
    clara

  10. Bella

    amiga, unfollow vc now! hahahah! mentiraaaaaaaa! vc pode gostar da Tessaralha o qto quiser q eu não largo! vai ter q me engolir! ha!
    putz, como vou encomendar livro agora? nem dá tempo, já to quase no check in! vou pegar o seu e ler no fds pq frete pra Portugal deve ser carooooooooo!

  11. Pingback: alex castro - Um Amor Lésbico Frustrado?

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