Monthly Archives: April 2010

Pra quê?

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“Existirmos: a que será que se destina?”

Eu, muitas vezes, fico aqui me perguntando.

[Ando meio triste – é verdade – mas essa não é uma pergunta cheia de revolta, não. É só espanto com o despropósito de algumas coisas.]

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Das coisas que ficam

Eu podia dizer muitas e muitas coisas sobre você hoje, pai. Mas foi um menino de 19 anos que conseguiu colocar em forma de palavras uma homenagem única, a expressão mais pura da saudade e da admiração que todos sentíamos por você. De onde você está, com certeza deve ter lido isso e, peito inflado, vai repetir pra quem estiver do teu lado: “Meu neto parece comigo”.

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Obrigado por existir
Já dizia Einstein muito anos antes que eu pudesse nascer, o tempo é relativo. Para os mais velhos dez anos não é grande coisa, mas para uma criança ou jovem pode ser uma vida inteira. Eu percebi isso em aproximadamente dois anos. Os mais movimentados da minha vida até agora, faculdade, responsabilidades, comprometimentos. Esse também foi o tempo necessário para que eu pudesse criar enorme admiração por um homem fantástico, o senhor, vô. Como se houvesse um destino, algo feito perfeitamente para essa ocasião, depois de anos vivendo em um sítio que o senhor amava, relativamente longe de sua família, veio a decisão de voltar a Niterói. Daí nossas relações começaram a se intensificar, com os famosos lanches de domingo e as visitas constantes. Pouco mais de seis meses depois nós ficamos mais próximos ainda, alugamos um apartamento no mesmo prédio onde senhor morava. Daí vivíamos nos vendo, almoçamos juntos tantas vezes, víamos o futebol sagrado todas quartas e domingos, e apesar de nunca conversarmos muito, acho que era o nosso jeito, sabíamos que eram momentos especiais. No fim do ano passado eu soube da sua doença, soube que era grave, mas também soube que era possível o senhor voltar para casa. Não senti o golpe na hora, tinha certeza que iria passar e que o senhor estaria comigo por pelo menos mais uns vinte anos. Mas não passou, hoje recebi a notícia mais triste de toda a minha vida, o senhor se despediu desse mundo. Não deu tempo de fazer tanta coisa… Queria tanto aprender e ensinar mais. Queria te levar ao Maracanã uma última vez, queria ver a copa contigo naquela tv nova que era só para isso, queria te ensinar a usar um computador, mexer na internet e ver quanto o senhor podia usufruir dela, queria que o senhor me ensinasse a dirigir, me desse conselhos. Não deu tempo de o senhor ter um bisneto; antes mesmo de sua doença eu já dizia “Meu filho vai ter o nome do meu avô”, não deu tempo de te fazer essa homenagem. Pois é, o tempo foi curto. Dois anos inteiros e ainda faltou tanto a se fazer. Serviu pelo menos para o senhor me mudar e me conquistar. Nunca vou me esquecer do único ano da minha vida que eu torci de verdade para o Fluminense, seu time de coração. O senhor reclamava do futebol feio que andava vendo, que há tempos não via aquela beleza antiga, a classe, a arte. Eu queria que existisse tv naquela época, aí eu veria com os meus olhos o que o senhor me contava. Queria ver também um vídeo do famoso Nova Aurora, o time que segundo você poderia ser a seleção brasileira de hoje. Diante da ameaça de não ver mais os jogos caso o Fluminense fosse rebaixado, eu não pensei duas vezes e deixei a rivalidade de lado, torci internamente porque adorava passar aquele tempo junto contigo. Também não vou me esquecer das piadas, do humor único e especial que tirava qualquer um do sério, das histórias de marinheiro, das de vida também, está tudo guardado na minha mente. E como última lembrança, vou guardar aquele dia no hospital que eu disse ao senhor: “você tem que melhorar vô, nós temos que ver aqueles pernas de pau da seleção na copa, você não vai perder isso né?” e você me sorriu, sorriu aquele sorriso pela última vez, aquele que temos em fotos e vídeos e que só assim poderemos mostrar para nossas futuras gerações. Pode ter certeza que se o senhor acordasse hoje, e voltasse para casa, me veria chorando como nunca, correndo pra te abraçar. Se dizia a música “e agora como é que eu fico nas tardes de domingo sem Zico no Maracanã?”, como é que eu fico sem o senhor nas tardes de domingo para ver o futebol?? Como é que eu fico sem o sorriso sincero?? Sem as histórias? Sem os conselhos? Sem aquele jeito sério e duro que ao mesmo tempo era brincalhão e prestativo? Como último ensinamento eu aprendi o que é saudade. Como é sentir falta de alguém que nunca mais vai voltar, alguém único e especial. Eu aprendi embora não quisesse, e agora posso contar a todos como é. Me consolo na sua fé. O senhor acreditava na continuação da vida, na ida para um lugar melhor que esse. Eu acredito de coração que o senhor está lá.

Guilherme Cerdera Martins

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Emergindo

'The piano', Jane Campion

Essas fotos mostram cenas de um dos filmes que mais gosto nessa vida: ‘O piano’, da neo-zelandesa Jane Campion. Além da beleza da história, da trilha sonora e da interpretação dos atores [entre eles Harvey Keitel, divino, um dos meus ‘feios’ favoritos e Holly Hunter], existe uma cena da qual gosto muito: nela a protagonista cai no mar por acidente e quase morre afogada. O vetor que causa o acidente é justamente aquilo que ela mais ama, seu piano. Para sobreviver, ela precisa deixá-lo ir, deixar que ele ‘durma’ no fundo do mar. Talvez minha descrição não seja tão ‘viva’ e deixe a desejar. Mas o fato é que nesse momento da minha vida eu não consigo deixar de pensar no filme, no amor da protagonista por seu piano e em como ela precisou abrir mão dele.

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Sim, eu sumi. Na verdade, eu me exilei voluntariamente e só aos poucos fui voltando às minhas atividades normais. Sempre achei que blogs não deveriam ser transformados em ‘muros-de-lamentações’. Não vai aqui implícita nenhuma crítica; sou eu que não me sinto confortável fazendo do blog um lugar pra despejar as minhas tristezas. Não é que agora eu não esteja mais triste; entretanto, já consigo falar de tudo com certo distanciamento. Já consigo interagir com as pessoas. Uns dias mais; outros menos. E assim vamos tentando. O fato é que meu pai está muito mal no hospital. Quem acompanha o blog sabe que eu cheguei a mencionar aqui que ele teria que fazer uma cirurgia para a retirada de um câncer. A cirurgia foi feita, houve complicações, ele precisou ser operado de novo, teve uma parada cardíaca – quando eu estava ao lado dele – foi para o CTI e está lá até hoje. Tudo isso no curto intervalo de um mês.

Quando paro pra pensar que há um mês meu pai estava conosco e agora ele nem abre os olhos direito, não posso deixar de pensar o quanto a vida é realmente bizarra. Porque nada faz sentido. Tudo bem, o câncer não estava no início. Meu pai é um homem de 72 anos. Mas ele nunca esteve doente, nunca havia ido para o hospital. Em toda minha vida não me lembro de tê-lo visto mal por nada. Ele era forte, bonito, ativo. E agora isso. No CTI ele já teve uma pneumonia, que está sendo tratada, mas um dos rins agora está funcionando mal. Os médicos tiraram os sedativos há 10 dias e ele não acorda, o que – segundo eles – pode ser sinal de dano neurológico. Ele tem 30% de chances de sair dessa e, se sair, nunca mais será o mesmo.

Já chorei tudo o que havia nesse mundo para ser chorado. Hoje eu consegui ir lá e ficar em paz. Conversei com ele, fiz carinho, me emocionei, mas não chorei. Não sei qual é o grau de percepção que ele tem e sei que ficar emocionada pode fazê-lo sofrer mais. O que mais me dói é ter que deixá-lo lá, sozinho. É saber que só ele pode passar por isso, sem a ajuda de ninguém. Minha vida nunca mais será a mesma. Eu, que não conseguia falar de morte, nunca ia a hospitais e detestava falar de doença, agora leio tudo o que posso sobre câncer. Entro no CTI e faço questão de olhar para os doentes, para os familiares. Acho que é uma tentativa de encontrar pessoas que estão na mesma situação que eu. Não vai resolver nada, mas nessas horas a gente precisa estar com pessoas que estão passando pela mesma dor. Dá um certo sentimento de que não estamos sozinhos.

No meio disso tudo, não posso deixar de registrar o carinho de todos os meus amigos. Na manhã seguinte ao dia em que meu pai foi pra UTI, eu tuitei várias coisas, espalhei a minha dor meio sem critério. Na mesma hora recebi um telefonema de Nova Orleans. Era o Alex querendo saber como eu estava, querendo me abraçar de longe. No dia da ida para a UTI, meu pai passou a tarde na emergência. De lá mandei mensagem para outro amigo. Ele me ligou da Bahia, me confortou, me ouviu, me consolou. Nem posso dizer o quanto sou grata a eles e a todas as pessoas – de perto e de longe – que me ouviram, me deram carinho e esperanças. Não citarei nomes aqui, mas eles sabem quem são e sabem o quanto meu coração se emociona. Muito obrigada. Obrigada também aqueles que continuaram vindo aqui, que se interessaram em saber como eu estava. Alguns eu nem sequer conheço, mas agradeço de coração o interesse que tiveram. Tudo isso é importante demais nessa hora. Não foi possível para mim vir aqui antes e escrever tudo isso, porque estava doendo demais. Agora estou mais conformada, sei que não tenho poderes pra fazer com que ele fique comigo. Sei que, quando o dia chegar, precisarei deixá-lo ir. E sei que vou precisar do carinho dos meus amigos e das pessoas que, mesmo distantes, quiseram rezar por ele, acenderam uma vela, fizeram reiki, enfim. Todos aqueles que, de alguma maneira, participam da minha vida. Não sei quando vou voltarei a escrever novamente. Fica o meu abraço pra vocês. Obrigada pela presença.

Eu e o papi, num dia de festa há 5 anos atrás

No aniversário dele, em junho de 2007

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