Emergindo

'The piano', Jane Campion

Essas fotos mostram cenas de um dos filmes que mais gosto nessa vida: ‘O piano’, da neo-zelandesa Jane Campion. Além da beleza da história, da trilha sonora e da interpretação dos atores [entre eles Harvey Keitel, divino, um dos meus ‘feios’ favoritos e Holly Hunter], existe uma cena da qual gosto muito: nela a protagonista cai no mar por acidente e quase morre afogada. O vetor que causa o acidente é justamente aquilo que ela mais ama, seu piano. Para sobreviver, ela precisa deixá-lo ir, deixar que ele ‘durma’ no fundo do mar. Talvez minha descrição não seja tão ‘viva’ e deixe a desejar. Mas o fato é que nesse momento da minha vida eu não consigo deixar de pensar no filme, no amor da protagonista por seu piano e em como ela precisou abrir mão dele.

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Sim, eu sumi. Na verdade, eu me exilei voluntariamente e só aos poucos fui voltando às minhas atividades normais. Sempre achei que blogs não deveriam ser transformados em ‘muros-de-lamentações’. Não vai aqui implícita nenhuma crítica; sou eu que não me sinto confortável fazendo do blog um lugar pra despejar as minhas tristezas. Não é que agora eu não esteja mais triste; entretanto, já consigo falar de tudo com certo distanciamento. Já consigo interagir com as pessoas. Uns dias mais; outros menos. E assim vamos tentando. O fato é que meu pai está muito mal no hospital. Quem acompanha o blog sabe que eu cheguei a mencionar aqui que ele teria que fazer uma cirurgia para a retirada de um câncer. A cirurgia foi feita, houve complicações, ele precisou ser operado de novo, teve uma parada cardíaca – quando eu estava ao lado dele – foi para o CTI e está lá até hoje. Tudo isso no curto intervalo de um mês.

Quando paro pra pensar que há um mês meu pai estava conosco e agora ele nem abre os olhos direito, não posso deixar de pensar o quanto a vida é realmente bizarra. Porque nada faz sentido. Tudo bem, o câncer não estava no início. Meu pai é um homem de 72 anos. Mas ele nunca esteve doente, nunca havia ido para o hospital. Em toda minha vida não me lembro de tê-lo visto mal por nada. Ele era forte, bonito, ativo. E agora isso. No CTI ele já teve uma pneumonia, que está sendo tratada, mas um dos rins agora está funcionando mal. Os médicos tiraram os sedativos há 10 dias e ele não acorda, o que – segundo eles – pode ser sinal de dano neurológico. Ele tem 30% de chances de sair dessa e, se sair, nunca mais será o mesmo.

Já chorei tudo o que havia nesse mundo para ser chorado. Hoje eu consegui ir lá e ficar em paz. Conversei com ele, fiz carinho, me emocionei, mas não chorei. Não sei qual é o grau de percepção que ele tem e sei que ficar emocionada pode fazê-lo sofrer mais. O que mais me dói é ter que deixá-lo lá, sozinho. É saber que só ele pode passar por isso, sem a ajuda de ninguém. Minha vida nunca mais será a mesma. Eu, que não conseguia falar de morte, nunca ia a hospitais e detestava falar de doença, agora leio tudo o que posso sobre câncer. Entro no CTI e faço questão de olhar para os doentes, para os familiares. Acho que é uma tentativa de encontrar pessoas que estão na mesma situação que eu. Não vai resolver nada, mas nessas horas a gente precisa estar com pessoas que estão passando pela mesma dor. Dá um certo sentimento de que não estamos sozinhos.

No meio disso tudo, não posso deixar de registrar o carinho de todos os meus amigos. Na manhã seguinte ao dia em que meu pai foi pra UTI, eu tuitei várias coisas, espalhei a minha dor meio sem critério. Na mesma hora recebi um telefonema de Nova Orleans. Era o Alex querendo saber como eu estava, querendo me abraçar de longe. No dia da ida para a UTI, meu pai passou a tarde na emergência. De lá mandei mensagem para outro amigo. Ele me ligou da Bahia, me confortou, me ouviu, me consolou. Nem posso dizer o quanto sou grata a eles e a todas as pessoas – de perto e de longe – que me ouviram, me deram carinho e esperanças. Não citarei nomes aqui, mas eles sabem quem são e sabem o quanto meu coração se emociona. Muito obrigada. Obrigada também aqueles que continuaram vindo aqui, que se interessaram em saber como eu estava. Alguns eu nem sequer conheço, mas agradeço de coração o interesse que tiveram. Tudo isso é importante demais nessa hora. Não foi possível para mim vir aqui antes e escrever tudo isso, porque estava doendo demais. Agora estou mais conformada, sei que não tenho poderes pra fazer com que ele fique comigo. Sei que, quando o dia chegar, precisarei deixá-lo ir. E sei que vou precisar do carinho dos meus amigos e das pessoas que, mesmo distantes, quiseram rezar por ele, acenderam uma vela, fizeram reiki, enfim. Todos aqueles que, de alguma maneira, participam da minha vida. Não sei quando vou voltarei a escrever novamente. Fica o meu abraço pra vocês. Obrigada pela presença.

Eu e o papi, num dia de festa há 5 anos atrás

No aniversário dele, em junho de 2007

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12 Comments

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12 responses to “Emergindo

  1. Eu acho que, mais do que a maioria das pessoas, sei o que você está sentindo.

    Eu estava offline na época em que você postou as coisas no Twitter… li há uns dias algumas coisas, fiquei na minha, afinal não sabia direito o que tinha acontecido.

    Estou aqui rezando para que você encontre um pouco de paz nesse momento tão difícil.

  2. Cris, força e fé!
    Nada é impossível, sou a prova viva disso.
    Estou daqui torcendo por vocês.
    beijos

  3. Edu

    Eita, que dor. Entendo o seu afastamento. Queria poder estar perto. Você sabe que tem um lugar especial no meu coração e no do Mau – também em nossa casa. Beijo pra você e pro Papai Gatão.

  4. querida, não sabia do seu pai. deixo pra você um abraço apertado e um carinho enorme. sei o quanto dói e as palavras simplesmente não dão conta nessas horas. rezo por todos vocês.

    bjus

  5. Não nos conhecemos mas acompanho seu blog com atenção. Não vou dizer que sei o que está sentindo pois cada dor é única, mas passei por isso, de uma maneira mais imediata é verdade, e mesmo não sendo uma pessoa religiosa te digo que Alguém sabe o que faz.

  6. Hellen

    Olha, querida. Sei EXATAMENTE o que vc está passando. Me reconheci em cada uma das linhas, inclusive na parte em que acabamos nos identificando com os outros familiares que estão com parentes internados também. Lembro que nos 20 dias em que minha mãe lutou, chorei a perda de vários familiares de meus “companheiros de batalha”. E todos choraram comigo a minha. Só posso te dizer que vai ser difícil sim, muito. Mas a gente aguenta. Por mais que pense e sinta que não. Saiba que pode contar comigo, com minhas energias e pensamentos positivos que espero que cheguem à você e com meus desejos e votos de muita força, fé e coragem.

    Beijos e que Deus os abençoe.

  7. Cris, eu imaginei que você estava passando maus momentos e talvez fosse com seu pai, pelo que já havia escrito aqui.

    Fico tocada com sua dor, sei do que você está falando e torço para que ele siga o caminho melhor para ele, e que você aceite com coragem e serenidade isso que já percebeu – a vida é palha, muito leve e breve, de todos nós.
    um grande abraço, força,
    clara

  8. dufas

    Cris,
    toma aqui um abraço bem apertado, é o que tenho a te oferecer, querida.
    E um beijo grande.

    Frida Helê

  9. Cris,

    Eu estive nas duas situações – na cama e ao lado dela; vivo com a espada sobre a minha cabeça. Você sabe que eu durmo tarde, que eu não tenho marido pra ficar “Quem é?” quando o tel toca de madrugada. Tô pensando em você, como você pensou em mim, no meu pai, nas minhas filhas, na minha vida, na minha felicidade. Você está com um crédito gigantesco – pra gastar à vontade.
    Bjs, fica bem

  10. Força e paz, querida.
    Beijos!

  11. Oi Cris,
    Tou aqui chorando lendo seu texto, tudo tão tocante né? o filme que é uma beleza, eu também gostei muito, faz um tempão que vi. E vc falando do seu pai, da vida bizarra. Perdi meu pai faz pouco tempo, e quando isso aconteceu, o mundo parou pra mim e as coisas da vida e as pessoas continuavam a tocar suas vidas como se nada tivesse acontecido. E temos que ir tocando a vida, mas algo morreu também e hoje sigo em frente mas com muita saudade, muuuita.
    Então, te envio todas a coisas boas daqui do outro lado do mundão pra vc.
    Força , um forte abraço
    madoka

  12. estou aqui, tá. sempre. sempre.
    me dá um toque no final de semana?
    não quero ficar ligando pra não atrapalhar, mas dá um sinal, por favor?
    te amo.

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