Das coisas que ficam

Eu podia dizer muitas e muitas coisas sobre você hoje, pai. Mas foi um menino de 19 anos que conseguiu colocar em forma de palavras uma homenagem única, a expressão mais pura da saudade e da admiração que todos sentíamos por você. De onde você está, com certeza deve ter lido isso e, peito inflado, vai repetir pra quem estiver do teu lado: “Meu neto parece comigo”.

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Obrigado por existir
Já dizia Einstein muito anos antes que eu pudesse nascer, o tempo é relativo. Para os mais velhos dez anos não é grande coisa, mas para uma criança ou jovem pode ser uma vida inteira. Eu percebi isso em aproximadamente dois anos. Os mais movimentados da minha vida até agora, faculdade, responsabilidades, comprometimentos. Esse também foi o tempo necessário para que eu pudesse criar enorme admiração por um homem fantástico, o senhor, vô. Como se houvesse um destino, algo feito perfeitamente para essa ocasião, depois de anos vivendo em um sítio que o senhor amava, relativamente longe de sua família, veio a decisão de voltar a Niterói. Daí nossas relações começaram a se intensificar, com os famosos lanches de domingo e as visitas constantes. Pouco mais de seis meses depois nós ficamos mais próximos ainda, alugamos um apartamento no mesmo prédio onde senhor morava. Daí vivíamos nos vendo, almoçamos juntos tantas vezes, víamos o futebol sagrado todas quartas e domingos, e apesar de nunca conversarmos muito, acho que era o nosso jeito, sabíamos que eram momentos especiais. No fim do ano passado eu soube da sua doença, soube que era grave, mas também soube que era possível o senhor voltar para casa. Não senti o golpe na hora, tinha certeza que iria passar e que o senhor estaria comigo por pelo menos mais uns vinte anos. Mas não passou, hoje recebi a notícia mais triste de toda a minha vida, o senhor se despediu desse mundo. Não deu tempo de fazer tanta coisa… Queria tanto aprender e ensinar mais. Queria te levar ao Maracanã uma última vez, queria ver a copa contigo naquela tv nova que era só para isso, queria te ensinar a usar um computador, mexer na internet e ver quanto o senhor podia usufruir dela, queria que o senhor me ensinasse a dirigir, me desse conselhos. Não deu tempo de o senhor ter um bisneto; antes mesmo de sua doença eu já dizia “Meu filho vai ter o nome do meu avô”, não deu tempo de te fazer essa homenagem. Pois é, o tempo foi curto. Dois anos inteiros e ainda faltou tanto a se fazer. Serviu pelo menos para o senhor me mudar e me conquistar. Nunca vou me esquecer do único ano da minha vida que eu torci de verdade para o Fluminense, seu time de coração. O senhor reclamava do futebol feio que andava vendo, que há tempos não via aquela beleza antiga, a classe, a arte. Eu queria que existisse tv naquela época, aí eu veria com os meus olhos o que o senhor me contava. Queria ver também um vídeo do famoso Nova Aurora, o time que segundo você poderia ser a seleção brasileira de hoje. Diante da ameaça de não ver mais os jogos caso o Fluminense fosse rebaixado, eu não pensei duas vezes e deixei a rivalidade de lado, torci internamente porque adorava passar aquele tempo junto contigo. Também não vou me esquecer das piadas, do humor único e especial que tirava qualquer um do sério, das histórias de marinheiro, das de vida também, está tudo guardado na minha mente. E como última lembrança, vou guardar aquele dia no hospital que eu disse ao senhor: “você tem que melhorar vô, nós temos que ver aqueles pernas de pau da seleção na copa, você não vai perder isso né?” e você me sorriu, sorriu aquele sorriso pela última vez, aquele que temos em fotos e vídeos e que só assim poderemos mostrar para nossas futuras gerações. Pode ter certeza que se o senhor acordasse hoje, e voltasse para casa, me veria chorando como nunca, correndo pra te abraçar. Se dizia a música “e agora como é que eu fico nas tardes de domingo sem Zico no Maracanã?”, como é que eu fico sem o senhor nas tardes de domingo para ver o futebol?? Como é que eu fico sem o sorriso sincero?? Sem as histórias? Sem os conselhos? Sem aquele jeito sério e duro que ao mesmo tempo era brincalhão e prestativo? Como último ensinamento eu aprendi o que é saudade. Como é sentir falta de alguém que nunca mais vai voltar, alguém único e especial. Eu aprendi embora não quisesse, e agora posso contar a todos como é. Me consolo na sua fé. O senhor acreditava na continuação da vida, na ida para um lugar melhor que esse. Eu acredito de coração que o senhor está lá.

Guilherme Cerdera Martins

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12 Comments

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12 responses to “Das coisas que ficam

  1. ô minha amiga, queria muito estar ao teu lado agora. não há nada q eu fale ou faça q vá diminuir a tua dor, mas tenha certeza q nesse momento meu carinho é todo teu.
    fiquem bem!
    beijos

  2. Posso ver a cara (linda) do Guilherme escrevendo isso aí. De verdade.
    Fico bem mais calma aqui, tão longe, de saber que tu tem ele pra te cuidar nessa hora tão dura e difícil.

  3. Ah, Cris, sinto muito… 😦

  4. PD

    Fiquei profundamente emocionado, Guilherme. Seu texto, mesmo triste, tem uma grande leveza. Tenho certeza de que seu avô está feliz por vc ser como é.

  5. clara lopez

    Um abraço forte aos dois, sua carta diz do rapaz sensível e generoso que você é, guilherme, e seu avô com certeza gostou tanto de sua carta quanto nós.
    clara

  6. Hellen

    Querida, só posso diser que sinto muito por você e gostaria que soubesse que, mesmo de longe, estou aqui pro que você precisar. Imagino (pois mesmo tendo passado por isso há menos de 4 meses, cada dor é uma dor) como vocês estão se sentindo e só posso tentar te confortar dizendo que dói – muito – mas aos poucos vamos nos acostumando com a dor.

    Força e que Deus receba seu pai com o mesmo amor que, com certeza, recebeu a minha mãe e que você e sua família se unam mais e mais nesse momento tão complicado.

    Beijos e abraços quentinhos de sua amiga “virtual”,

    Hellen. ;*

  7. Hellen

    diZer…

    Foi a emoção.

  8. madoka

    nessas horas não tem palavras né? um abraço forte e apertado. me emocionei com a carta do Guilherme, mesmo! muito.

  9. Felicia

    Olá, não conheço vocês, e nunca havia visitado seu blog antes, mas queria deixar um abraço de solidariedade e força.

  10. Oi, queridos. Aos pouquinhos estou conseguindo sair da toca. Fica aqui meu agradecimento sincero a todo mundo que deixou recado, que rezou e se solidarizou com a gente. Eu perdi um pai maravilhoso, mas sei que um dia ainda vou encontrá-lo de novo. Não sou religiosa, não professo nada, mas também não consigo ser materialista a ponto de achar que tudo termina aqui. Olhar meu pai deitado naquele caixão me deixou perplexa e com a certeza de que a gente sabe muito pouco das coisas. Um beijo a todos.

  11. Sem palavras OK, Só aqui, se precisares.

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