Partiu

O rei dormiu mal, de um sono inquieto que constantemente se interrompia, mas pesado e negro como se dele não devesse acordar mais, e foi um sono onde não aconteceram sonhos nem pesadelos, nenhum velho de aspecto venerável anunciando o suave milagre, Aqui estou, nenhuma mulher gritando, Não me maltrates que sou tua mãe, apenas uma densa e inexplicável negrura que parecia envolver-lhe o coração e cegá-lo. Acordava com sede e pedia água, que bebia às tarraçadas, e vinha à entrada da tenda para espreitar a noite, impaciente com o tardo movimento dos astros. Era lua cheia, daquelas que transformam o mundo em fantasma, quando todas as coisas, as vivas e as inanimadas, estão murmurando misteriosas revelações, porém vai dizendo cada qual a sua, e todas, desencontradamente, por isso não alcançamos entendê-las e sofremos esta angústia de quase ir saber e não ficar sabendo.

José Saramago, História do cerco de Lisboa

Sim, eu sei que todo mundo escreveu post sobre a morte do Saramago no próprio dia, ou no dia seguinte, e que falar disso agora parece algo deslocado no tempo. Não vou repetir aquele chavão de que hoje em dia tudo acontece com uma rapidez estrondosa e que hoje – terça-feira – o que aconteceu na semana passada já pertence a um tempo distante. Então para que falar?

O tema ‘morte’ tem-me feito companhia com frequência ultimamente. Penso e fico remoendo, talvez por isso ‘perder’ Saramago tenha causado em mim um efeito maior que a morte de outras ‘celebridades’.

Fui ‘apresentada’ a Saramago no começo dos anos 90. Tenho o costume de escrever meu nome e o ano nos livros que compro, e nos livros dele está lá gravado: 1991, 1993. Não lembro nem porque me interessei por ele, mas deve ter sido um movimento que já vinha desde a graduação: me apaixonei pela literatura produzida em Portugal e comecei a ler os ‘grandes’: Eça, Pessoa, Garrett, entre outros. Devo ter ouvido falar de Saramago pelas mãos de algum professor da especialização e fui atrás dos livros. Aqui na estante repousam A jangada de pedra, Memorial do convento, História do cerco de Lisboa, O evangelho segundo Jesus Cristo, As intermitências da morte. Prefiro os mais antigos. Desses, faltou ler Levantado do chão. Intermitências dorme tranquilo na prateleira sem nunca ter sido importunado. Lembro que comecei a ler uma vez apenas, mas senti saudade do Saramago de outros tempos e fechei o livro. O gosto me pareceu um pouco como o de comida requentada, mas ainda era Saramago, só que sem a força habitual. Os efeitos que a leitura de seu texto me causou, foram os mais variados: ora um enlevo, ora um solavanco. O estilo às vezes seco, martelado, entremeado de poesia me emociona até hoje. Quando fui à Mafra, na minha primeira viagem a Portugal, fui com o intuito de conhecer o convento descrito por ele. Podem me chamar de boba, mas quase chorei de emoção.

Quando soube de sua morte e vi as entrevistas dele na televisão deixei a fleuma de lado, abandonei o ‘quase’ e chorei de verdade. Foi Dona Cleonice Berardinelli, na sua sabedoria habitual, quem resumiu meu sentimento de perda – e, com certeza, o de outros também:

Em seu Diário, no dia 3 de Dezembro de 1935, escreveu Miguel Torga: “Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje…” Hoje, agora há pouco, neste dia 18 de junho de 2010, chega-me pelo telefone a notícia de que morreu Saramago. Não tenho pinheiros nem fragas para meter-me entre eles e ir chorar minha profunda tristeza, mas posso, pelo menos, dizer que estou chorando a morte do maior  ficcionista de Portugal, um dos meus mais queridos amigos…

Nós aqui também lamentamos, Dona Cléo. Saramago nunca foi pop, mas merece ser ‘descoberto’ por quem o conhece apenas pelo cinema ou de ouvir falar. Quem sabe essa não é a hora.

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3 Comments

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3 responses to “Partiu

  1. monica parreiras

    Saramago é uma pessoa especial, talvez também porque não escondesse suas convicções, ideais e desencantos. ‘história do cerco’ é de arrepiar.
    Beijos
    Mônica

  2. o mais perto q cheguei de saramago foi o filme ensaio… mas já cheguei perto de ler memórias. vamos ver de qual é né?
    bj

  3. madoka

    como vc falou, muitas foram as homenagens que li, inclusive em vários blogs Cris, mas a sua está sendo a the best. É de quem realmente leu, adorei Cris.
    Eu só li um livro dele.
    um beijão
    madoka

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